Delfim Netto diz que não sabia de torturas na ditadura e defende o AI-5

Por Vasconcelo Quadros - iG São Paulo | - Atualizada às

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Em depoimento, ex-ministro da Fazenda e do Planejamento dos anos de chumbo também negou que tenha pedido dinheiro a empresários para financiar a repressão contra a esquerda

Os vereadores da Comissão da Verdade da Câmara Municipal que investiga os anos de chumbo em São Paulo e o ex-ministro Antônio Delfim Netto fizeram nesta terça-feira um jogo dialético, mas não chegaram a lugar algum.

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Delfim negou que tenha ajudado a organizar a arrecadação de recursos para bancar a repressão contra a esquerda armada, afirmou que nem sabia que havia tortura - “sei agora que vocês estão esclarecendo” - e jura que havia uma clara separação entre economia e os militares que comandaram a caça às organizações.

Câmara Municipal de São Paulo
Delfim Netto é questionado em depoimento à Comissão Municipal da Verdade de São Paulo

“Era um bando de maluquetes”, disse, ao se referir aos militares da linha dura, que deram as caras depois que o regime militar baixou, em dezembro de 1968, o famoso Ato Institucional nº 5, do qual ele foi defensor e signatário.

Nas quase duas horas em que prestou depoimento, atendendo convite do vereador Gilberto Natalini (PV), presidente da Comissão Municipal da Verdade, Delfim disse o que quis e não encontrou contraponto. Os vereadores não tinham um documento sequer que confrontasse suas versões.

O ex-ministro afirmou que nunca falou com o ex-governador e hoje deputado Paulo Maluf sobre repressão, disse que não conheceu o delegado Sérgio Paranhos Fleury, a face mais cruel da repressão urbana, e que só conversou com o empresário Albert Boilesen - o diretor da Ultragaz executado pela esquerda em represália ao apoio ostensivo que ele deu à repressão - sobre taxa de juros.

O grande trunfo da comissão era o relato feito pelo jornalista Elio Gaspari, autor da série As Ilusões Armadas, no livro Ditadura Escancarada, sobre um suposto encontro em que Delfim teria pedido aos empresários paulistas que colocassem a mão no bolso para financiar a Operação Bandeirantes (Oban), criada para exterminar as organizações de esquerda.

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“Não é verdade o que está no livro”, disse Delfim sobre a reunião. “É improvável que tenha havido caixinha”, acrescentou. Ele elogiou o jornalista, mas negou que tenha coordenado reuniões. Também afirmou que nunca ouviu falar em Oban.

A reunião teria sido convocada por Delfim e foi revelada pelo banqueiro Gastão Bueno Vidigal, versão nunca desmentida, embora Delfim já tenha dito ao próprio Gaspari que não participou.

A formação de um caixa por empresários da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) foi confirmada em várias entrevistas pelo ex-governador paulista, Paulo Egydio Martins, que deverá depor em breve e poderá esclarecer as declarações de Delfim Netto.

“No afã de negar tudo, ele perdeu a oportunidade de se redimir. Nem o seu neto de 3 anos acreditaria que ele não sabe de nada”, disse Natalini. “O Delfim veio para mentir e mentiu”, afirmou o jornalista Ivan Seixas, coordenador da Comissão Estadual da Verdade.

Bem a seu estilo, o ex-ministro ignorou as provocações e quando Natalini lembrou que, preso e torturado, havia sido uma das vítimas, o encarou sério.

“O senhor tem a minha solidariedade. Sou a favor que se apure toda a verdade mesmo”, tergiversou. Quando lembraram que ele foi signatário do AI-5, respondeu que assinou também a Constituição. Defendeu o ato de exceção afirmando que havia, em 1968, uma “desarrumação geral” e que a esquerda estava “destruindo o país”.

Aos jornalistas, na saída, disse que não há comparação entre 1968 e as manifestações de agora que, segundo ele, representam um avanço do processo democrático. Afirmou que é favorável ao plebiscito proposto pelo governo e que a economia não corre riscos.

“O mercado e as urnas fazem o mesmo jogo dialético”, filosofou, como se estivesse repetindo a audiência com os vereadores. Delfim saiu no lucro e agora dificilmente será constrangido pelas comissões estadual e nacional, onde ainda pode ser convocado. Tem como argumento o depoimento desta terça, em que nada disse, mas que pode repetir.

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