cloroquina
Luiz Silveira/Agência CNJ
Eficácia da cloroquina gera debate entre especialistas


Para a médica Lara Brandão, que analisa casos clínicos de Covid-19, os protocolos que orientam sobre qualquer doença devem seguir o compromisso com a ciência. “Nós, médicos, não podemos inventar protocolos baseados em opiniões. O que nos move para uma conduta ou outra é sempre a evidência científica. Quando ela muda, a gente também muda”, afirma. “Se antes a cloroquina era defendida em casos específicos e hoje não é mais, seguimos a maré da ciência. Embora o seu uso ainda possa ser feito se o médico assumir a responsabilidade e o risco por prescrever essa medicação em determinada situação”, completa a profissional. 

Assim como Lara, outros profissionais de saúde manifestaram opiniões sobre o o  novo protocolo do Ministério da Saúde, publicado na manhã desta quarta-feira (2), que aconselha o uso da cloroquina e hidroxicloroquina para pacientes com casos leves de Covid-19 - e não mais apenas os casos graves, como recomendava o primeiro protocolo.

De acordo com o infectologista Luciano Arraes , do serviço de doenças infecciosas do hospital universitário Oswaldo Cruz, que recebe casos de Covid-19 em Pernambuco, “é muito pouco provável que o medicamento aumente a taxa de cura da doença no país”. O profissional ainda afirma que “até agora, nenhum trabalho científico mostrou ação direta ou indireta desta medicação sobre o vírus em si ou sobre qualquer dos mecanismos sugeridos de ação dele no organismo humano”. “Por enquanto, não tenho recomendado o uso dela em nenhuma situação relacionada à Covid-19”, finaliza Arraes. 

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O médico neurocirurgião e neurocientista Fernando Gomes , professor livre docente do Hospital das Clínicas de São Paulo, porém, possui uma opinião mais otimista sobre o assunto. “Por mais que existam estudos preliminares que mostram que existem benefícios e outros ainda melhor elaborados que não mostraram benefícios do uso da cloroquina , não podemos dizer que o medicamento não seja benéfico para o tratamento da Covid-19”, afirma. 

“Diante da situação que estamos - sem vacina e com possível falta de vagas em UTIs para todos os casos graves - se temos um remédio que seja capaz de inibir a entrada do vírus na célula e modular a resposta inflamatória (evitando o agravamento da doença) é, no mínimo, justo e humano permitir que toda a população tenha acesso a tal medicamento , desde que devidamente prescrito e acompanhado por um médico”, destaca o professor o professor. 

Gomes ainda destaca que a recomendação é voltada para o Sistema Único de Saúde e que “sabemos que todo remédio traz consigo benefícios e riscos. É papel do médico manejar esta situação, lembrando que não existe tratamento para nenhuma doença do mundo que seja 100% eficiente e livre de possíveis complicações”, diz. “O povo brasileiro pode ficar feliz porque essa liberação vai de encontro com os princípios fundamentais do SUS : equidade, integralidade e universalização”.

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Os efeitos colaterais mais relevantes do medicamento, originalmente utilizado no tratamento da malária e doenças autoimunes, como o lúpus, estão relacionados ao sistema cardiovascular . Ou seja, o medicamento pode acelerar o ritmo do coração e anticipar problemas como infarto e arritmia.

Considerando os riscos, o cardiologista Reginaldo Peixoto , do hospital Agamenon Magalhães, diz ser contra “o protocolo para qualquer situação que seja, uma vez que não existe base científica nenhuma que sustente o uso de forma protocolar para a situação, seja em casos leves, moderados ou graves”. De acordo com o especialista, “como estamos em uma situação sem precedentes, onde não há certeza sobre nada, entendo quando existe um acordo entre médico e paciente pelo uso da droga como tentativa de algum benefício, mas isso tem que partir desse comum acordo, não de uma instituição do governo ”, destaca.


Entidades de saúde se manifestam contra recomendação 


Questionada sobre as novas orientações do Ministério da Saúde, a OMS voltou a afirmar que ainda não existem evidências científicas que comprovam a eficácia do medicamento no uso contra a Covid-19 , e que ela pode, inclusive, prejudicar o quadro de saúde ods pacientes. Apesar disso, o diretor de emergências da entidade, Michael Ryan disse que “todas as nações, particularmente aquelas com autoridades reguladoras, estão em posição de aconselhar seus cidadãos sobre o uso de qualquer droga ”. 

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Ryan, porém, relembrou que “Muitos avisos foram emitidos por muitas autoridades sobre os efeitos colaterais potenciais das drogas. E muitos países limitaram o uso dela para ensaios clínicos, sob supervisão de médicos em hospitais”, destacando que “até esse estágio, nem a cloroquina nem a hidroxicloroquina têm sido efetivas no tratamento da Covid-19 ou nas profilaxias contra a infecção pela doença. Na verdade, é o oposto”.

Além disso, entidades brasileiras emitiram uma nota nesta quarta-feira em repúdio à nova recomendação. Assinada por dez profissionais de área da educação, ciência e medicina, a nota afirma que "não há evidências científicas favoráveis que sustentem o uso de CQ/HCQ [cloroquina/hidroxicloroquina] em qualquer dose ou estágio da covid-19, quer no nível individual, quer no de políticas públicas. Por outro lado, há estudos que demonstram que o uso pode estar associado à maior frequência de eventos adversos graves e com maior letalidade".

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A nota refoça que a comunidade científica "não se deve opor, em meio ao desespero da população, à prescrição de substâncias com efeito placebo", mas completa que "quando a substância que se pretende utilizar com essa finalidade está fortemente associada a eventos adversos graves e conhecidos, cabe ao médico, amparado pela ciência, advertir e lutar para que não tenhamos mais mortes iatrogênicas desnecessárias. O vírus está autorizado a matar, por sua natureza não regida pela justiça dos homens, mas não o médico", concluem os especialistas.

Assinaram a nota profissionais da Faculdade de Medicina da UFRJ; Instituto Questão de Ciência e Instituto de Ciências Biomédicas da USP; Academia Nacional de Medicina - ANM; Centro de Referência Hélio Fraga - ENSP; Fundação de Medicina Tropical Doutor Heitor Vieira Dourado e Universidade do Estado do Amazonas.

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