
Os ciclones extratropicais são sistemas de baixa pressão atmosférica responsáveis pela formação de nuvens e chuvas. Esse tipo de fenômeno é comum nas áreas que abrangem o Sul do Paraguai, Norte da Argentina, Uruguai e a região Sul do Brasil.
Eles se formam quando massas de ar frio vindas da Antártida encontram massas de ar quente que estão no centro do Brasil. Esse contraste gera instabilidade na atmosfera, faz o ar subir e leva à condensação do vapor d’água, produzindo nuvens e precipitações.
Esse fenômeno climático ocorre durante todo o ano, mas a frequência maior acontece no inverno.
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Quente com frio
O climatologista Thiago Oliveira explica ao Portal iG que o encontro dessas massas de ar opostas acabam favorecendo a formação de uma frente fria e, associada a ela, a formação do fenômeno climático. Esse processo ocorre porque o ciclone ajuda a misturar o ar frio e o ar quente da zona de contato, o que intensifica a circulação atmosférica e resulta em ventos fortes.
“Quanto maior é a velocidade do vento, maior é a diferença de temperatura entre as duas massas de ar. Então, um ciclone extratropical que provoca ventos fortes significa que você tem um contraste de temperatura maior entre uma massa de ar e a outra, isso gera também movimentos mais violentos na atmosfera que na verdade a gente enxerga eles como ventos muito fortes”, conta o especialista.
Diferenças entre ciclone extratropical e furacão

Um ciclone é definido como uma área de baixa pressão atmosférica, onde os ventos giram ao redor do centro.
No Hemisfério Sul, esse giro acontece no sentido horário. Esse movimento faz com que o ar quente e úmido seja puxado para o centro do sistema e suba, favorecendo a formação de nuvens densas, que podem provocar chuva intensa e outros fenômenos associados.
Já no caso do Hemisfério Norte, o giro ocorre no sentido anti-horário. Essa diferença é explicada pelo efeito Coriolis, que desvia os ventos conforme o movimento da Terra, os direcionando para Oeste quando seguem em direção aos polos e para Leste quando se deslocam no sentido oposto.
Dessa forma, existem dois tipos principais, os extratropicais, que se formam longe dos trópicos e estão associados a frentes frias, e os tropicais, que surgem sobre oceanos aquecidos.
No caso dos ciclones extratropicais, eles se desenvolvem entre as latitudes de 30° e 60° em ambos os hemisférios do globo terrestre e estão sempre ligados à presença de uma frente fria. O centro do ciclone, caracterizado por uma área de baixa pressão, é mais frio do que o ar ao seu redor.
A intensidade dos ciclones extratropicais é avaliada pela pressão atmosférica registrada em seu núcleo. Trata-se de fenômenos de grande escala, com extensão que pode alcançar milhares de quilômetros, e seu raio é definido a partir do ponto mais distante atingido pelas áreas de maior pressão associadas ao sistema.
Os furacões ou tufões são ciclones tropicais com ventos sustentados superiores a 119 km/h. Tendem a ser menores em extensão geográfica, porém, mais severos. Sua intensidade é categorizada pela Escala Saffir-Simpson, que vai de 1 a 5, baseada na velocidade do vento, embora não considere outros impactos, como marés de tempestade ou inundações.
De acordo com Lizandro Gemiacki, meteorologista do Inmet, as principais diferenças entre um ciclone extratropical e um furacão se concentram no contraste de temperatura que há entre eles.
Enquanto um se forma a partir de uma massa de ar fria, o outro se forma a partir de uma massa de ar relativamente quente.
“No geral, a diferença básica é essa. Um furacão tem características tropicais, não tem contrastes de temperaturas e o ciclone extratropical tem contraste de temperatura”.
Ele ainda ressalta que assim como furacões, os ciclones podem provocar estragos muito intensos, como observado nos últimos meses no Rio Grande do Sul.
Áreas mais afetadas e os impactos mais comuns

No Brasil, os ciclones extratropicais afetam especialmente a Região Sul, mas também alcançam o Sudeste, parte do Centro-Oeste e em alguns casos também chegam ao Nordeste.
Entre os principais efeitos estão alagamentos em áreas urbanas, deslizamentos de terra em encostas, interrupções no fornecimento de energia elétrica, suspensão de transportes e transtornos na navegação marítima.
Ao comentar sobre os impactos provocados pelo fenômeno, Lizandro explica que os efeitos variam conforme a intensidade do sistema e a forma como ele se desenvolve.
“A maioria das vezes, os ciclones extratropicais se formam na costa, e os efeitos dentro do continente já vão ser os efeitos da frente fria”, afirma.
Segundo ele, na fase inicial de formação sobre terra, o ciclone tende a provocar chuvas muito intensas e rajadas de vento fortes, resultando em tempestades severas.
Quando o sistema avança para o mar, a depender da posição e da direção dos ventos, pode gerar ressacas no litoral, efeito diretamente ligado à força do vento soprando em direção à costa.
E em alguns cenários, esses ventos também podem represar lagoas e causar alagamentos.
Fatores climáticos
De acordo com a Fapesp, ainda não existe um consenso científico sobre o tema, mas estudos indicam que o aquecimento global pode estar reduzindo a frequência geral de tempestades, ao mesmo tempo em que contribui para o aumento da ocorrência de eventos mais intensos e severos.
“Análises numéricas globais indicam uma redução no número total de ciclones ao longo dos anos. Mas quando ocorrem, são mais destrutivos”, explica Manoel Alonso Gan, meteorologista do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE).
Como se proteger durante um ciclone?
Os ciclones extratropicais podem ter intensidades e graus variados, por isso, é necessário que os órgãos de monitoramento possam emitir comunicados preventivos, principalmente quando há previsão de ventos fortes, chuvas volumosas e risco de ressaca no litoral.
Além disso, é importante que a população saiba como agir no caso de danos e risco em possíveis áreas afetadas.
Dessa forma, o meteorologista orienta que a principal forma de proteção é o acompanhamento constante das previsões meteorológicas divulgadas pelos órgãos oficiais.
“A população pode se proteger acompanhando as previsões de tempo nos órgãos oficiais e seguindo as orientações da Defesa Civil, geralmente estadual e/ou municipal. E agora também tem uma coordenação nacional da Defesa Civil que dá essas diretrizes para quando tem um ciclone extratropical com potencial de causar algum desastre”.
Ele também ressalta que nem todos os ciclones extratropicais são intensos ou resultam em desastres, mas, nos casos em que o sistema apresenta risco, é essencial manter o monitoramento e buscar abrigo em locais seguros durante sua passagem.
Recomendações à população

A Defesa Civil orienta que a população adote medidas preventivas sempre que houver risco.
Entre as principais recomendações está evitar áreas arborizadas e não estacionar veículos sob árvores. Além disso, é importante recolher objetos soltos em varandas e quintais para prevenir acidentes.
Durante tempestades com raios, a recomendação é de que se evite áreas abertas, estruturas metálicas e contato com água. A orientação também inclui nunca atravessar áreas alagadas.
No caso de um fio energizado cair sobre o veículo, a pessoa deve permanecer dentro do carro e acionar o Corpo de Bombeiros.
Para emergências, os números da Defesa Civil (199) e do Corpo de Bombeiros (193) devem ser acionados imediatamente.
A Defesa Civil ainda recomenda acompanhar atualizações por canais oficiais e cadastrar o número de celular para receber alertas.
Além disso, a Defesa Civil também emite alertas como forma de informar a população sobre a ocorrência de eventos extremos. Esses informativos podem ser recebidos por SMS, aplicativos ou redes sociais.
Os alertas são classificados por cores, cada uma indicando um nível específico de risco. O amarelo sinaliza risco moderado e a necessidade de acompanhamento da situação, o laranja indica perigo com risco elevado e o vermelho representa uma situação crítica, que demanda ações imediatas.
Além da cor, é essencial ler com atenção o texto da mensagem e seguir as instruções recomendadas, que variam conforme o tipo de evento.
Para acompanhar em tempo real os alertas de risco emitidos, é possível usar algumas ferramentas.
No Inmet, basta acessar o site oficial para acompanhar os mapas interativos com os alertas de cada estado, incluindo os vermelhos, laranjas e amarelos. Os mapas são atualizados a cada hora. Também é possível acompanhar mais informações através das redes sociais oficiais do órgão, como o X (antigo Twitter), Instagram e YouTube.
O SMS da Defesa Civil, um serviço que permite o recebimento de informações sobre a possibilidade de ocorrência de desastres e de eventos adversos. Os alertas são acompanhados de recomendações ou ações emergenciais para a população em situação de risco.
Para ativar o serviço é necessário enviar um SMS com o CEP da área de interesse para o número 40199. Após o cadastro, o cidadão passa a receber alertas sobre riscos da região.
Outra ferramenta é o Defesa Civil Alerta (DCA), um sistema que utiliza a rede de telefonia celular para enviar mensagens de texto e avisos sonoros para celulares em áreas de risco muito alto.
O serviço é gratuito e não exige nenhum tipo de cadastro ou aplicativo, bastando apenas que o celular seja compatível (Android e IOS lançados a partir de 2020) e com redes 4G ou 5G. O recurso funciona independente do pacote de dados, e mesmo se o usuário estiver conectado ou não ao Wi-Fi.
Ciclone bomba: o que é?
Em casos considerados mais raros, um ciclone extratropical pode se intensificar de forma acelerada e se transformar no chamado “ciclone bomba”. De acordo com o meteorologista do Inmet, essa classificação é usada quando o sistema se fortalece de maneira muito rápida em um curto intervalo de tempo.
“A pressão no centro desse ciclone cai de forma muito rápida e provoca nuvens convectivas muito intensas”, afirma.
Segundo ele, esse processo pode provocar tempestades severas, com chuvas torrenciais e rajadas de vento fortes.
O meteorologista destaca que esse tipo de ciclone não é comum, mas já foi registrado no Brasil. “Há casos documentados no litoral da região Sul, que é uma área preferencial para a formação desses sistemas”, explica.
Relembre alguns dos ciclones que já passaram pelo Brasil:

Ciclone (2009)
Em novembro de 2009, um ciclone extratropical afetou Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Com ventos de até 120 km/h, provocou mortes e prejuízos significativos, sobretudo na agricultura. O evento trouxe à tona a fragilidade de áreas rurais frente a desastres climáticos.
“Ciclone Bomba”(2020)
Popularmente conhecido como "ciclone bomba", este fenômeno subtropical atingiu Santa Catarina, Paraná e Rio Grande do Sul em julho de 2020. Os ventos chegaram a 120 km/h, causando a morte de pelo menos 10 pessoas e deixando milhares de desabrigados.
Ciclone Yakecan (2022)
Batizado oficialmente, o Yakecan atingiu o Rio Grande do Sul e Santa Catarina em maio de 2022. Seus ventos chegaram a 110 km/h, mas o que mais impactou a população foi a queda brusca da temperatura.
Em algumas cidades, a sensação térmica chegou a -15°C, e em áreas mais altas a ação do ciclone causou precipitação de inverno em forma de neve e chuva congelada.
Ciclone extratropical (2023)
Este ciclone extratropical ocorreu em julho de 2023 e ficou marcado pelas enchentes históricas em diversas cidades do Rio Grande do Sul.
Com 16 mortes confirmadas, o fenômeno demonstrou como a combinação de ventos fortes e chuvas intensas pode se transformar em um desastre de grandes proporções. Diversas pessoas foram atingidas e ficaram desalojadas devido a destruição em várias cidades.
Ciclone extratropical (2023)
Considerado um dos mais fortes já registrados no Sul do Brasil, este ciclone extratropical que ocorreu em setembro de 2023 provocou chuvas torrenciais e ventos acima de 120 km/h, resultando em enchentes severas e mais de 40 mortes .
Ciclone extratropical (2024)
Em julho de 2024, mais um ciclone extratropical castigou o Rio Grande do Sul e Santa Catarina. Além dos ventos intensos e da queda de energia em várias cidades, o evento agravou as enchentes que já ocorriam na região.
''As tempestades vêm em muitas formas''
O título acima ilustra uma página do site da NASA, a agência espacial dos Estados Unidos, que explica os nomes desses eventos extremos. O artigo trata da diferença entre a forma com que os técnicos e a imprensa trata os fenômenos da natureza.
''Tempestades tropicais individuais são nomeadas há muito tempo pelo Centro Nacional de Furacões dos EUA e pela Organização Meteorológica Mundial; mais recentemente, os meios de comunicação começaram a dar nomes às tempestades de inverno'', diz o texto.
Sobre os ciclones extratropicais, os maiores, a NASA explica que ''as nuvens de um ciclone extratropical maduro são extensas e em forma de vírgula, enquanto os ciclones tropicais maduros têm formato espiral e frequentemente apresentam um olho distinto em seu centro''.
''Ciclones extratropicais (ou de latitudes médias), que podem produzir condições meteorológicas que variam de chuvas leves a nevascas violentas, são tempestades ainda mais extensas que normalmente se iniciam em latitudes médias ou altas. Enquanto os ciclones tropicais obtêm sua energia de massas de ar quente aquecidas pelos oceanos equatoriais, os ciclones extratropicais obtêm seu combustível das interações de frentes — grandes massas de ar horizontais com diferentes temperaturas ou umidade'', finaliza a NASA.
A agência tem ainda uma página dedicada a analisar as tempestades extratropicais ao longo dos anos, entre 1961 e 1998.
Ao escolher as opções de estação ou mês do ano e a época da ocorrência, o site disponibiliza uma imagem detalhando como foi a evolução da tempestade em questão. Para acessar, clique aqui.
No Brasil, o Inmet emite alertas em casos de previsão de eventos com grande potencial de estragos, como os ciclones extratropicais. Ao acessar a página, a pessoa pode procurar por:
Avisos meteorológicos: alertas do tamanho do potencial, qual o risco.
Previsão do tempo: o que de fato deve ocorrer em detemrinada região.
Imagens de satélite: ilustração que mostra a movimentação de nuvens, etc.
Previsão numérica: qual é o volume de chuvas aguardado para um detemrinado período.
No mesmo site, o Inmet disponbiliza a previsão semanal das ocorrências relacionadas ao clima e ao tempo.
A rede social do instituto também tem informações sobre esses eventos.