
A Polícia Federal (PF) divulga nesta quinta-feira (06) o resultado da investigação criminal sobre o acidente com o avião da Voepass que matou 62 pessoas em Vinhedo (SP) . O relatório final do inquérito será apresentado em uma coletiva marcada para as 14h.
A investigação criminal chega a uma etapa decisiva quase dois anos depois da queda do ATR 72-500, ocorrida em 9 de agosto de 2024. Diferentemente da apuração conduzida pelo Cenipa, que busca entender as causas do acidente e produzir recomendações para evitar novas tragédias, o trabalho da PF procura identificar se houve crimes e quem poderá ser responsabilizado por eles.
A expectativa é de que o documento esclareça quais pessoas e condutas, na avaliação dos investigadores, contribuíram para o acidente que matou os 58 passageiros e quatro tripulantes.
Ex-chefe dos pilotos deve ser indiciado
Antes da divulgação oficial, uma informação já antecipou parte do que deve aparecer no inquérito.
Segundo apuração do g1 e da EPTV, o ex-chefe dos pilotos da Voepass deverá ser um dos indiciados pela Polícia Federal.
A apuração também indica que outros funcionários ligados à administração da companhia aérea deverão ser responsabilizados criminalmente.
É importante destacar que o indiciamento é uma conclusão da investigação policial sobre possíveis responsabilidades. A partir daí, o caso segue para análise do Ministério Público Federal (MPF), que poderá avaliar as medidas cabíveis.
A Voepass, afirmou que espera a divulgação oficial do relatório da PF para conhecer integralmente o conteúdo e se manifestar.
Caixa-preta revelou preocupação com gelo
O relatório final desta quinta ocorre um dia depois da divulgação, com base no laudo da Polícia Federal, de detalhes dos momentos que antecederam a queda.
A caixa-preta mostrou que os pilotos estavam preocupados com o acúmulo de gelo e com falhas no sistema de degelo do avião.

Em um dos trechos registrados na cabine, o copiloto percebeu a presença de gelo e tentou acionar o sistema. Na sequência, o comandante afirmou:
“Essa bosta não funciona! Não tá funcionando, né?”
O diálogo, revelado pelo Fantástico e repercutido pela mídia, ganhou importância porque a perícia identificou que problemas no sistema de degelo já haviam aparecido em voos anteriores.
No voo imediatamente anterior ao acidente, por exemplo, a aeronave também enfrentou acúmulo de gelo. Depois do pouso, o comandante chegou a dizer: “Chegamos vivos”.
Pouco tempo depois, o mesmo avião voltou a decolar para o voo 2283, que terminou em Vinhedo.
Falha aparecia antes da tragédia
De acordo com o laudo analisado pela PF, a mensagem AIRFRAME FAULT, relacionada ao sistema pneumático de degelo, apareceu no voo que terminou no acidente e em outros três voos anteriores.
No trajeto imediatamente anterior à tragédia, o alerta teria aparecido oito vezes, enquanto a tripulação tentou pelo menos cinco vezes reiniciar o sistema.
Para os investigadores, os registros indicam que o problema era conhecido e apresentava comportamento intermitente.
A perícia também apontou que, caso as falhas anteriores tivessem sido registradas formalmente pelas tripulações, a aeronave não poderia ter sido despachada para operar naquelas condições, já que o sistema de degelo inoperante não era permitido pela Lista de Equipamentos Mínimos.
PF aponta sequência de falhas
A investigação criminal não trata o acidente como consequência de um único problema.
O laudo aponta uma combinação de fatores, entre eles falhas recorrentes no sistema de degelo, operação em uma região com formação severa de gelo, procedimentos que não teriam sido executados conforme as orientações do fabricante e falhas sucessivas em barreiras de segurança.
A PF também identificou problemas relacionados ao despacho da aeronave. O avião decolou com uma falha no limpador de para-brisa, mesmo com previsão de chuva no destino. Segundo a perícia, a situação contrariava as regras previstas na Lista de Equipamentos Mínimos.
O documento aponta possível responsabilidade do Despachante Operacional de Voo e do comandante nesse episódio.
Na etapa final do voo, os computadores da aeronave emitiram diferentes alertas. Segundo a perícia, o avião perdeu sustentação, entrou em estol e depois em parafuso antes de atingir o solo.
PF e Cenipa têm objetivos diferentes
A investigação da Polícia Federal é apenas uma das apurações realizadas desde o acidente.
O Cenipa, ligado à Força Aérea Brasileira (FAB), conduziu uma investigação de segurança operacional e divulgou seu relatório final em 23 de julho de 2026.
O objetivo desse trabalho não é apontar culpados ou aplicar punições, mas entender os fatores que contribuíram para a ocorrência e produzir recomendações para evitar que situações semelhantes se repitam.
Já o inquérito da PF busca verificar a existência de crimes e possíveis responsabilidades individuais ou empresariais.
Por isso, a divulgação desta quinta-feira representa uma nova etapa na busca por respostas para as famílias das vítimas.
Famílias aguardavam respostas
No fim de junho, representantes dos familiares tiveram acesso pela primeira vez à transcrição das conversas registradas na cabine do ATR 72-500.

O material integra o laudo elaborado pelo Instituto Nacional de Criminalística (INC), que serviu de base para o inquérito policial.
As conversas eram aguardadas especialmente porque poderiam ajudar a esclarecer o que os pilotos fizeram diante da formação de gelo e das falhas no sistema de degelo.
Agora, com a conclusão da investigação criminal, os familiares devem conhecer a avaliação da PF sobre as possíveis responsabilidades relacionadas à tragédia.
Relembre o acidente em Vinhedo
O acidente aconteceu em 9 de agosto de 2024, quando o voo 2283 da Voepass seguia de Cascavel (PR) para o Aeroporto Internacional de Guarulhos (SP).
O ATR 72-500, de matrícula PS-VPB, levava 62 pessoas: 58 passageiros e quatro tripulantes.
A aeronave caiu em uma área residencial do bairro Capela, em Vinhedo. Nenhuma pessoa que estava a bordo sobreviveu. Moradores da residência atingida não ficaram feridos.
A tragédia foi o acidente aéreo comercial mais grave do Brasil desde a queda do voo da TAM, em 2007.
Nesta quinta-feira, quase dois anos depois, a investigação criminal da PF entra na fase em que as perguntas sobre possíveis crimes e responsáveis começam a ganhar respostas oficiais.