
A caixa-preta do avião da Voepass que caiu em Vinhedo , no interior de São Paulo, em agosto de 2024, registrou momentos de preocupação dos pilotos com o acúmulo de gelo e falhas no sistema de degelo da aeronave. Os diálogos foram revelados com exclusividade pelo Fantástico, nesta quarta-feira (05).
A reportagem teve acesso ao laudo da Polícia Federal (PF), que analisou os dados dos gravadores de voo e reconstruiu os momentos que antecederam a queda do avião. O acidente matou as 62 pessoas que estavam a bordo.

Segundo a perícia criminal, o problema no sistema de degelo não era desconhecido da tripulação. A falha havia aparecido em voos anteriores e, mesmo assim, o avião continuou sendo utilizado.
'Chegamos vivos'
Um dos pontos que mais chamam a atenção no material é que a tripulação já havia enfrentado uma situação de acúmulo de gelo no voo imediatamente anterior ao acidente.
Durante o trajeto entre Guarulhos (SP) e Cascavel (PR), o comandante percebeu que o gelo havia se acumulado na aeronave.
Piloto: “Olha o gelo... o gelo foi embora agora, finalmente. Escutei um barulho aqui, foi o gelo que voou.”
Após o pouso, o copiloto comentou:
Copiloto: “Muito bom, comandante.”
E o comandante respondeu:
Piloto: “Chegamos vivos.”
Pouco tempo depois, a mesma aeronave voltou a decolar. Dessa vez, para realizar o voo que terminaria na tragédia em Vinhedo.
'Esse avião parece aquele Fusquinha'
Ainda durante a subida do voo que acabou no acidente, novos alertas começaram a aparecer na cabine.
O comandante menciona uma falha identificada como AIRFRAME FAULT. Segundo a PF, o alerta estava relacionado ao sistema pneumático de degelo do avião.
Na sequência, o copiloto demonstra preocupação com a possibilidade de formação de gelo durante o trajeto.
Copiloto: “Olha a situação, se bem que não tá reportado isso aí, mas pra gente não pegar gelo teria que ir no 110, né?”
O comandante então faz uma comparação inusitada:
Piloto: “Foi só eu falar. O avião escutou. Esse avião parece aquele Fusquinha, Herbie lá... Herbie, filme bem antigo.”
Para a PF, o alerta naquele momento indicava uma falha no sistema de degelo da aeronave.
O procedimento previsto pelo fabricante determinava que a tripulação deixasse imediatamente uma região de formação de gelo. Conforme os dados do gravador de voo analisados pelos peritos, isso não ocorreu.
'Essa bosta não tá funcionando'
Quase uma hora depois, já na aproximação de São Paulo, a situação se tornou ainda mais grave.
O copiloto voltou a perceber o acúmulo de gelo.
Copiloto: “Bastante gelo.”
Em seguida, tentou acionar novamente o sistema de degelo:
Copiloto: “Ligar o airframe.”
A resposta do comandante foi direta:
Piloto: “Essa bosta não funciona! não tá funcionando, né?”
Copiloto: “É.”
Pouco depois, o copiloto voltou a alertar:
Copiloto: “Gelo.”
A partir daí, os registros mostram uma sequência rápida de alertas na cabine.
Na sequência, o avião recebeu alertas relacionados à proximidade do solo. O sistema TAWS passou a emitir:
TAWS: “Pull-up... Pull-up.”
O aviso significa que havia risco iminente de colisão com o terreno e que os pilotos deveriam interromper a descida e elevar o nariz da aeronave.
Avião perdeu sustentação e entrou em parafuso
De acordo com a análise da PF, os computadores de bordo passaram a emitir uma sequência de alertas, entre eles Performance Degradada e Increase Speed, seguidos pelo alarme de estol.
Em menos de um minuto, a aeronave perdeu sustentação, entrou em estol e, posteriormente, em parafuso, até atingir o solo.

O laudo aponta que os pilotos não executaram, no momento considerado adequado pelos peritos, procedimentos previstos pelo fabricante para situações de falha no sistema de degelo, degradação de desempenho, condições severas de gelo e recuperação de estol.
Segundo a PF, houve um intervalo de aproximadamente 20 segundos entre o alerta Increase Speed e o início do parafuso. Na avaliação dos investigadores, ainda havia possibilidade de intervenção da tripulação nesse período.
Falha já tinha aparecido em outros voos
A perícia também encontrou registros importantes nos computadores da aeronave.
A mensagem AIRFRAME FAULT apareceu no voo que terminou no acidente e em outros três voos anteriores.
Em todas essas ocasiões, as tripulações teriam repetido uma tentativa de fazer o sistema voltar a funcionar: desligar e ligar novamente o equipamento, em uma espécie de reinicialização.
No voo imediatamente anterior à tragédia, o alerta apareceu oito vezes, enquanto o sistema passou por pelo menos cinco tentativas de reset.
Para a Polícia Federal, os registros indicam que o comandante já tinha conhecimento de que o sistema apresentava falhas intermitentes.
O problema ganha ainda mais relevância porque havia previsão oficial de formação de gelo na rota.
Segundo o laudo, se as falhas anteriores tivessem sido registradas formalmente pelas tripulações, a aeronave não poderia ter sido despachada para operar naquelas condições, já que a Lista de Equipamentos Mínimos não permitia esse tipo de operação com o sistema de degelo inoperante.
PF aponta sequência de falhas
A investigação criminal também identificou outro problema no despacho da aeronave.
O avião foi autorizado a decolar apresentando uma falha no limpador de para-brisa, mesmo com previsão de chuva no destino. Segundo a PF, a situação contrariava as regras da Lista de Equipamentos Mínimos.
O laudo aponta possível desvio tanto por parte do Despachante Operacional de Voo quanto do comandante.
Para a Polícia Federal, a tragédia não foi resultado de um único problema, mas de uma combinação de fatores: falhas recorrentes no sistema de degelo, operação em uma região com formação severa de gelo, procedimentos que não foram executados conforme as orientações do fabricante e uma série de barreiras de segurança que deixaram de funcionar.
O que aconteceu com o voo da Voepass
O acidente aconteceu em 9 de agosto de 2024, quando o voo 2283 da Voepass fazia a rota entre Cascavel, no Paraná, e Guarulhos, em São Paulo.
O avião, um ATR-72, levava 58 passageiros e quatro tripulantes. A aeronave caiu em uma área residencial do bairro Capela, em Vinhedo. Nenhuma das 62 pessoas a bordo sobreviveu.

A queda provocou uma das maiores tragédias da aviação comercial brasileira nos últimos anos e mobilizou equipes de resgate, perícia e identificação das vítimas.
Desde então, diferentes órgãos passaram a investigar o caso.
Cenipa e PF têm investigações diferentes
O Cenipa (Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos) conduz uma investigação voltada à segurança da aviação. O objetivo é entender os fatores que contribuíram para o acidente e produzir recomendações para evitar que ocorrências semelhantes voltem a acontecer.
Já a Polícia Federal conduz uma investigação criminal, que busca identificar possíveis responsabilidades e verificar se houve crimes.
O relatório final do Cenipa sobre o acidente foi divulgado em 23 de julho de 2026, segundo a Anac. A agência informou que analisaria as recomendações apresentadas pelo órgão.
Voepass deixou de operar no Brasil
O acidente também teve consequências para a companhia aérea.
A Anac suspendeu as operações da Voepass em março de 2025, e a empresa deixou de ter autorização para realizar voos comerciais no país. A agência informou que a medida foi tomada no âmbito das ações de segurança da aviação civil.
Agora, a investigação criminal entra em uma nova etapa.
Segundo o Fantástico, a Polícia Federal deve concluir o inquérito sobre a queda da aeronave nesta quinta-feira (06). A apuração do programa aponta que haverá indiciamentos relacionados ao acidente.
A conclusão do inquérito deverá esclarecer quem, na avaliação da investigação criminal, poderá ser responsabilizado pelas falhas que antecederam a queda e pela morte das 62 pessoas.