Em 2012, pior rival de Obama é seu próprio governo

Presidente dos EUA precisa melhorar economia e sua popularidade para evitar que democratas percam poder para rivais republicanos

Carolina Cimenti, de Nova York |

Getty Images
Obama após pronunciamento em Nova York em abril de 2011. Para ser reeleito, presidente dos EUA terá de combater índices de desemprego
O próprio Barack Obama afirmou no início de 2010: “Prefiro ser um presidente excelente por um só mandato, que um presidente medíocre por dois.” Enquanto a disputa começa na terça-feira 3 de janeiro com o caucus em Iowa para terminar na eleição presidencial em 6 de novembro, o que era para ser uma frase de efeito pode acabar se transformando em uma profecia. A pergunta não sai das cabeças e das manchetes americanas. Será Obama capaz de conquistar a reeleição?

Saiba mais: Veja o especial eleições nos EUA 2012

Segundo a analista política Jennifer Duffy, que escreve para o boletim apartidário online The Cook Political Report, não. Ela diz que as eleições que envolvem um presidente ainda no cargo nunca são exclusivamente sobre os futuros desafios do país. Elas se transformam em um referendo em relação aos primeiros quatro anos de governo. “Os democratas não criaram a atual crise econômica, mas poderão acabar pagando por ela nas próximas eleições”, afirmou.

Outro motivo para duvidar da reeleição é a história americana. Ela demonstra que presidentes que entram em um ano eleitoral com o país sob graves problemas econômicos e altos índices de desemprego não costumam ter muitas chances. George H. W. Bush (1989-1993), Jimmy Carter (1977-1981), Gerald Ford (1974-1977) e Herbert Hoover (1929-1933) são alguns exemplos de ex-presidentes que perderam a segunda eleição por causa da economia.

Leia também: Saiba quais presidentes dos EUA tiveram um único mandato

Stephen Zunes, professor de política da Universidade de São Francisco, discorda da análise de Jennifer Duffy. Segundo ele, Obama pode sim conquistar um segundo mandato porque a oposição está enfraquecida. “O Partido Republicano vive uma crise profunda e está totalmente dividido. Para complicar ainda mais, ainda não encontraram um candidato carismático e competente para competir com Obama. Sem uma alternativa certeira, os eleitores acabarão votando pelo atual presidente”, disse.

Outra vantagem de Obama é o fato de que, além de ser extremamente carismático, domina perfeitamente as técnicas de comunicação. Até mesmo o ex-estrategista e diretor da campanha do republicano John McCain contra Obama em 2008, Steve Schmidt, admite que o talento comunicativo do atual presidente é difícil de superar.

“Obama teve uma atuação simplesmente perfeita na campanha de 2008. Ele criou uma atmosfera que conquistou os eleitores relembrando nitidamente a campanha inacabada de Bobby Kennedy”, afirmou Schmidt ao iG , referindo-se ao democrata que foi morto em 1968 enquanto disputava a candidatura do partido para as eleições presidenciais. Como era extremamente popular, acredita-se que Bobby teria sido eleito se não tivesse sido assassinado.

De acordo os analistas, as chances de Obama obter um segundo mandato dependem de três fatores: sua popularidade com os eleitores, o desempenho da economia nos próximos meses e qual será seu rival entre os republicanos.

Popularidade

Durante as primeiras semanas de novembro, a popularidade de Obama oscilou entre 40% e 46% em diversas pesquisas. Em dezembro, porém, ela voltou a crescer e pela primeira vez desde julho superou o índice de reprovação em uma pesquisa Gallup. Tradicionalmente nos EUA, presidentes sem ao menos 50% de aprovação um ano antes da eleição têm mais dificuldades para conseguir um novo mandato (apesar de um alto grau de aprovação não determinar necessariamente uma vitória, como se pode observar no caso de Bush pai e Richard Nixon – 1969-1974). Veja a tabela com dados do New York Times:

O peso da popularidade na continuidade do partido governista nos EUA
Ano
Presidente (*ou candidato do mesmo partido)
Candidato da oposição
Popularidade antes da eleição
Resultado das eleições
1944
    Roosevelt (democrata)
Dewey
66%
Vitória
1948
    Truman (democrata)
Dewey
54%
Vitória
1952
    Stevenson* (democrata)
Eisenhower
23%
Derrota
1956
    Eisenhower (republicano)
Stevenson
78%
Vitória
1960
    Nixon* (republicano)
Kennedy
65%
Derrota
1964
    Johnson (democrata)
Goldwater
58%
Vitória
1968
    Humphrey* (democrata)
Nixon
41%
Derrota
1972
    Nixon (republicano)
McGovern
49%
Vitória
1976
    Ford (republicano)
Carter
44%
Derrota
1980
    Carter (democrata)
Reagan
32%
Derrota
1984
    Reagan (republicano)
Mondale
51%
Vitória
1988
    G. Bush* (republicano)
Dukakis
51%
Vitória
1992
    G. Bush (republicano)
Clinton
59%
Derrota
1996
    Clinton (democrata)
Dole
52%
Vitória
2000
    Gore* (democrata)
G. W. Bush
58%
Derrota
2004
    G. W. Bush (republicano)
Kerry
54%
Vitória
2008
    McCain* (democrata)
Obama
31%
Derrota

Desempenho econômico

A economia é o grande mistério das eleições de 2012. As perspectivas não são das melhores, afinal a  crise econômica (e política) na Europa tende a atrapalhar o crescimento econômico global, afetando os EUA – e, consequentemente, Obama.

Os analistas, porém, acreditam que, se a economia americana tiver um crescimento de 3% ou 4% em 2012, estimulando minimamente a criação de empregos, o atual presidente terá o dobro de chances das atuais. “A economia é crucial, mas os eleitores têm memória curta. Se nos próximos meses o problema diminuir, o governo Obama parecerá um sucesso, e as pessoas não lembrarão quão longa foi a recessão”, afirmou Zunes.

Mas é muito difícil prever o que pode estimular rapidamente o crescimento econômico. Mesmo os mais otimistas não apostam em um crescimento de mais de 2,5% do Produto Interno Bruto (PIB) neste ano. No final do ano passado, um painel de economistas entrevistados pelo Wall Street Journal previu um crescimento não superior a 2,3%. Se concretizado, será uma boa notícia, mas talvez não o suficiente para estimular a quantidade de empregos necessária para eleger Obama tranquilamente.

“Nesse cenário, muito provavelmente teremos uma eleição em que cada voto conta, mais ou menos como a de 2000, quando George W. Bush (2001-2009) venceu Al Gore por menos de 1% de diferença”, relembrou Jennifer, do Cook Political Report,.

O candidato republicano

Quanto mais parecido com Obama, mais difícil será para o presidente vencer o candidato republicano. Quanto mais radical ele for, mais chances de o presidente atrair a maioria dos votos dos indecisos e ser reeleito.

Ou seja, se o candidato escolhido para concorrer contra Obama for um representante ativo do Tea Party (braço mais conservador e radical do Partido Republicano), como Michele Bachmann ou Rick Perry , acredita-se que menos eleitores de centro-direita votarão neles.

Caso o escolhido seja Mitt Romney , Obama terá uma dor de cabeça maior para remediar. Romney é um candidato que potencialmente pode agradar a eleitores de centro-direita e centro-esquerda, sendo um dos preferidos atualmente pelos independentes (aqueles que não se consideram republicanos nem democratas). Nas eleições anteriores, os independentes apoiaram Obama em peso. Dessa vez, eles tendem a se dividir ou votar contra o presidente, a não ser que o candidato da oposição seja muito radical.

Uma pesquisa do Instituto Pew feita na segunda semana de novembro demonstrou que, entre todos os eleitores do país, uma eleição entre Obama e Romney hoje resultaria em 49% dos votos para Obama e 47% para Romney. No entanto, a pesquisa que levou em conta somente os votos dos independentes mostra uma vantagem maior para o republicano. Nesse caso, Obama ficaria com 41% dos votos, enquanto Romney obteria 53%.

Senado e Câmara

No dia da eleição presidencial, em 6 de novembro, os eleitores também votarão para eleger 33 dos 100 senadores e para renovar todas as cadeiras da Câmara dos Representantes.

Na votação legislativa de outubro de 2010 – chamada nos EUA de Eleições de Meio de Mandato por ocorrer na metade do período para o qual um presidente foi eleito –, os democratas perderam o controle da Câmara e mantiveram o do Senado , mas com uma maioria mais estreita. Essa derrota relativa representou um forte alerta para o presidente Obama, apontando a necessidade de negociar cada reforma e cada gasto público com a oposição.

A perda, porém, não significa necessariamente o fim da candidatura democrata. Em 1994, depois que Bill Clinton (1993-2001) apresentou a reforma do sistema de saúde à Câmara dos Representantes e não conseguiu aprová-la durante seu primeiro mandato, os republicanos retomaram o controle do Congresso. Apesar disso, dois anos mais tarde, Clinton foi reeleito com uma vitória tranquila.

Por outro lado, se os republicanos não ganharem a presidência, mas conseguirem dominar as duas Casas - o Senado e a Câmara -, um eventual novo mandato de Obama poderá ser ainda mais difícil, exigindo negociações políticas ainda mais complexas que as atuais.

“Essa seria a receita mais arriscada para combater um período de profunda crise econômica e o aumento abissal da diferença das classes sociais no país. Um Congresso completamente de oposição amarraria as mãos e os pés do presidente, congelando a economia junto”, completou Zunes.

    Leia tudo sobre: eleição nos euaobamaeuarepublicanosromneyperrybachmanneua

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG