Jornalistas ocidentais são mortos em Homs, na Síria

Fotógrafo francês Remy Ochlik e repórter americana Marie Colvin morrem em cidade que é alvo de brutal operação militar

iG São Paulo |

Dois jornalistas ocidentais foram mortos em Homs, cidade síria que é alvo de uma brutal operação militar, afirmou o ministro das Relações Exteriores da França, Alain Juppé, nesta quarta-feira. As vítimas são o fotógrafo francês Remy Ochlik, que fazia trabalhos para a revista Paris Match, e a repórter americana Marie Colvin, do jornal britânico Sunday Times.

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AP
O fotógrafo Remi Ochlik, que morreu em Homs, na Síria, em foto sem data
Juppé afirmou que o governo francês tenta descobrir as circunstâncias exatas das mortes. Há relatos de que os jornalistas estavam em uma casa usada por ativistas como “sala de imprensa”, que foi atingida por bombas e foguetes.

Pelo menos outros dois jornalistas estrangeiros - o repórter francês Edith Bouvier do Le Figaro e o fotógrafo britânico Paul Conroy do Sunday  -Times teriam ficado feridos. O ministro francês afirmou que as mortes “mostram a degradação da situação” na Síria e “a repressão cada vez mais intolerável” das forças de segurança.

Homs, cidade localizada no centro do país e principal reduto da oposição ao presidente Bashar Al-Assad, é alvo de uma ofensiva militar há 19 dias e deixou centenas de mortos. Além dos dois jornalistas ocidentais, outras 74 mortes foram registradas no país somente nesta quarta-feira, segundo ativistas. 

Vinte das mortes desta quarta ocorreram em Homs, cddade que já é comparada com o reduto líbio em Misrata, que resistiu a ataques devastadores das tropas leais a Muamar Kadafi , ditador deposto e morto após revoltas .

"É uma cidade que sofre com o frio e com a fome, e ecoa o som das explosões e dos disparos", escreveu Marie Colvin no que viria a ser sua última reportagem publicada, do dia 19 de fevereiro. "Não há telefone e a eletricidade foi cortada. Poucas casas têm diesel para os aquecedores que necessitam para enfrentar o pior inverno que qualquer um pode lembrar."

Ela descreveu o esgotamentos de suprimentos como arroz, chás e latas de atum "saqueados de um supermercado bombardeado e entregues por um xeque local". "Nas bocas de todos as perguntas: 'por que fomos abandonados pelo mundo?", escreveu.

As forças de segurança tentam retomar bairros que passaram para o controle de ativistas e desertores do Exército. Nesta quarta-feira, helicópteros atingiram aldeias nas montanhas que abrigam o grupo rebelde Exército Livre Sírio.

"Esse trágico incidente é outro exemplo da brutalidade vergonhosa do regime de Assad", disse Victoria Nuland, porta-voz do Departamento de Estado americano.

A França mostrou indignação pela morte dos jornalistas nesta quarta-feira. "Agora já chega. O regime (de Assad) tem que sair", disse o presidente Nicolas Sarkozy.  

O Ministério das Relações Exteriores do Reino Unido convocou para consultas o embaixador da Síria em Londres, Sami Khiyami, após a morte da jornalista Marie Colvin.

A decisão do governo britânico segue outra similar do Ministério das Relações Exteriores da França, que previamente também convocou a representante diplomática síria em Paris pela morte do fotógrafo francês.

Por ordem do chanceler britânico, William Hague, o embaixador sírio se reuniu com Geoffrey Adams, responsável de Política do Ministério das Relações Exteriores do Reino Unido, que em comunicado condenou "a contínua e inaceitável violência em Homs".

Segundo a agência EFE, o ministro de Informação da Síria, Adnan Mahmoud, afirmou que não sabia que a jornalista americana e o fotógrafo francês estavam no país.

"O Ministério de Informação não tem conhecimento da presença ou entrada de Marie Colvin e Rémi Ochlik, assim como de outros estrangeiros, em território sírio", disse o ministro em declarações citadas pela agência oficial de notícias síria, Sana.

Mahmoud exigiu que "todos os estrangeiros que entraram na Síria de maneira ilegal recorram aos centros de estrangeiros mais próximos para regularizar sua situação de acordo com a legislação síria".

Neste sentido, uma fonte do ministério disse à EFE que os jornalistas mortos tinham entrado da maneira ilegal no país e que atualmente o departamento não está concedendo vistos aos repórteres estrangeiros.

Na terça-feira, o Comitê para a Proteção dos Jornalistas (CPJ) informou que ao menos quatro jornalistas morreram na Síria desde o início do ano, um número ao qual agora se somam estes dois últimos casos.

Em janeiro, o cinegrafista francês Gilles Jacquier foi morto durante uma viagem a trabalho autorizada pelo governo sírio. Ele e mais outros jornalistas estavam na cidade de Homs, quando houve um ataque de granadas.

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Diante da continuidade da violência, o Conselho Nacional Sírio (CNS), principal órgão da oposição, pediu nesta quarta-feira à comunidade internacional a criação de "zonas de proteção" na Síria. O grupo disse estar chegando à conclusão de que apenas uma ofensiva militar pode encerrar a crise no país.

"Estamos perto de enxergar esta intervenção militar como a única solução. Há dois males: uma intervenção militar ou uma prolongada guerra civil", disse Basma Kodmani, uma autoridade do alto escalão do Conselho, em entrevista coletiva em Paris.

Basma acrescentou que o grupo vai pedir à Rússia, que vetou uma resolução contra o governo da Síria no Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU), que ajude a persuadir o governo sírio a garantir a passagem em segurança de comboios humanitários.

AP
A jornalista americana Marie Colvin é fotografada na Praça Tahrir, no Cairo, durante cobertura da revolta popular egípcia (2011)

"Para que não haja militarização, a ideia é pedir à Rússia para exercer pressão no regime para não disparar contra corredores humanitários", disse ela. Basma afirmou que o CNS propôs a instalação de corredores do Líbano para Homs, da Turquia para Idlib e da Jordânia para Deraa.

O Conselho também pedirá ajuda ao Egito em uma reunião do Grupo de Amigos da Síria que será realizada em Túnis, na sexta-feira, para restringir o acesso ao Canal de Suez para qualquer navio transportando armas para o regime sírio.

O Comitê Internacional da Cruz Vermelha disse, na segunda-feira, que está tentando negociar um cessar-fogo para que suprimentos médicos e alimentos sejam levados a áreas da Síria mais afetadas pela violência.

A revolta de 11 meses contra o governo do presidente Bashar Al-Assad já provocou mais de 7,6 mil mortos, segundo grupos de direitos humanos. O governo afirma que 2 mil integrantes das forças de segurança do país foram mortos em combates contra ''gangues armadas e terroristas''.

Com AP e AFP

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