USP Leste: alunos e docentes reclamam de fechamento de vagas

Conclusão de grupo de trabalho que revisou cursos da unidade sugere o corte de até 330 das 1.020 vagas atuais da unidade

Cinthia Rodrigues, iG São Paulo | 18/03/2011 17:38 - Atualizada às 20:39

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Alunos e professores do campus Leste da Universidade de São Paulo (USP) foram surpreendidos pela notícia de que 330 das 1.020 vagas da Escola de Artes, Ciências e Humanidades (Each) podem ser fechadas. Conforme o iG antecipou na quinta-feira, um grupo de trabalho que revisou os cursos sugere redução de alunos em todas as áreas.

O relatório é a conclusão de um trabalho iniciado em junho de 2010 e realizado pelo ex-reitor da universidade Adolpho José Melfi, além de professores da unidade e de outros departamentos da instituição. Na tarde desta sexta-feira, a direção da unidade enviou por email a todos os alunos e professores cópia do relatório com uma mensagem da direção.

Segundo o boletim online, o grupo se reuniu 11 vezes antes de concluir a sugestão do fechamento de pelo menos 10 vagas em cada curso, até 80 em alguns casos e a fusão em outro (veja tabela abaixo). Embora no relatório, a ênfase seja a redução de vagas para aumentar a concorrência e a qualidade dos estudantes, a mensagem da diretoria enfoca a falta de espaço físico para atender aos cursos atuais e diz que a proposta ainda será debatida. “Este relatório será debatido primeiramente entre Comissão de Graduação, os Coordenadores de Curso e a Direção”, diz a edição especial do boletim “Direto da Direção”.

O informativo dá especial atenção ao curso de Obstetrícia, que segundo sugestão do relatório, passaria a fazer parte de Enfermagem, que fica em Pinheiros. “A Each não se furtará em promover novos ajustes na estrutura curricular do curso de Obstetrícia e poderá, ouvindo o conjunto de sugestões pertinentes, adequar algumas disciplinas de modo a contemplar o estudo do ser humano com conteúdos gerais, mais próximos aos cursos de enfermagem tradicionais, o que poderá levar à mudança na sua denominação”, diz o comunicado do diretor José Boueri.

Protesto e perplexidade

Professores da USP Leste contam que souberam da proposta de corte de vagas pelo iG. “Estamos perplexos”, diz a professora Jaqueline Brigagão, de Obstetrícia. Segundo ela, os alunos leram a reportagem e cobraram respostas desde a primeira aula da manhã desta sexta, mas apenas alguns dos docentes haviam recebido o relatório na noite anterior. “Não pudemos ler e debater nada ainda, não concordamos com esta visão baseada na demanda do curso e queremos frisar a importância da carreira para humanizar o parto no Brasil, como acontece nos países mais desenvolvidos do mundo”, afirmou.

Thomás Haddad, coordenador do curso de Licenciatura em Ciências Naturais, que pode perder 80 das atuais 120 vagas e passar a funcionar apenas em um período, disse que haverá uma reunião na próxima semana para definir o posicionamento dos professores. “O que posso lhe adiantar é que a maioria dos colegas que já se manifestaram considera o corte grande demais, especialmente a supressão de todo o período matutino do curso.”

Estudantes e ex-alunos fizeram uma manifestação contra a conclusão que pede o fechamento das vagas. Segundo o membro da Associação de Obstetrízes da USP e ex-aluno do curso, Marcel Robledo Queiroz, em reunião com os docentes foram encontrados erros no documento. “O que eles sugerem de mudanças nas disciplinas já existe, não sei de onde tiraram algumas informações.”

A direção da Each enviou um comunicado oficial em que explica por que o grupo foi montado e diz que a instituição "Não pode se furtar de suas responsabilidades".  Leia íntegra aqui.
 

Cursos existentes vagas atuais corte de vagas como ficaria
Ciências da Atividade Física 60 30 30
Gestão Ambiental 120 40 80
Gerontologia 60 10 50
Gestão de Políticas Públicas 120 20 100
Licenciamento de Ciências da Natureza 120 80 40
Lazer e Turismo 120 20 100*
Marketing 120 20 100
Obstetrícia 60 60 0**
Sistema de Informação 180 30 150
Têxtil e Moda 60 20 40
Total 1.020 330 690
                                  Novos cursos      
Mídias Digitais     30
Design de Serviços     30

** curso se fundiria com o de enfermagem; *se a baixa procura persistir, uma turma seria extinta e mais 50 vagas seriam cortadas; 

 

 

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    68 Comentários |

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    • Luana Cristina | 24/03/2011 01:32

      Sou aluna da EACH, e só para esclarecer alguns comentario "desnecessarios", a unidade é nova, todos os cursos estão em contrução, não adianta querer compara com a unidade do butanta, que ja tem 75 anos, e ainda sofre algumas alterações, e fechamento de cursos(como o de licenciatura em Geociencias).
      e se o curso de obstetricia, ja teve na USP, fechou e reabriu,é por que necessita de profissionais qualificados na area!

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    • samuel | 21/03/2011 19:41

      Sou aluno da EACH(USP Leste), e o que está ocorrendo é um desrespeito com a saúde da mulher e da educação brasileira em que todos os cursos da EACH estão juntos contra esse tipo de vetação. Esses cortes só comprovam que a educação é apenas um jogo de negócios, pois esses cursos são de alto custo para a universidade, porém são também cursos que garantem e melhoram a base de uma sociedade desenvolvida. Cursos que deveriam estar sendo divulgados para o incentivo da sua procura, estão sendo extintos. É como disem: quando se descobre a febre é mais fácil quebrar o termometro do que tratar da patologia.

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    • RAFAEL | 21/03/2011 18:00

      Acredito que se a desculpa é que estão adequando os cursos as demandas, vamos fechar todos os cursos e abrir somente salas de medicina, direito e administração que são os cursos com maior demanda.

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    • Felipe | 20/03/2011 22:06

      O rompimento com o sistema vigente é justamente a manutenção deste curso; que tem trazido uma proposta nova ao sistema de saúde, portanto o fechamento do curso de obstetrícia é que caracteriza-se por um ato retrógrado, que visa a manutenção de instituições ultrapassadas e fechadas para inovações que beneficiariam a população.

      O que se propõe não é a criação de um curso que venha a satisfazer uma necessidade do mercado (que se verificaria pela oferta de empregos), mas sim a satisfação de uma carência da sociedade (neste caso a humanização do parto); visando inclusive atualizar as instituições tradicionais PARTINDO-SE da Universidade.

      É quando a Universidade influencia e modifica a sociedade pra melhor que se constata sua grandeza. E é isso que faz da USP o que ela é, não o rigor do seu processo seletivo ou a empregabilidade de seus egressos.

      Atualmente estudo na FFLCH, mas sou ex-aluno da ESALQ e inclusive da EACH, e mais uma vez: compreendo que não deveríamos julgar a qualidade da nossa Universidade pelo quanto é difícil conseguir uma vaga, mas sim pela qualidade no ensino, infra-estrutura e docentes; relacionados à atividade e eficiência do tão citado "tripé": Ensino, pesquisa e extensão.

      Creio que um dos objetivos principais da Universidade pública é o acesso universal, e consequentemente a emancipação da sociedade através de educação de qualidade PARA TODOS; não a criação e manutenção de uma elite intelectual cada vez mais afastada dos problemas sociais que atingem todos nós.

      Diminuir vagas é uma vergonha; Ensino público superior de qualidade para TODOS, essa é que deve ser a meta.

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    • Godot | 20/03/2011 19:53

      Considero acertada a sugestão do grupo de trabalho. Vários dos cursos instalados na EACH são equivocados, para dizer o mínimo. Obstetrícia, por exemplo, começou sem aulas de anatomia na grade! É absolutamente inconcebível que se formem profissionais que defendam partos naturais com uma grade como a que tinham. Na escola de enfermagem estarão certamente em mãos mais seguras. O curso de Licenciatura é outra bizarrice. A proposta inicial era de um Bacharelado e Licenciatura em Ciências, por razões políticas virou o que virou: a menor de todas as notas de corte. Diminuindo-se as vagas teremos alunos de melhor qualidade, as vagas ociosas ou ocupadas por alunos sem condições poderiam ser alocadas em cursos novos melhor ocupados. Recursos publicos tem que ser empregados com responsabilidade. Os problemas da EACH, no entanto, não param por ai: há um esqueleto no armário conhecido como "Ciclo Básico", cheio de problemas, promovendo um tipo de visão acadêmica muito frágil e pouco produtiva.

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    • Paulo Gonçalves | 20/03/2011 11:02

      O governo de São Paulo optou por reduzir vagas e extinguir cursos quando poderia investir mais na USP Leste e usar o prestígio do nome USP para fundar e estabelecer novos cursos. A demanda por novas especialidades é natural em uma sociedade que evolui econômica, social e cientificamente e deveria ser defendida pelas universidades.

      A baixa concorrência do vestibular não deveria ser um problema se o ensino básico fosse levado a sério. Um vestibular "difícil" pode gerar prestígio mas não é necessariamente garantia de qualidade.

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    • Leandro Puskas | 20/03/2011 10:02

      Se continuarmos a usar a desculpa de que é preciso adequar a USP a demanda de cursos que a sociedade exige, então acabaremos por suprimir uma grande parte de cursos de humanas por cursos de viés mais técnicos. Isso é o mesmo que reduzir as possibilidades de transformação da sociedade pelo ensino publico superior... o que no fundo seria ideal para a atual política neoliberal.

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    • HUDSON | 19/03/2011 20:26

      É triste tomar conhecimento do anúncio de redução de vagas e fechamento de cursos na EACH-USP. Afinal, o que essa atitude pretende promover na educação brasileira?? Reduzir vagas significa favorecer a menor possibilidade de ingresso de jovens nas universidades. Fechar cursos é limitar propostas inovadoras, dando permanência a triste realidade brasileira, particularmente no contexto da saúde. Contudo, infelizmente o poder dessas decisões, na maior parte das vezes, fica nas mãos de pessoas que em detrimento de fortalecimento pessoal, deixa de lado questões como responsabilidade com a educação, saúde e justiça social. Fechar à obstetrícia e agregá-la ao curso de enfermagem será a solução? Se fosse, não estaríamos vivenciando alarmantes demanda de melhoria no contexto do parto e nascimento no Brasil. As/Os Obstetrizes ao entrarem no cenário saúde possuem condições de agregar valor e qualidade na assistência a mulher durante a fase perinatal. Realidade que já é constata em países como Holanda, Inglaterra e Austrália.
      Então, o que sugiro aos críticos (marionetes do sistema atual) é que procurem se familiarizar com a proposta de cada curso, antes de tecer críticas sem fundamentos.

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    • Beatriz | 19/03/2011 15:16

      Sou do terceiro ano da Graduação de Obstetrícia e posso afirmar com toda a certeza que é unânime a posição de professores e alunos contra as propostas do relatório Melfi. Apesar de todas as dificuldades que enfrentamos não medimos esforços em reorganizar e adequar o que for preciso para mantermos a Graduação de Obstetrícia.
      As pessoas que pensam que o curso é irrelevante e deve ser fundido a Enfermagem são aquelas que se conformam com o cenário atual do país, porque nos países de primeiro mundo são as Obstetrizes ou Midwife, além dos profissionais tradicionais, que conduzem o parto normal. Sim, porque quem é o protagonista no parto é a mulher, nós profissionais auxiliamos para que esse momento seja o melhor possível para o binômio mãe-bebê.
      O curso já existiu há 34 anos atrás, foi fundido a enfermagem e depois passou a ser pós-graduação, e hoje sabemos que esta conduta não supriu as necessidades da Saúde da Mulher, conforme a OMS. Por isso o curso foi reaberto e corre o risco de passar pelos mesmos acontecimentos passados. Temos que renovar, crescer e não continuar a dar “Murro em ponta de faca”!
      Ajudem-nos, por favor, contra a decisão de fechamento do curso, abracem como um compromisso social!!!

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    • plister | 19/03/2011 13:21

      É assim a realidade das universidades estatais. A concorrência por conta da gratuidade e suposta qualidade do curso é a garantia de sucesso. Os professores e funcionarios estatais vivem no pleno gozo dos seus direitos estatutários e trabalham menos do que qualquer funcionario e professor da iniciativa privada.

      O aluno cursa sozinho e de forma autônoma pois já conseguiu superar 50 , 100 ou mais concorrentes e obviamente conseguirá também superar tal concorrência no mercado de trabalho

      Sem falar na absoluta falta de fiscalização , MEC, etc nunca aparecem para ver nada

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