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Rivais na Guerra Fria, países usaram o espaço como uma vitrine de suas capacidades bélicas e tecnológicas

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Reprodução/Shutterstock
Pouso da Apollo 11, que completa 50 anos em 2019, garantiu a vitória aos norte-americanos

Terra, meados do século XX. A guerra era chamada de “fria”, mas os ânimos eram quentes entre as duas superpotências de então. Sob o fantasma da aniquilação nuclear mútua e global, EUA e a antiga União Soviética lutavam pela hegemonia no mundo pós Segunda Guerra, empreendendo uma corrida armamentista que logo se estendeu ao espaço.

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"Era uma competição que ia além da econômica, política, militar e tecnológica. Mais que isso, era uma disputa ideológica entre dois sistemas que se pretendiam universais: a democracia liberal dos EUA e o socialismo no modelo soviético", destaca Paula Vedoveli, professora da Escola de Relações Internacionais da Fundação Getúlio Vargas em São Paulo (FGV/SP).

"A corrida espacial é o lado visível desta competição, uma vitrine e um elemento muito importante de propaganda para mostrar às populações locais, dos países de suas esferas de influência e mesmo a dos rivais qual dos sistemas é mais capaz que o outro como forma de organizar a sociedade, produzir bens e prosperidade e oferecer segurança", afirma.

E os soviéticos largaram na frente. Em outubro de 1957, o lançamento do primeiro satélite artificial da Terra , o Sputnik 1 , do cosmódromo de Baikonur, no Cazaquistão, surpreendeu o mundo e assombrou os americanos, com seus bipes de rádio lembrando a cada órbita que a capacidade de colocá-lo lá é a mesma de pôr uma bomba atômica sobre suas cabeças, nos chamados mísseis balísticos intercontinentais (ICBMs, na sigla em inglês). Menos de um mês depois, os soviéticos lançavam o Sputnik 2 , levando a bordo a cadela Laika , primeiro ser vivo a viajar ao espaço.

"Em 1955, quando começa a corrida espacial, a competição entre EUA e União Soviética no campo das tecnologias nucleares está no seu auge. Ela tem início então como uma parte da corrida armamentista, com usos que estabelecem a capacidade de lançar mísseis contra os adversários e satélites artificiais que podem desempenhar funções estratégicas como comunicação e espionagem", lembra Paula.

Assim, os EUA ainda tentaram responder logo aos Sputniks, adiantando o lançamento de seu primeiro satélite para dezembro seguinte, apenas para verem o foguete Vanguard explodir ao vivo na TV segundos após o acionamento.

"Mesmo entre os aliados no mundo ocidental este fracasso teve forte repercussão, ficando conhecido pelos apelidos de “flopnik” ou “kaputnik”, o satélite que deu errado", conta a professora da FGV.

Quatro anos depois, os soviéticos reafirmam sua liderança na corrida espacial, novamente surpreendendo o mundo com o voo de Yuri Gagarin , o primeiro humano no espaço, em 12 de abril de 1961. Até então, o presidente dos EUA na época, John F. Kennedy , não era um grande fã da exploração espacial, preferindo manter o foco na corrida armamentista com projetos como o Minuteman, ICBMs que em versões mais modernas ainda hoje fazem parte do arsenal nuclear americano.

A humilhação e assombro com o pioneirismo de Gagarin e sua célebre frase “a Terra é azul”, no entanto, fizeram Kennedy mudar de ideia. Procurando uma resposta, ele mandou seu vice, Lyndon Johnson, avaliar a evolução do programa espacial americano junto à Nasa, criada pelo seu antecessor, Dwight Eisenhower , em 1958, na esteira da “crise do Sputnik”.

Johnson voltou a Kennedy com duas opções: construir uma estação orbital ou enviar uma missão tripulada à Lua . Em sessão conjunta do Congresso americano já em 25 de maio de 1961, pouco mais de um mês depois do voo de Gagarin, o presidente dos EUA anunciou sua decisão:

“Acredito que esta nação deve se comprometer com atingir o objetivo, antes do fim desta década, de pousar um homem na Lua e o trazer de volta em segurança à Terra. Nenhum outro projeto espacial neste período será mais impressionante para a Humanidade, ou mais importante para a exploração de longo alcance do espaço, e nenhum outro será tão difícil ou caro de cumprir”, disse em pronunciamento aos parlamentares.

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Desafio que Kennedy reforçaria em público no famoso discurso no estádio Rice, em Houston , Texas, em 12 de setembro do ano seguinte, no qual afirmou: “Decidimos ir à Lua nesta década e fazer outras coisas, não porque são fáceis, mas porque são difíceis. Porque este objetivo servirá para organizar e medir o melhor das nossas energias e capacidades, porque este desafio é um que estamos dispostos a aceitar, um que não estamos dispostos a adiar, e um que pretendemos vencer, assim como outros”.

"Kennedy não podia mais ignorar o que estava acontecendo, e após a Crise dos Mísseis de Cuba, que quase levou os dois lados à guerra e à aniquilação nuclear, em 1962, teve início um período de redução das tensões entre EUA e União Soviética", diz Paula.

"Isso levou à assinatura do Tratado do Espaço Sideral em 1967, com ambos países se comprometendo a não usar o espaço como plataforma de lançamento de armas de destruição em massa ou alvo de ataques com elas, garantindo seu uso pacífico. Mas este pacífico não quer dizer que o espaço deixou de ser área de competição entre os sistemas, e a conquista da Lua seria o clímax desta disputa", complementa.

E uma disputa difícil e cara foi. Intitulado Apollo , o programa inicialmente concebido também durante o governo Eisenhower anos antes exigiu uma mobilização sem precedentes das comunidades científica, industrial e militar americanas em tempos de paz. No seu auge, mais de 400 mil pessoas de centenas de empresas e instituições trabalharam no projeto, que consumiu investimentos estimados em US$ 25,4 bilhões à época, ou mais de US$ 153 bilhões (pouco menos de R$ 600 bilhões) em valores atuais.

Da rivalidade à cooperação

Se a corrida espacial começou como um disputa entre superpotências, hoje a exploração humana do espaço se dá em grande parte num contexto de cooperação internacional. Com exceção da China, que toca um programa espacial próprio e independente, todas as nações com capacidade técnica para tanto no planeta, incluindo os ex-rivais EUA e Rússia - “herdeira” da antiga União Soviética – tocam programas conjuntos na área.

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Talvez o exemplo mais claro destes novos tempos seja a Estação Espacial Internacional (ISS, na sigla em inglês). Orçada em cerca de US$ 100 bilhões (R$ 375 bilhões), a primeira base orbital com ocupação humana permanente começou a ser construída em 1998 num projeto conjunto das agências espaciais dos EUA ( Nasa ), Rússia (Roscosmos), Japão (Jaxa), Europa (ESA) e Canadá (CSA) e a participação de 16 países, entre eles o Brasil – depois excluído por não entregar sua parte.

De lá para cá, cerca de 240 astronautas de 18 países já passaram pela ISS, entre eles o brasileiro Marcos Pontes, atual ministro da Ciência, Tecnologia, Inovação e Comunicações, em 2006. Além disso, desde 2011, com a “aposentadoria” dos ônibus espaciais americanos, todos visitantes da estação chegaram lá a bordo de foguetes russos Soyuz.