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Além da rotina nos hospitais, elas lidam com o medo de levar doença para dentro de casa

Maioria entre a população brasileira, as mulheres estão entre os grupos mais vulneráveis aos efeitos da pandemia do novo coronavírus. Além do medo de contrair a Covid-19, elas estão expostas a sofrer abusos e violência doméstica durante o período de isolamento domiciliar, estão em situação mais frágil diante da crise econômica porque são grande parte dos trabalhadores informais, sobretudo domésticas, e ainda precisam lidar com a sobrecarga gerada pelo acúmulo de tarefas.

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No Brasil, infelizmente, o cuidado com a casa e com a família ainda está, em sua maioria, em mãos femininas — mesmo que essas mãos sejam de enfermeiras que passam horas a fio cuidando de pacientes em hospitais assolados por um vírus em grande parte desconhecido. De acordo com dados da Pesquisa Perfil da Enfermagem, do Conselho Federal de Enfermagem (Cofen) e da Fundação Oswaldo Cruz ( Fiocruz ), as mulheres representam 86, 6% da categoria.

"Entendemos que as profissionais de enfermagem são duplamente afetadas, tanto por sua atuação na área da saúde, quanto por atuarem como cuidadoras primárias em suas famílias. As mulheres brasileiras dedicam, em média, 26,6 horas semanais aos serviços de casa, enquanto os homens gastam 10,5 horas, conforme dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA). As mulheres também têm uma probabilidade maior de interromper o trabalho formal para cuidar dos filhos, parentes idosos e convalescentes", explica a vice-presidente da Cofen, Nádia Mattos Ramalho.

A presidente da Associação Brasileira de Enfermagem no Rio de Janeiro, Regina Henriques, critica as condições enfrentadas pelas mulheres na categoria, denunciando a falta de equipamentos de proteção individual (EPIs), falta de salários dignos e jornadas abusivas.

"A pandemia apresenta com crueza situações às quais nós, mulheres da saúde, já estávamos submetidas e contra as quais vínhamos lutando. Por isso, é necessário que a categoria não seja negligenciada, ainda que saibamos que vivemos numa sociedade patriarcal que desrespeita e desacredita as mulheres", ressalta.

A professora da faculdade de Enfermagem da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) Tatiana de Araujo Eleuterio alerta para a sobrecarga da categoria.

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"Para a mulher enfermeira que está na linha de frente, a tripla jornada gera um grande cansaço. É necessário uma divisão para que a profissional consiga dispor de tarefas focadas no autocuidado. É preciso atenção, pois é um momento em que a mulher sofre um risco de adoecimento pelo vírus, mas também mental, por transtornos como ansiedade e depressão", pondera.

Quem vai proteger quem cuida?

A enfermeira Nair, que teve o nome preservado, da Unidade de Pronto Atendimento (UPA) de Queimados,  conta que faltam equipamentos para os atendimentos feitos no hospital. Segundo a profissional, sua rotina é de completa vulnerabilidade: "além de ter sido contratada via pessoa jurídica, enfrento o problema de não ter EPIs. Na minha unidade, falta álcool em gel e capote impermeável". 

Chefe de família, a profissional conta que precisa encarar a exaustiva rotina para sustentar a casa e os dois filhos: "eu não tenho para onde correr, somos eu e meus filhos. Eu pago uma babá para olhá-los enquanto trabalho, mas ainda assim tenho a sobrecarga do trabalho doméstico e do cuidado materno".

O sentimento é compartilhado pela enfermeira Milena Santiago, de 41 anos. Na linha de frente do combate ao coronavírus no Instituto Nacional de Traumatologia e Ortopedia (INTO), a profissional se emociona ao falar sobre sua rotina.

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"É exaustivo. Sinto que a nuvem de poeira só está chegando. Atuo no setor que recebe os pacientes suspeitos de Covid-19 e estou aprendendo a lidar com a rotina da pandemia na marra: chorando, compartilhando as aflições com a equipe e me adaptando as mudanças da instituição, que são diárias", explica.

Milena conta que tem colegas afastados por conta da doença ; a aflição afeta sua vida além do âmbito profissional: "tenho muito medo, principalmente porque lido diretamente com meu marido diabético e com meus pais, que são idosos e precisam da minha assistência. Hoje não teve almoço na minha casa, minhas filhas ficaram sem comida. A administração da casa fica na minha mão, é muita sobrecarga", desabafa.

Sandra Serrão, de 57 anos, foi para o plantão na enfermaria do INTO na última quinta-feira e voltou com os sintomas da Covid-19 : "tive tosse seca, fadiga e febre de quase 39 graus. Agora, estou isolada com meus dois filhos em casa. Além disso, estou ansiosa com a rotina no hospital , pois vi uma funcionária indo direto para o CTI por conta da Covid-19. 

A profissional diz que, mesmo depois de um dia cansativo, faz malabarismo para lidar com outras tarefas: "eu me cobro de uma maneira muito forte para assumir as tarefas domésticas, tanto de limpeza, quanto de comida. Me cobro para cuidar o tempo inteiro. Quando saio do plantão, passo no mercado, ajeito a casa e faço a comida".

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A enfermeira Juliana Lobo, de 30 anos, conta como a rotina exaustiva de atendimento tem afetado sua relação em casa: "tenho um bebê de seis meses, e sinto constantemente a insegurança de estar carregando o vírus para o meu filho. Eu não estou mais amamentando e não beijo meu filho. Além da sobrecarga e da má remuneração, tenho a tripla jornada que afeta a minha qualidade de vida".

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