Marine Le Pen e Emmanuel Macron disputam segundo turno das eleições na França no próximo domingo (24)
Montagem iG / Imagens: Rémi Noyon / Flickr e Remi Jouan / Wikimedia Commons
Marine Le Pen e Emmanuel Macron disputam segundo turno das eleições na França no próximo domingo (24)


Candidato à reeleição, o presidente francês, Emmanuel Macron, deixou de lado o favoritismo das pesquisas, que o mostram com uma vantagem de 14 pontos percentuais em relação Marine Le Pen , e pediu que os eleitores saiam de casa no domingo para votar. 

Ele ainda reconheceu ter responsabilidade sobre o crescimento da extrema direita no país, que, este ano, deve ter seu melhor desempenho em uma eleição presidencial, mesmo em caso de derrota.

Em entrevista à BFMTV, Macron comparou a disputa de domingo à eleição presidencial de 2016 nos EUA, onde a democrata Hillary Clinton era a favorita absoluta contra um "azarão" Donald Trump, mas os resultados das urnas acabaram levando o republicano à Casa Branca, um caso similar à da votação sobre o Brexit, a saída do Reino Unido da União Europeia, naquele mesmo ano. 

Para ele, mutos eleitores consideraram que, como o resultado já estava definido, não precisariam mais ir votar. “No dia seguinte elas acordaram com uma ressaca”, disse Macron.

Hoje, as principais pesquisas mostram uma tendência de crescimento de Emmanuel Macron, do centrista A República em Marcha, na reta final do segundo turno: em questão de dez dias, ele subiu quatro pontos percentuais, chegando a 57% das intenções de votos válidos, e viu sua diferença em relação a Marine Le Pen, do o Reunião Nacional (RN), passar de seis para 14 pontos percentuais. Mas o presidente prefere evitar qualquer tipo de entusiasmo antecipado.

“Eu digo com muita convicção. Não são as pesquisas que fazem a democracia. Elas permitem indicar uma opinião e possuem uma função importante. Mas somos nós que decidiremos o que será do país no dia 24 de abril, e não as pesquisas do dia 22”, afirmou à BFMTV.


Desde a definição do segundo turno com Marine Le Pen, após a eleição do dia 10 de abril, Macron destaca a preocupação com a possibilidade de um alto índice de abstenção, em boa parte dos eleitores que votaram no candidato do França Insubmissa, o esquerdista Jéan-Luc Mélenchon, que teve 22% dos votos.

Muitos deles  evitam apoiar Macron, criticado por medidas como a proposta da reforma da Previdência, e sondagens internas do partido revelaram que 66% dos entrevistados estavam decididos a anular seus votos ou não sair de casa — um movimento apelidado de "nem Macron, nem Le Pen" ganhou força em círculos de esquerda. O próprio Mélenchon, embora tenha defendido que seus apoiadores não votassem na candidata da extrema direita, não endossou publicamente Macron.

Para tentar debelar esse sentimento, líderes associados à esquerda, como os primeiros-ministros de Portugal, António Costa, da Espanha, Pedro Sánchez, e o chanceler alemão, Olaf Scholz, além do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, expressaram seu apoio à reeleição do presidente, apontando para os riscos de uma Le Pen no Palácio do Eliseu. 

Nesta sexta-feira, o jornal Libération, também ligado à esquerda, fez uma convocação: "Contra a extrema direita, votemos".

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A tendência não se repete entre os eleitores dos demais candidatos derrotados, e embora nenhum deles tenha chegado aos dois dígitos, eles podem definir o vencedor, ou vencedora, no caso de um resultado mais apertado do que o previsto. De acordo com o instituto Ipsos, o comparecimento no domingo deve ficar entre 71% e 75%, similar ao registrado no primeiro turno.

Avanço da extrema direita
Mesmo se reeleito no domingo, Macron terá diante de si um cenário complexo na oposição: a extrema direita deve sair das urnas com seu melhor resultado histórico, confirmando um crescimento consistente nas últimas décadas.

Basta lembrar da primeira aparição deste campo político em uma eleição presidencial, em 2002, quando o pai de Marine Le Pen, Jean-Marie Le Pen, enfrentou Jacques Chirac, que buscava um novo mandato. Na época, uma frente que alinhava de conservadores a socialistas deu ao então presidente 82,2% dos votos, contra 17,8% de Le Pen, número parecido ao da primeira candidatura de Marine, quando ficou em terceiro na eleição de 2012.

Em 2017, quando Macron enfrentou Marine Le Pen pela primeira vez, e a extrema direita já havia ganhado musculatura na França, ele recebeu 66,1% dos votos, contra 33,9% de sua adversárias, um patamar que dificilmente alcançará neste domingo, salvo suspresas de última hora. Na entrevista desta sexta à BFMTV, ele assumiu parte da responsabilidade pelo crescimento dos extremistas na votação.

“O país foi profundamente abalado por crises, e os extremos se alimentam de crises, apesar das políticas públicas que pudemos adotar”, disse Macron. 

“É um fato que os extremos convenceram mais eleitores do que os partidos do campo republicano.”

Em suas últimas aparições na mídia, Marine Le Pen tentou repetir uma das bases de sua campanha, a de mostrar que suas posições foram moderadas ao longo dos últimos anos, muito embora ainda apresente opiniões radicais em temas como imigração, segurança pública e sobre liberdades religiosas na França, abordadas em um debate esta semana.

Nesta sexta, em entrevista à TV LCI, ela ironizou os apoios internacionais recebidos pelo presidente, afirmando que "o mundo inteiro está em ação para salvar o soldado Macron", e afirmou que o país "será lançado ao caos" se o atual presidente vencer no domingo.

“Eu criei a crise dos "coletes amarelos"? Eu ordenei aos policiais que atacassem os bombeiros? Eu mandei milhares de pessoas irem às ruas para protestar contra a reforma da Previdência?”, disse a candidata, citando algumas das crises do mandato de Macron.

“Podemos recuperar o respeito, a concórdia, mas não com a mesma pessoa.     ”Fazendo eco a políticos de extrema direita mundo afora, como Donald Trump, ela também colocou em xeque a confiabilidade das pesquisas.

“É fato que os franceses mentem em pesquisas. E as pessoas votam, as pessoas ganham. É uma verdade, porque será Macron ou a França”, concluiu.

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