Eliane Potiguara, primeira escritora indígena do Brasil
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Eliane Potiguara, primeira escritora indígena do Brasil

Primeira escritora indígena do país, fundadora da Rede Grumin de Mulheres Indígenas, professora e ativista, Eliane Potiguara, 71, recebeu, em novembro do ano passado, o título de Doutora Honoris Causa pela Universidade Federal do  Rio de Janeiro (UFRJ).

Em entrevista, ela fala sobre preservação da cultura indígena, o significado da escrita para esses povos e os entraves enfrentados por pessoas de origem indígena no Brasil, sobretudo sendo mulher.

"É uma luta de formiguinha, aos poucos, para fazer nossa cultura alcançar novos cantos do país, tirar do imaginário social aquela ideia de pena e apito ligada aos nossos povos", destaca.

O que é escrever, enquanto indígena?

É um trabalho lento de você deixar sua ideologia para as futuras gerações. Na verdade, eu não escrevo para mim; o escritor, principalmente o indígena, está escrevendo a coletividade dele, para questionar e deixar um legado ao seu povo. E os nossos livros indígenas não foram considerados nas políticas públicas atuais. As editoras, por sua vez, também devem ter sensibilidade para reconhecer materiais dessa realidade.

Como a senhora avalia que o poder público trata a valorização da cultura dos povos originários?

É uma luta constante de conscientização, sobretudo, a respeito da ideologia do opressor e oprimido. Eu viajei para mais de 60 países quando trabalhei na ONU, e lá fora há interesse, sim, em manter a identidade de um povo; aqui, o governo quer manter um sistema capitalista genocida e promover um apagamento da nossa cultura.

Nós lutamos pela territorialidade: línguas, costumes, espiritualidade, pinturas corporais e demarcação, por exemplo. Os povos indígenas são considerados personas non gratas; somos apagados pelo eurocentrismo. Fomos presos, torturados na Ditadura Militar, tentaram nos eliminar. E ano passado, começou o julgamento do Marco Temporal — um absurdo.

Quais os desafios das mulheres indígenas?

Tivemos um avanço importante com a eleição da primeira deputada federal indígena, Joênia Wapichana, mas ainda estamos na luta por visibilidade e respeito. Mas o governo não olha para a gente, não dá condições mínimas de vida, trabalho ou desenvolvimento.

Estamos numa situação de abandono. A Marielle Franco foi assassinada há quase quatro anos, e continuamos sem saber quem a matou. Se uma vereadora do Rio, que é capital cultural, continua injustiçada, imagine o que acontecerá com as mulheres indígenas?

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E a vida em sala de aula?

Fui professora há muitos anos, dei palestras em escolas e eventos. Em 2021, fiz mais de 40 lives, participei de festivais, afinal, é importante a gente elevar a potência para que o povo brasileiro se conscientize da riqueza que tem e deve proteger.

Minha vida está toda voltada para minha poesia e meus livros. Hoje, a literatura e a filosofia indígenas são, praticamente, derrotadas pelo atual governo. Qual a contribuição que o índio tem no sistema atual do Brasil? Fica a reflexão.

O que pode ser feito para estimular a leitura de escritoras, sobretudo indígenas?

Hoje, há muitos grupos de incentivo à leitura de mulheres. Eu solicito às editoras que publiquem meus trabalhos e os enviem para as escolas, pois é um tema necessário e que interessa.

Escritores precisam de editoras para a realidade se tornar material. Digo que é uma luta de formiguinha, aos poucos, para fazer nossa cultura alcançar novos cantos do país, tirar do imaginário social aquela ideia de pena e apito ligada aos nossos povos.


Embaixadora Universal da Paz, Cavaleiro da Ordem do Mérito Cultural do Brasil e, no fim de 2021, Doutora Honoris Causa pela UFRJ. O que esses títulos representam?

São uma forma de dar destaque à questão indígena, de transformar a invisibilidade em protagonismo. Pelo lado da luta, é uma forma de dizer "estamos aqui" vendo a violação dos nossos direitos, de alertar ao governo sobre o marco temporal.

É também a valorização da cultura como povos diferenciados: são mais de 200 línguas e 300 povos. Há uma história de resistência. O governo precisa reconhecer que não somos preguiçosos deitados na rede. O Brasil tem milhões de culturas que devem ser preservadas.

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