
Goiânia já foi conhecida como um das cidades mais arborizadas do mundo, mas pouco a pouco a população tem visto o verde e as árvores darem lugar aos prédios, concreto e massa asfáltica. A substituição da natureza pela vida urbana gera uma consequência esperada: o aumento da temperatura e o desconforto térmico pela cidade. Existem diferenças profundas dentro da Capital: a depender do endereço, a temperatura média das superfícies urbanas pode ficar mais de 6°C acima da registrada na zona rural.

Uma dissertação de mestrado defendida na Universidade Federal de Goiás (UFG) analisou imagens de satélite 20 anos entre 2006 e 2025. O trabalho do pesquisador Tomás Andrés Borges Barrera, mestre em Projeto e Cidade pela universidade goiana, revela que a cidade perdeu mais de 15% das ilhas de frescor dentro do perímetro urbano, além do aumento de temperatura em algumas regiões que podem chegar a 6,63°C.
Outro aspecto significativo da pesquisa é a forma desigual como sombra e calor são distribuídos conforme o tipo de ocupação urbana. Em 2025, os condomínios fechados tinham cobertura arbórea média de 17,91%, contra 10,39% em bairros residenciais. Regiões periféricas como o Jardim Nova Esperança, Vila Mutirão, Novo Planalto, Jardim Guanabara e Vila Itatiaia são são muito mais quentes que condomínios e setores ligados a parques e APAS.
Onde o calor aperta mais
A medição não indica, necessariamente, que o termômetro em Vila Bela é 6°C mais quente que na zona rural. O satélite registra a temperatura das superfícies, que podem aquer muito mais que o ar.

Vila Bela lidera o ranking, seguida por Vila Isaura, com intensidade de 6,57°C, e Vila São Francisco, com 6,54°C. Também aparecem na faixa considerada “muito forte” Vila Santa Cruz, Conjunto Romildo Ferreira do Amaral, Loteamento Nova Vila, setores Centro-Oeste e Marechal Rondon, Vila Paraíso, Setor União e Bairro Feliz.
Outros bairros tradicionais, como Campinas, Coimbra, Setor Aeroporto, Setor dos Funcionários, Norte Ferroviário, Jardim América e Setor Sul, aparecem na faixa forte, entre 4°C e 6°C acima da referência rural.
Em 2025, quase um terço dos bairros de Goiânia estava nessa categoria. Outros 48% apresentavam ilhas de calor moderadas, entre 2°C e 4°C. Somente quatro áreas foram classificadas como ilhas de frescor: chácaras Samambaia e Califórnia, Condomínio Fazenda Dourados e uma gleba anexa ao Village Campos Verdes. Todas têm pouca urbanização e maior presença de vegetação.
Concreto tem cada vez mais espaço na cidade
Enquanto o vermelho se espalhava pelo mapa, o concreto ganhava terreno. A área construída de Goiânia cresceu 65,3% em menos de duas décadas: passou de 160,25 km², em 2006, para 264,91 km², em 2025. São quase 105 km² a mais ocupados por construções.
No sentido contrário, a vegetação rasteira, presente em gramados, terrenos vazios e áreas de cultivo, perdeu quase 50 km². A vegetação densa apresentou um pequeno crescimento, mas permaneceu concentrada principalmente nas margens dos cursos d’água, nos parques e nas áreas de preservação.
Esse movimento ajuda a explicar um aparente paradoxo encontrado pela pesquisa. Goiânia registrou melhora nos índices gerais de vegetação, mas também viu a intensidade média da ilha de calor subir 10%, de 2,56°C para 2,82°C.
Tipo de árvore impacta na temperatura
O engenheiro agrônomo Marcelo Bueno explica que o asfalto, o concreto e as calçadas absorvem a radiação solar, aquecem e depois liberam calor no ambiente. A copa das árvores reduz esse processo ao sombrear as superfícies urbanas. “Quanto maior a árvore e maior a copa, mais benefícios e serviços ambientais ela traz”, afirma.
Bueno também critica a opção sistemática por árvores pequenas. Segundo ele, praças, avenidas e canteiros com espaço suficiente devem receber espécies de maior porte e copa ampla. O tamanho precisa ser compatível com cada local, acompanhado de manutenção e manejo adequados.
Os efeitos da arborização vão além da temperatura. “Em uma rua com árvores, a chuva demora mais a chegar ao solo. A copa retarda essa chegada e contribui para o controle da drenagem”, diz Bueno. Ele também destaca a redução do ruído e a melhoria do conforto urbano.