
O ataque dos Estados Unidos à Venezuela na madrugada deste sábado (3) encerra a fase de ameaças de Donald Trump desde que praticamente reassumiu a Casa Branca.
Com os bombardeios e o sequestro de Nicolás Maduro e a esposa, uma nova fase se inaugura. Ela altera a tradição norte-americana de interferir em países da América Latina sem necessariamente sujar as mãos de seus soldados. A coisa funcionava mais ou menos assim até então, criando instabilidade e financiando grupos locais. Foi assim no período pré 1964 no Brasil e quase dez anos depois no Chile de Salvador Allende.
Dessa vez, a ação foi direta e o anúncio, idem. Trump meteu um ''fi-lo porque qui-lo'' nas redes sociais, à moda Jânio Quadros, e ainda anunciou que o mundo agora está livre da distribuição impune de drogas.
A desculpa dessa vez não era levar democracia em um país onde de fato a oposição foi estrangulada, mas acabar com o narcotráfico. A ação dá margem para fazer uma conta simples: se amanhã os Estados Unidos resolverem enquadrar o PCC e o Comando Vermelho como uma ameaça à segurança de seus compatriotas, é Lula (PT) e a primeira-dama Janja que podem sair de madrugada pela porta dos fundos do Palácio do Platalto sob a acusação de darem guarida a grupos terroristas.
O mesmo com a Colômbia de Gustavo Petro. Por coincidência, outro presidente de linha progressista. Que ninguém imagine algo parecido na Argentina, onde a secretária de Segurança de Javier Milei já foi acusada de receber dinheiro do tráfico durante a campanha presidencial de 2023.
O temor inicial é que os ataques se espalhem para além da Venezuela. E tenham consequências para além da migração em massa de venezuelanos para países como o Brasil.
É cedo para dizer. A princípio, Trump não agiria como agiu se soubesse que estava próximo de contratar uma encrenca com a Rússia e a China, países que em tese ainda mantinham apoio a Caracas.
De toda a ação, é estranho que não tenha havido qualquer troca de tiros ou acionamento de defesa antiaérea em meio a ameaças tão claras. Para quem sabia andar com um alvo nas costas, Maduro capitulou fácil demais. Mais fácil que isso só se o chefe da guarda bolivariana abrisse a porta dos aposentos onde dormia Maduro. Quem garante que não?
Na cabeceira está o controle de uma das maiores reservas de petróleo do Planeta. Assim como os reinos autoritários do Oriente Médio alinhados a Washington. Mas deles ninguém perturba o sono.
O presidente Lula não demorou a condenar o ataque, que classificou como inaceitável. Era esperado diante da tradição brasileira de mediação de conflitos e defesa da soberania de vizinhos.
Mas fica um tom abaixo de uma condenação que esticasse a corda em meio a uma delicada negociação pelo restabelecimento das relações comerciais após o fim do tarifaço de Trump sobre as exportações brasileiras. A química entre os dois pode ficar assim meio explosiva.
Maduro foi retirado à força do poder em um contexto de isolamento regional e troca de farpas com Lula, que cobrou transparência nas eleições venezuelana desde o primeiro momento.
Uma coisa é condenar o uso da força. Outra era defender Maduro, cada vez mais indefensável até pelos ex-aliados.
Em outras palavras: Trump pode ter agido contra um Estado enfraquecido para mostrar serviço para a base e deixar seu recado para governos não-alinhados. Não significa, a princípio, um modo strike, em que adversários vão caindo em série.
A verdade é que não há sequer exemplo na História brasileira sobre o que acontece quando um vizinho é bombardeado pela maior potência do Planeta.
Mesmo para o padrão Trump, imprevisível e caótico, parece uma medida ainda muito fora da curva da normalidade.
Nesta nova era, em que os ataques se dão sem intermediários e o lobo já não se veste de cordeiro, o mundo está longe de se tornar um lugar mais seguro - e a extrema-direita que agora clama pela democracia no quintal alheio depois de tentar um golpe por aqui sabe disso.