
A Nasa lançou neste domingo (30) o Telescópio Espacial Nancy Grace Roman, um novo observatório que promete ampliar a forma como os cientistas observam o Universo. Equipado com uma câmera de 300 megapixels, o telescópio terá um campo de visão pelo menos 100 vezes maior que o de instrumentos semelhantes do Hubble.
A ideia é observar grandes áreas do céu de uma só vez, permitindo identificar milhões, ou até bilhões, de estrelas, galáxias, planetas e outros fenômenos. A partir desses levantamentos, os pesquisadores poderão escolher os objetos mais interessantes para estudos detalhados feitos por outros telescópios, como o James Webb.
O lançamento ocorreu às 8h26, no horário de Brasília, a partir do Centro Espacial Kennedy, na Flórida, nos Estados Unidos, a bordo de um foguete Falcon Heavy, da SpaceX. Cerca de meia hora depois, o Roman ainda estava ligado ao segundo estágio do foguete.
Às 8h57, o telescópio se separou do estágio e passou a voar de forma autônoma, iniciando a viagem até seu destino no espaço.
Uma visão muito maior do céu
O grande diferencial do Roman está na quantidade de céu que ele conseguirá observar de uma só vez.
Seu principal instrumento é o Wide Field Instrument, uma câmera de 300 megapixels capaz de registrar uma área muito maior do que a observada pelos instrumentos do Hubble.
Uma única imagem poderá cobrir uma região do céu maior que o tamanho aparente da Lua cheia. A expectativa é que, nos primeiros cinco anos, o Roman consiga observar mais de 50 vezes a quantidade de céu registrada pelo Hubble durante suas três primeiras décadas de funcionamento.
Essa capacidade será importante principalmente para encontrar fenômenos raros. Em vez de procurar um objeto específico em uma pequena região, os cientistas poderão fazer grandes varreduras e descobrir o que existe em áreas extensas do Universo.
Roman e James Webb vão trabalhar juntos
Apesar das comparações, o Roman não será um substituto do James Webb. Os dois telescópios foram projetados para funções diferentes e deverão trabalhar de maneira complementar.
O Webb possui um espelho principal de 6,5 metros e consegue observar pequenas regiões com enorme nível de detalhe, inclusive objetos extremamente distantes e galáxias formadas quando o Universo ainda era jovem.
O Roman seguirá uma estratégia diferente: terá uma visão panorâmica e conseguirá analisar áreas muito maiores em menos tempo.
Na prática, um telescópio poderá ajudar o outro. O Roman pode encontrar uma galáxia rara em meio a milhões de objetos, por exemplo. Depois, o James Webb poderá direcionar seus instrumentos para aquele alvo e investigar sua composição, idade e características com muito mais profundidade.
Viagem até 1,6 milhão de quilômetros da Terra
Depois do lançamento, o Roman seguirá em direção ao segundo ponto de Lagrange do sistema Sol-Terra, conhecido como L2, localizado a aproximadamente 1,6 milhão de quilômetros do nosso planeta.

O James Webb também opera nessa região do espaço, que oferece condições favoráveis para observações astronômicas.
A viagem do Roman deve durar algumas semanas. Depois de chegar ao destino, o equipamento passará por uma série de testes e ajustes antes de começar oficialmente as observações científicas, previstas para o início de 2027.
O que o telescópio Roman vai estudar?
A missão terá como principais objetivos investigar a expansão do Universo, a matéria escura e os planetas fora do Sistema Solar.
Uma das pesquisas estará relacionada à chamada energia escura, fenômeno associado à aceleração da expansão do Universo. Para estudar o tema, o Roman deverá observar centenas de milhões de galáxias localizadas a diferentes distâncias.
Como a luz desses objetos leva bilhões de anos para chegar à Terra, observar galáxias distantes também significa olhar para diferentes momentos da história do Universo.
O telescópio ainda ajudará os pesquisadores a estudar a matéria escura, que não pode ser observada diretamente. Embora invisível, ela exerce influência gravitacional sobre estrelas e galáxias.
Para tentar identificar onde essa matéria está concentrada, o Roman poderá analisar pequenas distorções na luz de galáxias distantes causadas pela gravidade.
Busca por novos planetas
Outra frente importante da missão será a procura por exoplanetas, ou seja, planetas que estão fora do Sistema Solar.
O Roman vai observar estrelas na região central da Via Láctea e procurar pequenas alterações em seu brilho. Entre os métodos utilizados estarão o trânsito, que é quando um planeta passa diante de sua estrela, e a microlente gravitacional, em que a gravidade de um objeto amplia temporariamente a luz de outro objeto distante.

As estimativas indicam que o telescópio poderá encontrar dezenas de milhares de planetas pelo método do trânsito e mais de mil por microlente gravitacional.
A missão também poderá detectar os chamados planetas errantes, que percorrem a galáxia sem orbitar uma estrela.
Outro recurso será um coronógrafo, instrumento criado para reduzir o brilho das estrelas e facilitar a tentativa de observar diretamente planetas gigantes e discos de poeira onde novos mundos podem estar se formando.
Quem foi Nancy Grace Roman?
O telescópio recebeu o nome de Nancy Grace Roman, astrônoma que foi a primeira chefe de astronomia da Nasa.

Roman teve papel importante no desenvolvimento da astronomia espacial e ajudou a abrir caminho para a criação do Telescópio Espacial Hubble.
O novo observatório carrega, portanto, o nome de uma cientista que teve participação importante na construção da própria estrutura de pesquisa espacial que hoje permite missões desse porte.
Cinco anos de missão e muitos dados
A missão principal do Roman está prevista para durar cinco anos, embora o telescópio tenha sido projetado com a meta de funcionar por até uma década.
Durante esse período, o observatório deverá produzir dezenas de petabytes de dados, que serão disponibilizados para pesquisadores de diferentes países, incluindo o Brasil.
A quantidade de informações será uma das grandes contribuições da missão. Ao observar milhões de objetos simultaneamente, os cientistas poderão identificar padrões que seriam difíceis de perceber em observações isoladas.
O Roman também poderá encontrar eventos raros, como explosões estelares, estrelas destruídas pela ação de buracos negros e colisões envolvendo objetos extremamente densos. Esses alvos poderão, posteriormente, ser estudados em maior detalhe pelo James Webb.
Uma nova maneira de observar o Universo
Mais do que substituir os telescópios que já estão em operação, o Roman chega para ampliar o mapa do Universo conhecido.
Enquanto o James Webb consegue olhar profundamente para regiões específicas, o novo observatório terá uma visão muito mais ampla. Essa combinação permitirá aos pesquisadores descobrir onde estão os fenômenos mais interessantes e, depois, estudá-los em detalhes.
Com o Roman e o Webb trabalhando de forma complementar, a astronomia ganha duas perspectivas diferentes: uma espécie de visão panorâmica do céu, capaz de encontrar grandes populações de objetos, e outra voltada para análises extremamente detalhadas.
A expectativa é que essa parceria ajude a responder perguntas sobre a origem e a evolução do Universo, a natureza da matéria escura e da energia escura e a existência de mundos além do Sistema Solar.