Cultura se fortalece em São Paulo e abre novo campo na disputa por voto

Por Ricardo Galhardo , iG São Paulo | - Atualizada às

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Redes e coletivos dedicados à cultura alternativa ganharam projeção política na capital após o 'Existe Amor em SP' e despertam interesse do PT, da Rede de Marina e até do PSDB

Até seis meses atrás nomes como Matilha Cultural, Fora do Eixo, Voodoohop e Casa da Cultura Digital faziam parte apenas do vocabulário dos jovens descolados de São Paulo. No universo pragmático da política partidária, a cultura era considerada mera perfumaria. Hoje esses grupos são objeto de disputa entre algumas das principais forças políticas que vão se enfrentar na eleição presidencial do ano que vem, como o PT, o PSDB e a Rede de Marina Silva.

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A mudança começou no dia 21 de outubro do ano passado, quando cerca de 10 mil jovens lotaram a Praça Roosevelt em torno de um palco por onde passaram Criolo, Emicida, Karina Buhr e Gaby Amarantos no Festival Existe Amor em SP, na verdade uma manifestação política em apoio ao então candidato do PT, Fernando Haddad, organizada por grupos, como Fora do Eixo e outras duas dezenas de redes e coletivos dedicados à cultura alternativa.

Não é possível quantificar em número de votos o impacto do evento na vitória do petista. Já a dimensão política foi dada pelo próprio Haddad, que abriu e fechou seu discurso de posse falando do Existe Amor em SP.

Futura Press
Ato do 'Existe Amor em SP' lotou a Praça Rousevelt antes do segundo turno entre Haddad e Serra

Em entrevista exclusiva ao iG, o prefeito falou sobre o festival. “Foi fundamental para mim, sabia? Considero um ponto alto da minha campanha embora não tenha partido da campanha, não tenha sido programado nem projetado pela campanha. Aquilo me encheu de esperança porque 10, 15, não sei quantas mil pessoas foram para a rua pedir uma outra São Paulo. Foram dizer ‘a gente gosta de viver aqui, só quer viver um pouco melhor’. Acho muito importante. Me deu esperança de que podemos fazer muito pela cidade”.

O ato foi organizado via internet, sem participação direta da campanha petista, por grupos de jovens militantes que aplicam formas modernas de organização como os coletivos e as redes, entre eles Matilha Cultural, Fora do Eixo, Voodoohop e Casa da Cultura Digital.

As imagens da Praça Roosevelt lotada despertaram os estrategistas políticos para o fato de que aquilo era muito mais do que uma festa de hippies e que a cultura pode ser um vetor de mobilização do eleitorado jovem - e render votos.

Divulgação
Festival reuniu mais de 10 mil pessoas, 30 mil, segundo os organizadores, em outubro de 2012

“Ficou claro que aquilo teve uma importância eleitoral e trouxe para o debate político um monte de gente que estava fora, gente que achava a política uma coisa chata feita por velhos de terno e gravata”, disse o jornalista Lino Bochini, um dos organizadores do evento. “Não foi um comício. Não teve um discurso. Mas todo mundo sabia por qual motivo estava ali”, completou.

Assim que as urnas foram fechadas, Haddad iniciou um processo de aproximação com estes movimentos. As redes e coletivos passaram a ter assento nas reuniões da equipe de transição e trânsito com o próprio prefeito.

Em uma destas reuniões, Haddad admitiu que ainda não tinha um nome para a Secretaria de Cultura e abriu a porta para sugestões. Foi quando o cuiabano Pablo Capilé, do coletivo Fora do Eixo, falou: “Já pensaram no Juca Ferreira?”. Dias depois Juca era o secretário.

“Nosso papel na eleição foi desenhar e construir de forma colaborativa uma percepção de cultura que ajudou a criar uma nova estética para a política, muito mais adequada ao espaço e tempo desta geração”, explicou Capilé, que rejeita a pecha de ter “indicado” Juca.

Cargos no governo

Empossado, Haddad passou a abrigar esses grupos no governo. O chefe de gabinete de Juca Ferreira é Rodrigo Savazoni, um dos criadores da Casa de Cultura Digital, que tem boas relações com o Fora do Eixo e participou ativamente organização do Existe Amor em SP.

Na semana passada, os coletivos foram convidados a participar de uma reunião com o secretário de Desenvolvimento Urbano, Fernando Mello Franco, para opinar sobre o Plano Diretor da cidade e terão assento no Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social que Haddad vai criar.

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Na segunda semana de governo, Juca promoveu o evento Existe Diálogo em SP e prometeu que a verba da Cultura vai passar de 0,9% para 2% do Orçamento da cidade.

Segundo Savazoni, a secretaria estuda criar um conselho cultural, no qual grupos como Fora do Eixo terão assento cativo para “deliberar sobre programas, políticas e eventualmente ajudar a gerir os recursos públicos”.

Divulgação/Frâncio de Holanda
Sob a gestão de Haddad, São Paulo volta a ter manifestações artísticas de rua, como no carnaval

“O prefeito não é um neófito da cultura, é um intelectual. Mas é lógico que a política tradicional vai empreender uma disputa por este novo campo (das redes e coletivos) já que toda a política hoje está se movimentando nesta direção”, disse Savazoni.

O secretário municipal da Juventude, Gabriel Medina, também foi escolhido com o aval dos coletivos culturais.

“Não temos interesse em ocupar cargos públicos mas também não temos nada contra”, disse Capilé. “Cada um tem seu papel. Temos autonomia desde o começo. Os anos se passaram e a juventude se fortaleceu. Isso (a relação com governos) faz parte do nosso crescimento”, completou o cuiabano.

A mesma lógica foi aplicada por Haddad às casas noturnas onde os artistas alternativos se apresentam. As atrações da Virada Cultural deste ano serão escolhidas por uma comissão de curadores que tem empresários da noite entre seus integrantes.

“Algumas medidas tomadas pelo governo Haddad são muito interessantes. A primeira foi a liberação do carnaval de rua. Isso sinalizou para o fim da política proibicionista. A segunda foi diante da tragédia de Santa Maria (RS) quando o prefeito, em vez de criminalizar as casas noturnas, fez um pacto de compromissos pela segurança”, disse Alê Youssef, dono do Studio SP, um dos principais palcos alternativos da cidade, e presidente do bloco Acadêmicos do Baixo Augusta. “Fechar a noite de São Paulo seria como fechar as praias do Rio de Janeiro”, completou Youssef.

PT x PSDB x Marina

A ex-senadora Marina Silva, possível candidata à presidência em 2014, também mantém canais de diálogo com grupos como Fora do Eixo. Não por acaso ela batizou seu novo partido de Rede.

Diante da ofensiva dos adversários, os tucanos também estão tomando providências para se aproximar do setor. O vereador Andrea Matarazzo (PSDB), ex-secretário de Cultura no governo José Serra, vai apresentar um projeto de lei propondo isenção fiscal para projetos na área da economia criativa.

Apesar da distância em relação aos coletivos e redes que promoveram o Existe Amor em SP, Matarazzo lembra as iniciativas tucanas na área como o apoio para o estabelecimento de grupos de teatro alternativo como os Satyros para a Praça Roosevelt, a criação das Fábricas de Cultura na periferia e o apoio à abertura de casas noturnas como o extinto Vegas na região do Baixo Augusta. “Na atividade política a única coisa que efetivamente interessa à juventude é a cultura”, disse Matarazzo. “O homem público que não perceber isso está fora”, completou o vereador tucano.

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