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Onde foi que paramos?

11/04 - 08:12 - Ricardo Kotscho

Conversa vai, conversa vem, meu diálogo com os leitores na internet foi interrompido em junho do ano passado, quando escrevi minha última coluna para o NoMínimo, um site que era hospeado também aqui no iG.

Onde foi mesmo que paramos? Sob o título “Até qualquer hora”, aquele papo começava assim: "pois é, como eu ia dizendo, se não houver nenhum fato novo, está na hora de ir-me embora. O aviso prévio que todos recebemos do NoMínimo vence agora no final do mês, e esta deve ser minha última coluna. O leitor, eu não sei, mas estou triste, vou sentir muita falta”. 

Não deu outra. Cada um de nós foi tocar a vida em outras freguesias, muitos criaram seus próprios blogs ou colunas, e eu mesmo fiz um balaio de coisas para diferentes mídias nestes nove meses entre a despedida e a reestréia hoje aqui no IG. Publiquei até mais um livro (Uma Vida Nova e Feliz, lançado em dezembro pela Ediouro), uma coletânea das crônicas escritas para o antigo site.

Dei mais algumas voltas pelo Brasil, vi a vida mudando em muitos lugares, em geral para melhor, juntei muitas histórias para contar, mas me faltava este espaço democrático em que todos somos emissores e receptores de informações para dividir com vocês os acontecidos alegres ou tristes do cotidiano.

Por isso, fiquei muito feliz com o convite que recebi do Caio Túlio Costa, meu antigo colega da Folha de S. Paulo, hoje presidente do iG, aonde vem abrindo espaço para repórteres e reportagens agora nas ondas da internet.

Num País como o nosso, sabemos todos, não é tão comum assim um profissional que acaba de se tornar sexagenário ganhar a oportunidade de começar de novo numa grande empresa.

Espero reencontrar aqui muitos dos antigos leitores-companheiros-de-viagem dos tempos do NoMínimo e conquistar a confiança dos que se habituaram a acessar este portal.
  
Vamos, então, retomar a nossa conversa. O mundo gira, a Lusitana roda, mas é impressionante como as pautas não mudam. Em junho de 2007, como agora, uma overdose de coisa ruim, crises permanentes, violências, tragédias, denúncias, escândalos, ou seja, desgraceiras em geral, predominavam no noticiário, repetindo-se em moto-contínuo nas diferentes mídias e horários.

Não, é óbvio, que se deva ignorar este cardápio _ algo por assim dizer pesado, digamos. Repórter não pode brigar com os fatos, mesmo que o desagradem. Mas, por achar que neste campo do baixo astral os leitores, ouvintes e telespectadores já estão bem atendidos até demais, procurava então, e vou continuar caçando agora, outros assuntos para tratar na coluna, na contra-mão da pauta e do pensamento únicos.

Já há algum tempo venho percebendo um estranhamento crescente entre os temas considerados importantes por nós, jornalistas, e aqueles que animam as conversas do lado de fora dos palácios, plenários, plenárias, redações, púlpitos, tribunas, gabinetes públicos ou privados _ lá nas quebradas e encruzilhadas da vida real, onde vivem os chamados brasileiros comuns.

Falo da distância existente, por exemplo, entre a pauta oficial e a pauta de Apolinário Custódio Dias, um mineiro de 86 anos, que sobrevive, sem queixas, vendendo fumo picado na beira da estrada em São Brás do Suaçuaí, pertinho de onde nasceu, no caminho de quem vai de Belo Horizonte a São João del Rey. Conto a história dele numa reportagem da revista Brasileiros que foi para as bancas esta semana (em breve, não percam, a revista também estará hospedada aqui no iG).


Ricardo Kotscho conversa com Apolinário Dias / Foto: Hélio Campos Mello

Na prosa pouca que mantivemos enquanto os carros passavam acelerados pela estrada, Apolinário contou como foi e está sua vida, e resumiu: “muito no momento, eu acho que o Brasil melhorou... Eu sou um homem feliz, graças a Deus... Sabe, moço, nós não somos desse mundo. A qualquer tempo, nós podemos mudar daqui e não vamos levar nada...”.

Por uma dessas estranhas coincidências da vida, lembrei-me agora que o desapego foi exatamente o tema daquela minha última crônica do NoMínimo.  

Histórias como a do brasileiro que ganhou a vida plantando e vendendo fumo de corda pelos roçados de Minas, e chega feliz aos 90, me interessam muito mais do que o destino de um senador infiel ou as intermináveis disputas entre o governo e a oposição.

Gostaria que os leitores também contassem as suas descobertas de gente e de lugares neste espaço que pretendo dedicar preferencialmente a um Brasil que não está na mídia, o Brasil real.

A coluna será publicada às sextas-feiras e terá atualizações entre uma semana e outra sempre que eu tropeçar em alguma novidade que mereça ser contada.

Leia outros textos de Ricardo Kotscho desta sexta-feira:

Lula III: em entrevista para Ricardo Kotscho, presidente Lula nega pensar em reeleição

ABI 100: associação de jornalistas comemora cem anos de existência

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