
Três furacões atuam simultaneamente no Pacífico Oriental em um cenário considerado raro por meteorologistas. Karina, Lowell e Marie ganharam força em meio a condições oceânicas e atmosféricas favorecidas por um forte episódio de El Niño.
Segundo a MetSul, dois dos sistemas chegaram à categoria 4 na escala Saffir-Simpson, que classifica os furacões de acordo com a velocidade dos ventos. O terceiro também ganhou força e passou a ser acompanhado como furacão.
A ocorrência simultânea dos três sistemas é considerada incomum. A climatologista Julia Cole, da Universidade de Michigan, destacou a raridade da presença de três furacões ao mesmo tempo no Pacífico.
El Niño ajuda a explicar fenômeno raro
O cenário ocorre durante um episódio de El Niño de intensidade excepcional, caracterizado pelo aquecimento anormal das águas do Pacífico equatorial.
O fenômeno altera a circulação da atmosfera em grandes áreas do planeta e pode modificar as condições para a formação e o desenvolvimento de ciclones tropicais.
No Pacífico Oriental, um dos principais fatores é a temperatura elevada da superfície do mar. Águas mais quentes fornecem maior quantidade de calor e umidade para alimentar as tempestades, criando uma fonte adicional de energia para os sistemas tropicais.
Outro elemento importante é o baixo cisalhamento do vento. Quando há menor diferença na direção e na velocidade dos ventos entre diferentes altitudes, os ciclones conseguem organizar melhor sua circulação e podem se intensificar com mais facilidade.
Dois furacões chegaram à categoria 4
Entre os três sistemas, Lowell e Karina alcançaram a categoria 4.
Lowell estava ao sul do Havaí e era acompanhado de perto devido ao potencial de provocar condições perigosas no arquipélago. Mesmo sem uma previsão de chegada direta às ilhas, o furacão poderia provocar grandes ondas, mar agitado e correntes de retorno perigosas.
A trajetória do sistema ainda apresentava incertezas. Alterações na direção dos ventos poderiam fazer Lowell se deslocar mais para o norte e se aproximar do Havaí.
A previsão indicava que o furacão permaneceria intenso enquanto avançava para oeste sobre o Pacífico.
Karina avança pelo oceano
Também classificado como categoria 4, Karina seguia pelo Pacífico em trajetória predominantemente para noroeste.
O sistema havia apresentado uma redução temporária de intensidade, mas a previsão indicava que continuaria como furacão nos dias seguintes.
Por estar sobre o oceano, o principal acompanhamento estava relacionado à evolução de sua intensidade e à trajetória, que poderia sofrer alterações conforme as condições atmosféricas mudassem.
Marie ganhou força perto do México
Mais a leste estava Marie, que se fortaleceu e passou à categoria de furacão depois de se desenvolver ao largo da costa da Baixa Califórnia, no México.
O sistema apresentava condições para continuar ganhando força antes de seguir sobre águas abertas do Pacífico.
A evolução de Marie também dependia das condições de temperatura do oceano e da circulação dos ventos em diferentes níveis da atmosfera.
Por que três furacões ao mesmo tempo são raros?
A formação de três furacões simultaneamente em uma mesma bacia oceânica exige a combinação de diversos fatores atmosféricos e oceânicos.
Entre eles estão:
- águas do oceano muito quentes, que fornecem energia às tempestades;
- elevada disponibilidade de calor e umidade;
- menor cisalhamento vertical do vento;
- condições favoráveis para a organização da circulação dos ciclones;
- áreas de instabilidade capazes de evoluir para sistemas tropicais.
Quando esses elementos aparecem juntos, aumentam as chances de formação e intensificação de furacões.
Entenda as categorias de furacão
A classificação dos furacões é feita pela Escala de Saffir-Simpson, adotada pelo Centro Nacional de Furacões dos Estados Unidos (NHC), ligado à NOAA (Administração Oceânica e Atmosférica Nacional). O sistema considera apenas a velocidade máxima dos ventos sustentados e divide os furacões em cinco categorias.
- Categoria 1: 119 a 153 km/h — ventos muito perigosos, capazes de causar danos.
- Categoria 2: 154 a 177 km/h — ventos extremamente perigosos e danos mais extensos.
- Categoria 3: 178 a 208 km/h — danos devastadores. A partir daqui, o furacão é considerado grande/intenso.
- Categoria 4: 209 a 251 km/h — danos catastróficos.
- Categoria 5: 252 km/h ou mais — danos catastróficos, com potencial para destruição severa.
A NOAA ressalta que a escala não mede diretamente chuva, inundação ou maré de tempestade. Esses fatores podem aumentar significativamente os impactos de um furacão, independentemente da categoria.
El Niño tem efeitos diferentes no Atlântico
O impacto do El Niño não é igual em todas as regiões do planeta. Enquanto o fenômeno costuma favorecer uma maior atividade de ciclones tropicais no Pacífico, no Atlântico as condições geralmente são menos favoráveis à formação de furacões.
Isso ocorre porque o El Niño tende a aumentar o cisalhamento vertical do vento no Atlântico, dificultando a organização e o fortalecimento dos sistemas tropicais.
Assim, o contraste entre as bacias oceânicas ajuda a explicar por que um episódio forte de El Niño pode coincidir com uma atividade excepcional de furacões no Pacífico e, ao mesmo tempo, limitar a formação desses sistemas no Atlântico.
O comportamento de Karina, Lowell e Marie será acompanhado nos próximos dias, principalmente em relação à intensidade e às mudanças nas trajetórias dos três sistemas.