Tamanho do texto

Com 66,3% dos votos, Johnson herda um país em crise e um partido governante tão dividido que alguns membros temem que ele se desfaça

Boris Johnson arrow-options
Reprodução/Twitter
Novo primeiro-ministro teve ampla maioria dos votos válidos

Confirmando o favoritismo, o ex-prefeito de Londres, ex-chanceler e ardoroso partidário de um Brexit a qualquer custo Boris Johnson foi eleito novo líder do Partido Conservador britânico e, consequentemente, sucessor de Theresa May como primeiro-ministro do Reino Unido. Com 92.153 dos 160 mil votos dos filiados do partido, Johnson derrotou o chanceler Jeremy Hunt, o polêmico Johnson tomará posse amanhã, após audiência com a rainha Elizabeth II.

Leia também: Após declaração polêmica sobre o Nordeste, Bolsonaro inaugura aeroporto na Bahia

Com 66,3% dos votos, Boris Johnson  herda um país em crise e um partido governante tão dividido que alguns membros temem que ele se desfaça. O fracasso de May , que renunciou após falhar três vezes em aprovar no Parlamento o acordo de transição para o Brexit negociado com a União Europeia aprofundou ainda mais as divisões entre conservadoras — e a tendência é que elas se acentuem ainda mais conforme o calendário se aproxima do dia 31 de outubro, prazo que o país tem para deixar a União Europeia.

Nesta quarta-feira (24), após ser empossado pela rainha , o premier eleito se dirigirá à sua residência oficial, onde começará a montar seu gabinete. Sua eleição, entretanto, é tão polarizadora que diversos ministros conservadores, como Philip Hammond, da pasta das Finanças, declararam que pretendiam renunciar ou se demitir caso a vitória de Johnson fosse confirmada, juntando-se a um crescente exército de rebeldes que estão determinados a lutar para impedir um  Brexit não negociado . Opositores não descartam nem uma moção de censura para derrubar Johnson.

O primeiro sinal claro de insatisfação com o governo que ainda nem se formou veio na quinta-feira, quando mais de 30 conservadores desafiaram as ordens do partido e ajudaram a aprovar uma medida destinada a impedir que o próximo líder forçasse uma saída da União Europeia sem negociação, através da suspensão do Parlamento . A hipótese vinha sendo considerada publicamente por Johnson. Na semana passada, o Escritório de Responsabilidade Fiscal do Reino Unido divulgou uma estimativa que prevê uma dívida de 30 bilhões de libras esterlinas caso a saída sem acordo seja confirmada.

A eleição de Johnson também não é bem vista por boa parte da população britânica , visto que apenas 160 mil membros do Partido Conservador votaram para elegê-lo — algo correspondente a menos de 1% dos britânicos. Isto porque, pelo regime parlamentarista, o  primeiro-ministro é escolhido diretamente pelo partido do governo. Boa parte dos outros 99% da população, entretanto, se sentem excluídos de um processo tão crítico que determinará o futuro do Reino Unido , gerando um amplo questionamento sobre os próprios fundamentos da democracia do país.

Leia também: O que muda com a reforma: quem pode se beneficiar das regras de transição

A disputa que elegeu Boris Johnson resultou numa maior conscientização sobre a falta de representatividade da Câmara dos Comuns . A parcela de assentos de cada partido não corresponde à parcela de votos que recebe, o que resultou em mais pessoas — incluindo membros do Partido Conservador — pedindo uma revisão do sistema distrital simples, em que vence o candidato que obtiver a maioria simples dos votos em cada distrito eleitoral. Os críticos dizem que ele favorece os partidos já estabelcidos, que têm uma base geográfica maior.