Melhora em índices econômicos é alívio, mas não salvação para Obama

Ao iniciar quarto ano de mandato buscando a reeleição, líder dos EUA tem desafio de manter recuperação e evitar crises externas

Luísa Pécora, iG São Paulo |

Ao dar início ao quarto ano de mandato, o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, respira um pouco mais aliviado graças à recente melhora nos índices de desemprego que injetaram otimismo em sua campanha pela reeleição. Mas até a votação de novembro, nas quais a economia será fator decisivo , o desafio de Obama será manter a percepção de que o país caminha para a recuperação e tentar evitar que fatores externos como a crise do euro e a tensão no Oriente Médio atrapalhem seus planos.

Divulgação / Casa Branca
Obama participa de reunião sobre missão que matou Osama bin Laden (01/05/2011)
Um relatório do governo americano divulgado no início de janeiro mostrou que a taxa de desemprego nos EUA recuou para 8,5% em dezembro, a mais baixa desde fevereiro de 2009, com a geração de 200 mil empregos. Com isso, o último mês de 2011 tornou-se o sexto consecutivo em que o número de vagas criadas ultrapassou 100 mil.

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O país ainda precisa somar 6 milhões de empregos para voltar aos índices de dezembro de 2007, quando a recessão começou, mas a continuidade de boas notícias, ainda que tímidas, podem ajudar o presidente a conseguir um segundo mandato.

“A queda no índice de desemprego é excelente para Obama porque esse é o dado mais importante para o público: o mais simbólico, o mais fácil de entender e o que faz mais diferença para todos os indivíduos, com ou sem emprego”, afirmou ao iG Robert Shapiro, professor de Ciência Política e ex-diretor do Instituto de Pesquisa Socioeconômica da Universidade de Columbia, em Nova York. “Mas não há como prever quanto avanço haverá no futuro, já que economistas apostam, no máximo, em melhorias lentas.”

Especialistas ouvidos pela agência Associated Press esperam que em 2012 a economia americana cresça cerca de 2,4% e crie 2 milhões de vagas. A taxa de desemprego deve cair pouco, fazendo com que Obama continue sendo o presidente com o pior índice em ano eleitoral desde a Segunda Guerra Mundial (1939-1945).

As estatísticas sugerem, porém, que os eleitores se preocupam menos com o número em si e mais com a tendência de crescimento ou queda. Desde 1956, nenhum presidente perdeu a reeleição quando a taxa de desemprego caiu nos dois anos anteriores à eleição - e nenhum ganhou quando o índice cresceu.

No momento, Obama se encaixa no primeiro grupo. Quando assumiu o poder, em janeiro de 2009, a taxa de desemprego nos EUA era de 7,8%. O presidente enfrentou um pico de 10% em outubro do mesmo ano e durante 21 meses consecutivos o índice se manteve acima de 9%. Há quatro meses, porém, o cenário é de queda – e economistas acreditam que deva continuar assim.

Crises em potencial

Para Lawrence J. White, professor do Departamento de Economia da Universidade de Nova York, Obama será reeleito se conseguir criar no público a percepção de que a economia está no caminho certo. Mas ele aponta três fatores que podem representar desafios, a começar pela fragilidade do mercado imobiliário americano.

Segundo White, muitas vítimas da crise de 2008 ainda devem quantias maiores que o valor de suas propriedades. “Um aumento no número da execução de hipotecas certamente teria um impacto negativo na habitação e em toda a economia”, afirmou, fazendo referência ao processo judicial conhecido como “foreclosure”, usado pelo banco para confiscar um imóvel por causa da quebra do contrato de financiamento.

A segunda ameaça para os EUA é a crise do euro, dado o risco de um calote da dívida por parte de países como Portugal, Irlanda, Itália, Grécia e Espanha, além do reflexo nas bolsas de valores de todo mundo. Para um grupo de 36 economistas ouvidos pela Associated Press, há 18% de chance de a crise europeia prejudicar a economia americana em 2012.

O terceiro desafio é a escalada de tensões entre EUA e Irã, que pode provocar um aumento no preço do petróleo. Para tentar atingir o programa nuclear iraniano, em dezembro Obama assinou um novo pacote de sanções contra o setor petrolífero do país persa. Em resposta, o Irã ameaçou fechar o Estreito de Ormuz , uma importante rota marítima para os carregamentos de petróleo.

Se levada a cabo, a medida terá “impacto substancial” na economia americana, de acordo com o professor White. “Ainda que o governo dos EUA esteja importando menos do que antes, o mercado de petróleo continua sendo internacional. Qualquer coisa que aconteça no Golfo Pérsico tem consequências globais”, afirmou.

Pelo pacote aprovado em dezembro, Obama tem até 180 dias para cortar os negócios dos EUA com qualquer país ou grupo privado que compre petróleo por meio do Banco Central do Irã. O presidente tem o direito de atrasar a aplicação das sanções se considerar que não há petróleo suficiente no mercado ou pode eximir um país das restrições se o volume de produto importado do Irã tiver sido reduzido “significativamente”, decisões que podem aliviar o impacto econômico de uma crise no Golfo Pérsico. Por outro lado, representam um potencial problema político ao passar a impressão de que Obama “suavizou” sua postura em relação ao Irã.

Problemas e avanços

Há décadas estudando os efeitos da economia nas eleições americanas, o professor Ray C. Fair, da Universidade de Yale, em New Haven, inventou um cálculo matemático para prever o resultado da disputa presidencial com base em índices econômicos como PIB per capita e preços de mercado.

A última previsão, de outubro de 2011, aponta uma vitória apertada do presidente, com 50,7% dos votos. “Se a economia crescer moderadamente, como se espera, a eleição deve ser disputada, mas Obama vence. Se entrarmos em outra recessão, Obama perde”, afirmou o professor, que ainda não sabe quem será o rival republicano do líder na disputa, mas considera a informação irrelevante dado o peso da questão econômica.

Favorito na disputa republicana à presidência, o ex-governador de Massachussetts Mitt Romney colocou as críticas à economia no centro da campanha. Quando a melhora no índice de desemprego foi anunciada, Romney reagiu dizendo que o país “merecia mais”. “Vamos nos recuperar da recessão, mas não graças às políticas do presidente, e, sim, apesar das políticas do presidente”, afirmou à rede CNN.

Em um folheto de campanha enviado a eleitores no início de janeiro, o pré-candidato fez duras críticas à principal iniciativa econômica de Obama, um pacote de estímulo de US$ 797 bilhões anunciado em 2009. De acordo com o texto, a medida foi um fracasso e, desde sua aprovação, “1 milhão de empregos foram perdidos”.

No entanto, relatórios divulgados pela organização apartidária Congressional Budget Office e por três empresas privadas de análise econômica (IHS/Global Insight, Macroeconomic Adviser e Moody’s Economy.com) indicam que a situação econômica americana seria ainda pior sem o pacote de estímulo. As estimativas variam entre 1,3 milhão e 2,45 milhões de empregos criados ou salvos, segundo dados compilados pelo site Politicfact.com.

Além disso, o relatório divulgado em novembro pela Congressional Budget Office afirma que no terceiro trimestre de 2011 o pacote provocou um crescimento de 0,3% a 1,9% no PIB.

Entre os 36 economistas ouvidos pela AP, metade considerou as políticas econômicas de Obama “justas”, 13 consideraram “pobres”, cinco classificaram como “boas” e nenhum as descreveu como “excelentes”. As críticas vão desde a ênfase excessiva na reforma da saúde, aprovada em 2009, às falhas estruturais no pacote de estímulo e ao fato de não ter pressionado por um pacote ainda maior no momento em que a economia se mostrou mais fraca que o esperado.

Apesar de avaliar que as políticas de Obama evitaram o pior, o professor White considera que o presidente se mostrou “passivo demais”, evitando uma abordagem em longo prazo – e mais arriscada politicamente – sobre questões como cortes de gastos e impostos. “Ele não mostrou liderança suficiente, não pressionou o bastante, não usou o poder da presidência como poderia”, afirmou.

Shapiro concorda que o cenário seria pior sem as ações de Obama, mas considera a questão “irrelevante” para a eleição. “A única coisa que importa é o que acontecerá com a economia nos próximos dez meses, porque as pessoas usam as informações mais recentes para fazer previsões para o futuro, seja em curto ou longo prazo”, afirmou. “A pergunta para os líderes políticos é: ‘O que você tem feito ultimamente?’”

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