Marine Le Pen e Emmanuel Macron disputam segundo turno das eleições na França no próximo domingo (24)
Montagem iG / Imagens: Rémi Noyon / Flickr e Remi Jouan / Wikimedia Commons
Marine Le Pen e Emmanuel Macron disputam segundo turno das eleições na França no próximo domingo (24)

No próximo domingo (24), o atual presidente da França, Emmanuel Macron, e a representante da extrema-direita, Marine Le Pen , se enfrentam no segundo turno das eleições presidenciais do país . A ascensão de Le Pen tem chamado a atenção nas pesquisas de intenção de voto após ela ter ganhado força às vésperas do primeiro turno, que aconteceu no último dia 10 .

Embora os últimos levantamentos divulgados apontem para uma reeleição de Macron, a disputa ainda aparece acirrada entre os candidatos. Uma pesquisa Ipsos & Sopra Steria divulgada nessa segunda-feira (18) mostra o presidente francês com 12 pontos de vantagem sobre Le Pen no segundo turno. De acordo com os dados, o atual chefe de Estado marca 56% contra 44% da deputada, que vem subindo nas intenções de voto.

Pesquisa mostra disputa acirrada entre Le Pen e Macron
Divulgação
Pesquisa mostra disputa acirrada entre Le Pen e Macron


Com os resultados das pesquisas que mostraram diminuição da vantagem dele sobre Le Pen, antes do primeiro turno Macron lamentou ter começado a campanha eleitoral "mais tarde do que ele desejava" , em comparação com os concorrentes.

Graziela Dumard, doutoranda em Sociologia pela Universidade Estadual de Londrina, mestre em Ciência Política e Internacionalista, explica que os esforços de Macron para tentar mediar a guerra entre a Rússia e a Ucrânia, iniciada em 24 de fevereiro , o ajudou a alcançar protagonismo como possível estadista na União Europeia, mas também fez com que ele anunciasse sua candidatura à reeleição mais tarde, somente no início de março.

"Macron evitou participar de debates e eventos de campanha, e isso pode ser outro motivo que ajudou Le Pen a diminuir a vantagem, especialmente quando observamos que na França o voto não é obrigatório. E Le Pen, diferentemente de Macron, fez bastante campanha pelo país."

A guinada de Le Pen aconteceu depois que ela decidiu apostar em um discurso mais moderado, tentando melhorar a imagem de política ultranacionalista e xenófoba que carrega desde quando assumiu o lugar de seu pai, Jean-Marie Le Pen, como líder do partido em 2011. Com essa mudança, ela também atende a algumas expectativas do eleitorado centro-direita.

A herança da deputada na política é de família, já que o pai dela disputou quase todas as eleições presidenciais a partir do momento em que fundou o partido Frente Nacional, na década de 1970. Desde que Le Pen assumiu a liderança da legenda — que renomeou de Reunião Nacional — tenta desvincular a sigla das acusações de antissemitismo e negacionismo do Holocausto.

Além da melhoria na imagem, nas campanhas presidenciais deste ano a deputada também tentou focar em promessas de alívio econômico para a classe média francesa. Para Dumard, a pandemia pode ter contribuído para que as propostas de Le Pen tenham se tornado mais atrativas à população.

"Embora a França tenha se recuperado minimamente bem depois da pandemia, no sentido econômico, há temas sensíveis no debate. E a economia é o principal tema de batalha entre os dois candidatos. Apesar de as taxas de desemprego terem caído no país, os franceses se perguntam se os ganhos econômicos são de fato reais, principalmente porque o poder aquisitivo diminuiu por causa da inflação", explica a internacionalista.

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Por mais que a candidata tenha se destacado pelo discurso "menos radical" adotado nas campanhas, Rodrigo Fernando Gallo, professor de Política e Relações Internacionais do Instituto Mauá de Tecnologia (IMT), lembra que o crescimento de Le Pen nas pesquisas também está relacionado a insatisfações populares e aspectos específicos da gestão de Macron que não agradaram à população francesa.

"Tudo isso tornou o resultado desse primeiro turno mais acirrado. É necessário observarmos, agora, como os outros grupos políticos vão se comportar no segundo turno", afirma. "Acho provável vermos a consolidação de uma aliança de diversos grupos, da esquerda liberal ao centro democrático, contra a Le Pen."

Impacto da guerra

A eclosão da guerra na Ucrânia  e o modo como cada candidato enxerga certas questões relacionadas ao conflito também tiveram impacto significativo nas eleições francesas, e podem, inclusive, ter influenciado no ganho de popularidade da deputada símbolo da extrema-direita.

"A guerra desencadeou uma percepção de que, novamente, há problemas militares na Europa, ainda que a Ucrânia não seja membro da União Europeia. Grupos conservadores avessos à globalização podem ver nisso um problema associado à manutenção da França no bloco, e esse tipo de sensação encontra respaldo nos discursos de Le Pen", afirma o professor do IMT. "O mesmo vale a respeito de uma reflexão sobre a Otan. Muitos eleitores não veem vantagens em integrar a aliança militar".

Desdobramentos da guerra, como a questão dos refugiados, também são pontos sensíveis para grande parte dos eleitores conservadores no país, que tendem a concordar com o discurso anti-imigração de Le Pen. "Muitos não querem que a França receba refugiados, e esse é um problema histórico para o país, que afeta inclusive a construção da identidade francesa. Macron, por sua vez, está mais ligado à agenda das organizações internacionais, algo que desagrada os conservadores."

União Europeia e Otan

Uma possível vitória da candidata, entretanto, preocupa a União Europeia e a Otan. Bruxelas teme que a França, um dos países fundadores do bloco, caia nas mãos da extrema-direita, já que, de acordo com Graziela Dumard, a ascensão desse grupo na Europa sempre será vista com "desconfiança" e como uma "ameaça de existência" à UE, especialmente quando se trata de um país com o protagonismo que a França tem dentro do conglomerado.

Além disso, Le Pen já deixou claro, entre suas promessas, o desejo de que a França não faça mais parte da Otan, para que não fique "presa a conflitos que não são dos franceses". Apesar da ameaça à aliança, Rodrigo Gallo afirma que isso não deve acontecer tão cedo, porque não é fácil se desfiliar de uma organização como a Otan, principalmente com uma guerra em curso.

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"Uma tentativa de saída do grupo resultaria em críticas e pressões feitas por outros membros, tornando o caminho diplomático tortuoso. A solução prática seria, para Le Pen, manter o discurso de saída, quando na prática pouco avançasse. Ela poderia alegar ao eleitor que queria retirar o país da organização, mas que as condições políticas não permitem. É uma solução política para o impasse."


** Letícia Moreira é jornalista formada pela Faculdade Cásper Líbero. No Portal iG, trabalha nas editorias de Último Segundo e Saúde, cobrindo assuntos como cidades, educação, meio ambiente, política e internacional.

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