Premiê Viktor Orbán venceu a quinta eleição na Hungria
Reprodução / CNN Brasil
Premiê Viktor Orbán venceu a quinta eleição na Hungria

O premiê da Hungria, Viktor Orbán , foi reeleito para o quinto mandato no país — sendo o quarto consecutivo — no último domingo (3), podendo acumular 16 anos como chefe de governo, um dos mais longos da Europa. O Fidesz, partido ultraconservador e nacionalista fundado por Orbán, conseguiu 53% dos votos e 135 das 199 cadeiras no Parlamento, garantindo a vitória do primeiro-ministro.

Orbán é considerado um dos principais expoentes da ultradireita na Europa e visto como uma inspiração ao conservadorismo no mundo.

Em fevereiro deste ano, o presidente Jair Bolsonaro (PL) chegou a se encontrar com o premiê , seis semanas antes das eleições locais, em Budapeste, na Hungria. Orbán promove uma escalada autoritária no país desde que assumiu o poder, com enfrentamentos ao sistema judiciário, perseguições à oposição e a minorias, além do cerceamento à liberdade de imprensa.

De acordo com James Onnig Tamdjian, professor de Geopolítica do Laboratório de Pesquisa em Relações Internacionais da FACAMP e pesquisador do Programa de Estudos Pós-Graduados do Mestrado em Economia Política da PUC - SP, o que mais vem atraindo votos para Orbán é justamente o discurso nacionalista que ele sustenta. "A defesa de valores da família, tradicionais, um discurso xenófobo, mais conservador… Esses temas agradam parte do eleitorado húngaro", afirma.

O pesquisador chama a atenção para uma tendência já identificada entre os eleitores da Itália, por exemplo, que pode estar sendo repetida na Hungria. "Para o governo do país, eles elegem políticos mais conservadores, liberais e de direita. E para governos regionais, de cidades, estados e províncias, políticos um pouco mais à esquerda", explica. "Pode estar acontecendo isso também na Hungria, porque algumas cidades na eleição anterior optaram por votar na oposição e o Orbán perdeu um pouco de apoio naquela época, que agora voltou a ter."

No dia em que saiu o resultado da votação, ao lado de apoiadores, Orbán comemorou sua vitória dizendo que foi "tão grande que pôde ser vista até da lua, e certamente pôde ser vista de Bruxelas", em referência à cidade que é sede administrativa da União Europeia. Apesar de a Hungria fazer parte do bloco, o premiê compartilha de uma relação tensa com a UE devido às pautas sustentadas por ele, que divergem dos valores defendidos pelo agrupamento, como políticas anti-imigração e anti-LGBTQIA+.

Para Kai Michael Kenkel, professor associado do Instituto de Relações Internacionais da PUC-Rio e Coordenador do Núcleo Democracia e Forças Armadas, o futuro da relação de Orbán com a União Europeia depende de como o húngaro vai conduzir esse novo governo. "A questão é que, mesmo com a retórica contra a UE, Orbán realmente vê o balanço dos ganhos como positivo em uma saída do bloco."

"Não acredito que virá um expulsão do lado de Bruxelas, mas sanções são possíveis. Também não tenho certeza de que a população, mesmo apoiando Orbán entre as opções presentes, toparia um 'Hungrexit' [termo usado para se referir a uma eventual saída da Hungria da União Europeia]", explica. "Dependerá se Orbán respeitará o limite na Constituição em termos de limites no poder, tanto no tempo quanto em relação a mudanças na ordem democrática."

Embora Orbán se oponha firmemente contra acolher refugiados, a Hungria foi o terceiro país que mais recebeu cidadãos ucranianos desde o início da guerra. Segundo dados do Alto-comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur) dessa quinta-feira (7), 408.652 refugiados já deixaram o território ucraniano e partiram em direção à Hungria. No total, mais de 4,3 milhões de pessoas fugiram do país após a invasão russa.

E a guerra?

Outro fator que também tem causado certo incômodo aos membros da UE e à Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) — da qual o país também faz parte — é a proximidade de Orbán com Putin , principalmente após a invasão das tropas russas à Ucrânia em 24 de fevereiro deste ano . Quando o conflito realmente se instaurou, a 38 dias das eleições na Hungria, o primeiro-ministro acabou tentando adotar uma posição de neutralidade em relação à guerra, também pensando no eleitorado.

"Sem dúvidas existiu uma estratégia eleitoral de adotar uma suposta neutralidade, especialmente porque no começo da invasão russa era o momento de início de campanha", afirma Tamdjian. "Se ele colocasse esse tema dentro do debate de uma forma parcial ou abertamente pró-Rússia ou pró-Ucrânia ele podia romper com o eleitorado, então ele praticamente retirou esse tema das discussões, fazendo poucas declarações e mostrando que o que está acontecendo é uma guerra, que tem os seus motivos, mas nenhum deles, naquele momento, interessava diretamente a Hungria."

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De acordo com Kenkel, Orbán se alinha com a alt-right internacional [do inglês alternative right, ou direita alternativa] junto com o ex-presidente dos Estados Unidos Donald Trump, Bolsonaro, o partido político alemão Alternative für Deutschland (AfD) e os presidenciáveis na França. Neste sentido, ele tende a apoiar Putin mais do que ser neutro, mas, segundo o especialista, o húngaro não deve se manter nessa posição por muito tempo justamente por fazer parte da UE e da Otan. "Orbán aceitou pagar o gás russo em rublos [uma exigência da Rússia] e não acompanha o ritmo de ajuda militar e humanitária [à Ucrânia] dos outros países da Aliança, mas ele está condenado a não ir longe demais nessa posição", acrescenta.

Em 1º de fevereiro deste ano, o premiê chegou a visitar o presidente russo em meio à tensão de uma possível guerra. A viagem foi criticada por países da UE e pela oposição, que chegaram a pedir que Orbán desistisse do compromisso por temerem que o encontro fosse visto como uma forma de apoio à Rússia no conflito.

Na ocasião, o primeiro-ministro disse que “nenhum dirigente europeu quer a guerra”, afirmando ser "a favor de acordos pacíficos".

Na última segunda (4), o presidente russo inclusive parabenizou o líder húngaro pela vitória nas eleições gerais, reforçando o desejo de reforçar os laços entre os países.

A proximidade com Putin ocorre também no mesmo cenário em que Orbán já foi visto trocando farpas com o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, em outras ocasiões. Durante discurso de comemoração de sua vitória no último domingo , o premiê citou Zelensky como um “adversário”.

“Lembraremos dessa vitória até o fim de nossas vidas, porque tivemos que lutar contra uma enorme quantidade de oponentes”, declarou, citando Zelensky e autoridades de Bruxelas. “Nunca tivemos tantos adversários ao mesmo tempo”.

Os conflitos com Zelensky se dão, principalmente, pela disputa por hegemonia na região do sudeste da Europa, explica James Tamdjian. "Orbán tem interesses regionais porque ele quer influenciar os países vizinhos onde também têm minorias húngaras, e ele sabe o potencial que a Hungria tem e como pode se transformar em um líder regional", diz ele, acrescentando que, caso o conflito entre a Ucrânia e a Rússia seja prolongado, o premiê pode até mesmo apoiar algumas posições russas nas  negociações de paz e gerar uma contradição ainda maior com a UE.

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** Letícia Moreira é jornalista formada pela Faculdade Cásper Líbero. No Portal iG, trabalha nas editorias de Último Segundo e Saúde, cobrindo assuntos como cidades, educação, meio ambiente, política e internacional.

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