Apego do Japão ao fax expõe resistência ao novo e envelhecimento populacional

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Popularidade do fax ajuda a explicar por que o Japão, que já revolucionou consumo de eletrônicos, tornou-se retardatário na era digital e ficou para trás da Coreia do Sul e da China

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O Japão é conhecido por seus robôs e trens-bala e tem algumas das redes de banda larga mais rápidas do mundo. Mas o país também permanece firmemente apegado a uma tecnologia pré-internet, a máquina de fax, que na maioria dos outros países desenvolvidos se juntou a secretárias eletrônicas e tocadores de fitas cassete no lixo das tecnologias obsoletas.

No ano passado, famílias japonesas compraram 1,7 milhão de máquinas de fax. De acordo com historiadores de tecnologia, nos EUA o aparelho se tornou um artefato tão antigo que a rede de museus Smithsonian acrescentou duas máquinas à sua coleção.

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Empregados na Tamagoya, companhia que entrega comida, recebe pedidos por faz e telefone em Tóquio (22/01)

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"O fax foi um sucesso tão grande no Japão que tem sido uma tecnologia difícil de substituir", disse Kenichi Shibata, gerente da NTT Communications, que liderou o desenvolvimento dessa tecnologia em 1970. "Ele se estabeleceu de uma maneira extraordinária na sociedade japonesa."

O gabinete do governo japonês disse que quase 100% dos escritórios e 45% das casas particulares possuíam uma máquina de fax em 2011.

Yuichiro Sugahara aprendeu da pior maneira possível sobre o apego de seu país à máquina de fax, popularizada na década de 1980. Há uma década, ele tentou modernizar sua empresa familiar, que oferece refeições tradicionais, abrindo a possibilidade de pedidos online. As vendas rapidamente despencaram.

Hoje, sua empresa, Tamagoya, está prosperando novamente com milhares de pedidos todas as manhãs, a maioria por fax, muitos com recomendações escritas à mão, como: "Gostaria de pouco óleo na hora de fritar o frango" ou "por favor adicionar um ovo extra cozido".

A relutância do Japão em desistir de suas máquinas de fax oferece uma visão reveladora de uma nação em processo de envelhecimento que muitas vezes pode parecer determinada a manter sua tradição mesmo que o resto do mundo pareça evoluir rapidamente.

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A popularidade do fax ajuda a explicar por que o Japão, que já revolucionou o consumo de eletrônicos com suas calculadoras, walkmans e, sim, máquinas de fax, tornou-se um retardatário na era digital e ficou para trás em relação a seus concorrentes mais ágeis, como a Coreia do Sul e a China.

Depois do terremoto seguido de tsunami que atingiu o nordeste do país em 2011, houve um pequeno aumento nas vendas de fax para substituir as máquinas que foram destruídas durante o desastre.

Uma das mais vendidas é de um modelo que é alimentado por baterias e, por isso, continua trabalhando durante as falhas de energia causadas por desastres naturais. De acordo com especialistas, máquinas de fax mantêm seu apelo para os japoneses mais idosos, que muitas vezes se sentem desconfortáveis com teclados.

Ao mesmo tempo, ater-se aos modos antigos também obriga o Japão a aceitar níveis mais elevados de ineficiência. Na 114 Bank, uma empresa de médio porte com um escritório no centro do bairro de Nihonbashi, uma espécie de Wall Street de Tóquio, a maioria dos clientes de pequenas empresas ainda prefere fazer suas operações bancárias por fax.

"O histórico do fax o torna mais seguro em um mundo de hackers e vírus", disse Kiichiro Yoshii, gerente do banco.

Mas seu próprio sucesso o fez virar um hábito difícil de largar. Os dados demográficos do envelhecimento também desempenharam um papel, pois as gerações que viveram os anos de glória da nação ficaram apegadas a essas máquinas. De fato, até 2009, o número de máquinas de fax em residências particulares ainda estava em ascensão, um reflexo dos números cada vez menores de jovens que abraçam novas tecnologias, disseram especialistas.

"A demografia deixou o Japão dominado por gerações mais velhas que ainda são mais propensas a possuir um número de fax em vez de um endereço de email", disse Shigeyuki Miya, vice-presidente do grupo Associação de Redes de Comunicação e Informação do Japão.

Miya disse que 2009 foi um ponto de inflexão por causa da introdução de dois dispositivos, o smartphone e o computador tablet. Especialistas afirmaram que esses aparelhos se tornaram populares entre os japoneses mais jovens de uma forma que os computadores nunca conseguiram.

Mas agora o Japão enfrenta novos temores de uma crescente divisão entre o fax e as gerações pós-fax. A NTT, a companhia telefônica nacional que inicialmente ajudou a tornar as máquinas de fax acessíveis, tentou preencher essa lacuna. Ela oferece serviços que permitem que os japoneses mais velhos usem suas máquinas de fax para enviar mensagens para seus filhos e netos que possuem smartphones como anexos em e-mails.

"Utilizamos o fax desde seu início", disse Kenichi Shibata, gerente da NTT. "Queremos que o fax continue evoluindo para que não desapareça."

Por Martin Fackler

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