Líder de facção islâmica desafia presidente da Nigéria em vídeo

Abubakar Shekau critica Goodluck Jonathan e sugere que o Boko Haram tem mais apoio do que as autoridades imaginam

iG São Paulo |

O líder de um grupo radical islâmico desafiou a autoridade do presidente da Nigéria, Goodluck Jonathan, em um vídeo divulgado online, prometendo novos ataques em um país cada vez mais dominado por conflitos e dividido pela religião.

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AP
Imagem reproduzida de vídeo publicado por simpatizantes do Boko Haram mostra o líder Abubakar Shekau

O vídeo do imã Abubakar Shekau solidifica sua liderança do grupo conhecido como Boko Haram. Analistas e diplomatas dizem que a seita se dividiu nos últimos tempos, mas um grupo dissidente provoca assassinatos e atentados usando seu nome.

O grupo também tem tirado proveito da crescente desconfiança que os muçulmanos do norte sentem em relação ao fraco governo federal, liderado por um presidente cristão, cujas decisões provocaram uma greve nacional , marcada por protestos e violência.

Goodluck Jonathan decidiu retirar os subsídios que mantinham os preços dos combustíveis altos, provocando a revolta da população, cuja maioria vive com menos de US$ 2 por dia.

"No final, eles dizem que deviam nos matar. Eles nos matam. Eles queimam nossas casas. Eles queimam nossas mesquitas", disse Shekau no dialeto Hausa, próprio do norte da Nigéria.

Boko Haram, que significa "educação ocidental é um sacrilégio", realizou ataques no nordeste da Nigéria e em sua capital, deixando mais de 500 mortos somente no ano passado, segundo uma contagem feita pela agência Associated Press. O governo também culpa o grupo por deixar 63 mortos na semana passada.

Shekau controla o grupo desde que uma repressão a uma manifestação em julho de 2009 matou o líder do Boko Haram entre outras 700 pessoas. A polícia, inicialmente, dissera ter matado Shekau na mesma ocasião, mas no ano passado, o grupo registrou mensagens gravadas em áudio e vídeo pouco antes de o Boko Haram ter iniciado sua campanha de violência.

No vídeo de 15 minutos publicado no YouTube na terça-feira, Shekau pareceu relaxado, usando um colete camuflado à prova de balas e sentado entre dois rifles. Ele criticou Goodluck Jonathan por falar sobre o Boko Haram e sugeriu que o grupo tem muito mais apoio popular norte nigeriano do que as autoridades imaginavam.

"Todas essas coisas que vocês estão vendo acontecer, é Alá que tem feito, porque vocês se recusam a acreditar nele e vocês se utilizam mal de sua religião", disse Shekau. "Você (Goodluck Jonathan) pode encontrar outras pessoas que pensam que o que nós estamos fazendo é bom."

Shakau também recitou uma lista de regiões onde muçulmanos foram mortos por conta da violência pela Nigéria. "As pessoas estão falando sobre nós, que somos uma doença, um câncer, ao povo da Nigéria", disse. "Mas nós não somos um câncer, nós não somos uma doença. E nós não somos pessoas cruéis com maus costumes. Se as pessoas não nos conhece, Alá nos conhece."

Os ataques do Boko Haram se tornaram muito mais sofisticados com o passar do tempo, incluindo o uso de carros-bomba e suicidas. A facção reivindica a responsabilidade pelo ataque em agosto contra a sede da ONU na Nigéria que matou 25 pessoas e feriu mais de 100.

O grupo também realizou os ataques contra igrejas católicas que deixaram mais de 40 mortos no dia de Natal. O governo americano acredita que o Boko Haram mantém contato com dois grupos terroristas africanos inspirados na Al-Qaeda. O vídeo de Shekau sugere essa influência, pois copia o estilo das mensagens deixadas por grupos terroristas.

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Muçulmanos e cristãos, em sua maioria, vivem em paz, fazem negócios e se casam entre si na Nigéria. Porém a tensão do Boko Haram tem provocado ataques a mesquitas nas últimas semanas. Na terça-feira, uma multidão enfurecida atacou uma mesquita e uma escola no sul da Nigéria, deixando ao menos cinco mortos.

Grupos muçulmanos também denunciam a violência do Boko Haram, embora muitos no norte permaneçam insatisfeitos com as altas taxas de desemprego e pobreza na região, enquanto políticos desviam bilhões de dólares das receitas petrolíferas do país.

Ameaça

Nesta quarta-feira, em meio ao terceiro dia de greve nacional na Nigéria por conta do aumento do preço da gasolina, funcionários do setor do petróleo ameaçaram parar a produção.

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Com o governo e os sindicatos em um impasse, o maior sindicato de petróleo disse que tomaria uma decisão ainda nesta quarta-feira, embora autoridades do setor duvidem que isso possa parar completamente as exportações do combustível.

"Não estamos nas ruas hoje porque até a noite... a liderança nacional dos trabalhadores de petróleo anunciará sua decisão sobre quando a produção vai parar, assim como os terminais de exportação", disse à Reuters Chika Onuegbu, funcionário encarregado da relação industrial nacional do sindicato PENGASSAN.

Uma decisão definitiva de entrar em greve ainda precisa ser tomada, mas ele acrescentou: "isso vai marcar o início da próxima fase do protesto contra a retirada do subsídio de gasolina e vai ser muito desastroso para o país".

A Nigéria exporta mais de 2 milhões de barris de petróleo bruto por dia e é um importante fornecedor dos Estados Unidos e da Europa. A produção até agora não foi afetada, mas temores sobre o fornecimento nigeriano podem levar a um aumento no preço do petróleo mundial.

Autoridades do setor disseram que uma paralisação total das exportações de petróleo era improvável porque o processo é automatizado e alguns trabalhadores não são sindicalizados. No entanto, mesmo um pequeno golpe sobre a produção aumentaria a pressão sobre o governo de Goodluck Jonatahn, que depende das exportações de petróleo para 95% das receitas em divisas estrangeiras e para a maior parte da receita estatal.

Com AP e Reuters

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