Polícia entra em confronto com manifestantes anti-ONU no Haiti

Protestos pedem retirada das tropas da missão depois de soldados terem sido acusados de violentar sexualmente um adolescente

iG São Paulo |

Policiais haitianos usaram gás lacrimogêneo em um confronto, nesta quarta-feira, com manifestantes que exigiam a retirada das tropas da ONU do país, depois de soldados uruguaios serem acusados de violentarem sexualmente um adolescente.

AFP
Manifestantes no Haiti exigem retirada das tropas da missão da ONU; no cartaz lê-se: "Brasil + Chile = Ocupação"

O incidente ocorreu quando cerca de 300 pessoas tentavam chegar a uma praça em frente às ruínas do palácio presidencial de Porto Príncipe, onde ainda há sobreviventes do terremoto de 2010 acampados sob barracas e lonas.

Transeuntes e moradores do local, muitos deles segurando crianças pequenas, fugiram do gás lacrimogêneo, e alguns manifestantes atiraram pedras nos policiais. Os confrontos com a polícia não deixaram feridos.

A Minustah (missão da ONU no Haiti que é comandada por tropas brasileiras) é alvo de protestos desde que veio à tona, no começo do mês, um vídeo gravado por celular no qual fuzileiros navais uruguaios são vistos rindo ao afundarem o rosto de um rapaz em um colchão e aparentemente cometerem abusos sexuais.

Quatro militares uruguaios foram detidos pelo incidente, ocorrido em 28 de julho, e serão submetidos a uma corte marcial. A suposta vítima, Johnny Jean, disse em depoimento a um juiz haitiano que foi violentado.

Aos gritos de "fora Minustah" e "estupradores", os manifestantes fizeram uma passeata pelas ruas da devastada capital. Alguns levavam cartazes chamando a força de paz da ONU de "força de ocupação". A polícia interveio para impedir que o grupo chegasse à praça do Champs de Mars, onde o governo proibiu manifestações.

A Minustah abriu inquérito sobre o incidente de julho, prometendo determinar se a violência sexual realmente aconteceu. O Uruguai já pediu desculpas formais ao Haiti e qualificou de "aberração" a conduta dos acusados.

A missão da ONU já havia ficado mal vista no Haiti devido à suspeita de que soldados nepaleses tivessem introduzido uma epidemia de cólera no país, o que motivou distúrbios contra as forças estrangeiras no ano passado.

"Justiça para Johnny, justiça para todas as vítimas de estupro pela Minustah, justiça e indenização para todos os haitianos que são vítimas da epidemia de cólera trazida pela Minustah", pediu o manifestante Simon Mourin, 30 anos, em entrevista à Reuters. "Eles precisam ir embora, ou entraremos em guerra com eles."

A Minustah foi criada em 2004, sob comando do Brasil, para ajudar a estabilizar o país, assolado por repetidas crises políticas. Seu contingente teve um papel importante nas tarefas humanitárias depois do terremoto do ano passado, que matou até 300 mil pessoas.

O chefe civil chileno da missão disse que irá pedir ao Conselho de Segurança da ONU que autorize uma redução gradual do contingente estrangeiro no país.

Na semana passada, o ministro da Defesa brasileiro, Celso Amorim, anunciou que há uma intenção de retirar as tropas da Minustah do país caribenho. "A situação de segurança melhorou muito e houve uma segunda eleição democrática desde que nós chegamos ali", disse na ocasião.

Ele acrescentou que a redução das tropas seria coordenada com a ONU e aconteceria de forma natural, depois de um aumento no número de militares que ajudaram nos esforços da recuperação do terremoto.

Com AP e Reuters

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