
Dois médicos-veterinários de São José do Rio Preto (SP), viraram réus na segunda fase da investigação sobre a venda clandestina de sangue de gatos em Monte Alto, no interior paulista. A Justiça recebeu a denúncia do Ministério Público em 10 de setembro.
Thaís Daniele Antonussi, de 34 anos, e Renato Franco, de 35, respondem por maus-tratos contra animais, por seis vezes, e associação criminosa. Segundo a acusação, os dois não estavam na casa onde os gatos foram encontrados desacordados, mas fariam parte do núcleo responsável pela organização das coletas, pagamentos, viagens e comercialização das bolsas.

O recebimento da denúncia, porém, não representa uma condenação. Os dois ainda poderão apresentar defesa, e as provas serão analisadas durante o processo.
O que o Ministério Público aponta
De acordo com a denúncia, a investigação identificou uma divisão de tarefas entre os integrantes do grupo. Algumas pessoas seriam responsáveis por encontrar tutores e animais, enquanto outras fariam o transporte, as coletas e a comercialização do sangue.
Thaís e Renato são apontados pelo MP como integrantes do chamado núcleo de comando técnico, financiamento e comercialização. A acusação sustenta que eles teriam atuado como mandantes e coautores funcionais dos maus-tratos atribuídos a seis gatos.
Segundo a investigação, os animais eram sedados antes da retirada de sangue. O procedimento teria sido realizado com quetamina e dexmedetomidina por um estudante de veterinária que foi preso durante a primeira fase da operação.
Cada bolsa, com aproximadamente 50 ml, era revendida por valores entre R$ 500 e R$ 800, conforme depoimento anexado aos autos.
Acusação envolve seis gatos
A investigação reúne relatos sobre um número maior de animais. No entanto, é importante separar os dados levantados pela Polícia Civil daquilo que efetivamente consta na denúncia aceita pela Justiça.
A acusação formal de maus-tratos nesta ação envolve seis gatos. Já números como 28 animais encontrados no dia da abordagem e 38 em uma viagem anterior aparecem em depoimentos e mensagens analisados pelos investigadores.
Segundo a apuração, tutores chegavam a receber R$ 50 para disponibilizar os gatos para a retirada de sangue.

Laudos veterinários citados na investigação apontaram que animais examinados estavam abaixo do peso e desnutridos, além de apresentarem risco de morte por hipovolemia, que é a redução do volume de sangue no organismo.
Quem é Thaís Antonussi
Thaís é médica-veterinária registrada no Conselho Regional de Medicina Veterinária de São Paulo (CRMV-SP) e aparece na investigação ligada ao setor de hemoterapia animal.
O Ministério Público afirma que ela teria participado da organização das coletas, negociação de pagamentos e destinação do material retirado dos animais. A denúncia também sustenta que a veterinária seria a “titular de fato” de um banco de sangue animal citado no inquérito.
Essa afirmação, no entanto, é uma tese da acusação e ainda será submetida ao contraditório durante o processo.
Documentos empresariais analisados na investigação mostram ainda vínculos de Thaís com empresas relacionadas ao setor, incluindo a HemoAcademy, que oferece cursos de formação em hemoterapia veterinária.
A empresa informou que considera Thaís inocente e classificou o processo como “uma tremenda injustiça”. Segundo a HemoAcademy, ela não teria relação com os fatos investigados.
O iG tenta contato com a defesa de Thaís e o espaço segue aberto para manifestação.
Renato nega envolvimento
Renato Franco também é médico-veterinário e aparece em documentos relacionados a empresas do segmento de bancos de sangue animal.
Segundo o MP, ele teria participado da coordenação e destinação do material coletado, além de manter comunicação sobre demandas por bolsas de sangue.
A Polícia Civil, porém, fez uma ressalva ao analisar especificamente as suspeitas contra Renato. No relatório final, a corporação afirmou que os elementos reunidos contra ele eram “mais tênue que o dos demais”, embora considerasse o conjunto suficiente para o indiciamento.
A defesa do veterinário nega as acusações. Em nota divulgada, a advogada Naiara Croffi afirmou que Renato “nega veementemente” os fatos e sustenta que não possui relação com as acusações. Segundo a defesa, ele sempre atuou dentro da legalidade e seguindo as normas do Conselho Regional de Medicina Veterinária.
Como o esquema foi descoberto
A investigação começou em outubro de 2025, depois que uma pessoa encontrou nas redes sociais um anúncio oferecendo R$ 50 a tutores que aceitassem disponibilizar gatos para retirada de sangue.
Ela fingiu interesse na proposta e acionou a Guarda Municipal e a Secretaria Municipal de Agricultura e Meio Ambiente de Monte Alto.
Os agentes foram até uma residência e encontraram gatos desacordados, materiais utilizados em procedimentos veterinários e recipientes contendo sangue. Três pessoas foram presas em flagrante naquela ocasião.

A segunda fase passou a investigar quem estaria por trás da captação dos animais, das viagens, dos pagamentos e da destinação das bolsas.
Bancos de sangue animal não têm regulamentação específica
Em meio à investigação, o CRMV-SP informou que atualmente não existe uma regulamentação específica no Brasil para bancos de sangue de animais.
Segundo o conselho, o Conselho Federal de Medicina Veterinária mantém um grupo de trabalho para elaborar uma resolução sobre o tema ou uma proposta que possa ser encaminhada ao Poder Legislativo.
O CRMV-SP também explicou que bancos de sangue animal não devem ser comparados diretamente aos humanos, que seguem regras estabelecidas pela Anvisa e por legislação federal.
Para a coleta de sangue animal, o estabelecimento precisa ter registro no sistema CFMV/CRMV e contar com médico-veterinário responsável técnico homologado pelo conselho. Dependendo da atividade realizada, o espaço também pode ser enquadrado como clínica, hospital ou laboratório, ficando sujeito às normas específicas para cada tipo de estrutura.
O conselho, contudo, não informou especificamente se é permitido pagar tutores, cobrar pelas bolsas de sangue animal ou obter lucro com esse tipo de serviço.