“Vidas Secas”, o sertão brasileiro na ótica de Graciliano Ramos

Romance trata das raízes da opressão no campo brasileiro e se mantém atual nos dias de hoje

Marina Morena Costa, iG São Paulo

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A saga de uma família nordestina em “Vidas Secas”, de Graciliano Ramos, começa com uma cena árida: a mãe lambe o focinho sujo de sangue da cadela de estimação. Baleia havia matado um preá, único alimento disponível, e Sinhá Vitória não podia desperdiçar nenhuma gota do animal.

“A obra trata das raízes da opressão no campo brasileiro. Graciliano cria personagens com características do opressor e do oprimido”, afirma Belmira Rita da Costa Magalhães, professora da Universidade Federal de Alagoas (UFA) e autora de uma tese de doutorado sobre “Vidas Secas” e a construção autoral do escritor alagoano.

Foto: AE

Graciliano Ramos em sua escrivaninha

Para compreender “Vidas Secas” é fundamental conhecer o Brasil, avisa a especialista. Na obra, o autor mostra como se dão as relações de poder, como se forma “aquele que não pode responder, que não pode fazer contas” e, do outro lado, “aquele que dita as regras, que manda embora”. “Graciliano foca no Nordeste, onde as relações do campo são mais brutais, grosseiras. Mas os conflitos presentes no livro estão também em outros tipos de relação e até mesmo nas cidades”, avalia Belmira.

A análise de “Vidas Secas” da pesquisadora destaca o papel feminino na trama. Sinhá Vitória quer uma vida melhor, e é por causa de seus sonhos que a família avança e conquista condições melhores. “Ela quer uma vida melhor e expressa isso no desejo de ter uma cama, onde ela possa deitar e não sentir dor. Sinhá Vitória impulsiona o romance pra frente.”

A família se instala numa fazenda – onde Graciliano explora as relações sociais e de trabalho – e os desejos aumentam. Sinhá Vitória passa querer outras coisas, como um lampião, um vestido florido, um guarda-chuva, um sapato de salto alto para ir à cidade. Itens menos essenciais e ao mesmo tempo extremamente simples, que evidenciam as condições precárias da família.

Feminino

“Graciliano mostra que os seres humanos são capazes de se transformar”, enfatiza Belmira. No primeiro capítulo, não há falas. Os personagens apenas emitem sons, como animais. No entanto, com o desenrolar da trama, passam a conversar, até que no último capítulo há um diálogo entre eles. E os sonhos ficam cada vez maiores: como colocar os filhos na escola. “Esse caminho da transformação do ser humano é mostrado belamente em ‘Vidas Secas’ e sempre impulsionado pela mulher”

Para Belmira, o fio condutor da transformação não poderia ser o masculino, o personagem Fabiano, pois seria inverossímil. “É ela quem calcula quanto Fabiano deve receber do patrão, mas é ele quem vai cobrar. A história se passa no campo, profundamente atrasado, onde a mulher não pode agir. Mas no romance ela conduz.”

Atual

“Quando vemos as relações no campo hoje – a discussão sobre a reforma agrária, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), a preocupação e a necessidade de alimentar a população e as cidades –, o romance é atualíssimo”, destaca Belmira.

A professora diz que “os meninos” não gostam muito de ler “Vidas Secas” hoje em dia: “Mas é porque os professores não trabalham todas essas coisas em sala de aula”.
 

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