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Sob fogo cruzado de filhos do presidente, deputada afirma que Bolsonaro pode ficar sozinho se continuar transformando aliados em inimigos

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Marcos Brandão/Agência Senado
Em disputa interna com Major Olímpio no PSL paulista, Joice Hasselmann avisa que se for impedida de concorrer à prefeitura de São Paulo, se lança como governadora

A deputada federal Joice Hasselmann (PSL) afirmou que o Palácio do Planalto tem um puxadinho familiar para abrigar os três filhos de Jair Bolsonaro e que nunca houve tanta influência de uma família no poder quanto na atual presidência.

"Muitas vezes eu disse ao presidente: 'Me ajude a te ajudar'. Fazer puxadinho do Palácio do Planalto familiar não vai funcionar, isso não é bom para ninguém. Nunca houve tanta interferência de família dentro de um poder, nem na época do Sarney. Isso é perigoso para o país", afirmou Joice , retirada da liderança do PSL, em entrevista nesta segunda-feira no programa Roda Viva, da TV Cultura.

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De aliada e líder da tropa bolsonarista desde antes das eleições, Joice virou desafeto ao trocar farpas com os filhos de Bolsonaro nas redes socais. Na entrevista, a deputada reafirmou as críticas de que eles influenciam nas decisões do presidente a ponto de colocar em risco o mandato do pai e que "em todas as crises que aconteceram entre executivo e legislativo havia participação direta ou indireta dos meninos".

"Nessa mania de transformar os aliados em inimigos, o presidente pode acabar ficando sozinho", alertou ela, acrescentando que os filhos do presidente deveriam ficar "mais quietos e restritos".

A deputada afirmou, porém, que "errou" ao cair nas provocações dos filhos de Bolsonaro nas redes sociais. E afirmou que "não ajuda o Brasil quando desce ao nível da molecada".

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"Perdi a paciência. Não tenho sangue de barata. Ele jogou a isca e eu mordi. Não vai mais acontecer", disse, em referência à postagem de imagens de veados e ratos em resposta a emojis ofensivos de galinha, e de porca, em alusão à personagem de desenho infantil Peppa Pig, entre outros, por parte de Carlos Bolsonaro e seus irmãos.

Retirada da função de líder do PSL no Congresso Nacional, em meio a rusgas principalmente com o também deputado federal Eduardo Bolsonaro, Joice se disse "aliviada" de deixar o cargo porque "dava muito trabalho". Mas disse ter esperado algum aviso do presidente, que "precisa entender que não é mais deputado". "É o presidente de todos. E eu quero que o nosso presidente se comporte como um estadista", disse.

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Ela reiterou, porém, que continuará apoiando Bolsonaro - enquanto ele defender as promessa de campanha. "Se o presidente cumprir as pautas da campanha, de combate à corrupção, das agendas reformistas, eu vou estar do lado", disse.

'Dois pesos e duas medidas'

Ela criticou, porém, que Bolsonaro coloque "dois pesos e duas medidas" em algumas questões. Primeiro, citou, na acusação sobre o ex-assessor do senador Flávio Bolsonaro, Fabrício Queiroz. Joice disse que não se sente à vontade com a maneira com que o Palácio do Planalto tem lidado com a questão: "A investigação tem que ser a mais rápida possível".

A deputada afirmou, também, que Jair Bolsonaro deveria ter colocado na investigação do ministro do Turismo, Marcelo Álvaro Antônio (investigado por um suposto esquema de candidaturas laranjas do partido em Minas Gerais nas eleições do ano passado), o mesmo empenho posto na assinatura da lista para favorecer o filho Eduardo na liderança do PSL ou nas trocas de farpas com o presidente do PSL e deputado federal Luciano Bivar.

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"Investigação não pode ser seletiva. Existe uma investigação contra o Bivar , mas o ministro do Turismo está na mesma e ninguém fala nada", disse Joice.

Ao ser questionada por sua participação ativa nas redes durante a época da campanha , a deputada negou que tenha ajudado a difundir notícias falsas. E que agora, vítima de acusações em massa nas redes, "é natural" que se volte contra esses ataques, para se defender. A deputada afirmou que vai procurar o Ministério Público, fazer um boletim de ocorrência e entrar com denúncias no Conselho de Ética da Câmara. "Temos alguns materiais, alguns nomes de pessoas que estão orquestrando ataques em relação a mim", disse.

Prefeitura de SP 'para conter a esquerda'

Perguntada sobre seus planos na política, Joice disse que será candidata à prefeitura de São Paulo no ano que vem, e que a crise com os filhos de Bolsonaro não vai prejudicar a candidatura. Eduardo Bolsonaro preside o diretório do PSL no estado.

"Vou ser candidata e ponto. Não muda nada no processo. Isso já está definido. O que está indefinida ainda é a tentativa de tomar o controle do PSL no tapetão para colocar um líder que é o filho do presidente, que desagrega - afirmou.

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A deputada acrescentou que sua candidatura à prefeitura paulista é importante "para tomar cuidado de não pavimentar a candidatura da esquerda através de São Paulo". E que, mesmo tendo morado pouco tempo em São Paulo (Joice nasceu em Ponta Grossa, no Paraná) não precisa saber tudo da capital paulista, e sim de uma "equipe eficiente, com um vice gestor", que saiba resolver os problemas.

"Não serei candidata a carteira, serei à prefeita", disse ela, que desconsiderou mudar de legenda por enquanto. Joice elogiou o governo de João Doria em São Paulo "apesar de uma crise ou outra, com a polícia" e disse que é cedo falar em uma candidatura dele em 2022.

A deputada também evitou apontar preferências entre Bolsonaro e Sergio Moro, mas se disse "lava-jatista". Também defendeu o procurador Deltan Dallagnol, coordenador da força-tarefa da Lava-Jato em Curitiba, e afirmou que não havia nada de errado em que ele cobrasse por palestras, como revelaram trechos de conversas divulgados pelo The Intercept : "Eu confio plenamente no Deltan. Eu conheço a história desses meninos heróis da Lava Jato. Sou 100% Lava Jato", afirmou Joice .