Ensino médio: a pior etapa da educação do Brasil

Série especial do iG mostra por que os adolescentes perdem interesse pela escola, acabam desistindo ou não aprendem o que deveriam

Cinthia Rodrigues, iG São Paulo | 21/02/2011 07:00

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Há duas avaliações possíveis em relação à educação brasileira em geral. Pode-se ressaltar os problemas apontados nos testes nacionais e a má colocação do País nos principais rankings internacionais ou olhar pelo lado positivo, de que o acesso à escola está perto da universalização e a comparação de índices de qualidade dos últimos anos aponta uma trajetória de melhora. Já sobre o ensino médio, não há opção: os dados de abandono são alarmantes e não há avanço na qualidade na última década. Para entender por que a maioria dos jovens brasileiros entra nesta etapa escolar, mas apenas metade permanece até o fim e uma pequena minoria realmente aprende o que deveria, o iG Educação apresenta esta semana  uma série de reportagens sobre o fracasso do ensino médio.

O problema é antigo, mas torna-se mais grave e urgente. As tecnologias reduziram os postos de trabalho mecânicos e aumentaram a exigência mínima intelectual para os empregos. A chance de um jovem sem ensino médio ser excluído na sociedade atual é muito maior do que há uma década, por exemplo. “Meus pais só fizeram até a 5ª série, mas eram profissionais bem colocados no mercado. Hoje teriam pouquíssimas e péssimas chances”, resume Wanda Engel, superintendente do Instituto Unibanco, voltado para pesquisas educacionais.

Continuação da série:
Por que o adolescente perde o interesse pela escola?
O que significa a má qualidade indicada nos índices?
Falta o mínimo: professores qualificados
Iniciativas que podem mudar este quadro

Ao mesmo tempo, a abundância de jovens no País está com tempo contado, segundo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE). O Brasil entrou em um momento único na história de cada País em que há mais adultos do que crianças e idosos. Os especialistas chamam o fenômeno de bônus demográfico, pelo benefício que traz para a economia. Para os educadores, isso significa que daqui para frente haverá menos crianças e adolescentes para educar.

“É agora ou nunca”, diz a doutoranda em Educação e presidente do Centro de Estudos e Memória da Juventude, Fabiana Costa. “A fase do ensino médio é crucial para ganhar ou perder a geração. Ali são apresentadas várias experiências aos adolescentes. Ele pode se tornar um ótimo cidadão pelas décadas de vida produtiva que tem pela frente ou cair na marginalidade”, afirma.

História desfavorável
O problema do ensino médio é mais grave do que o do fundamental porque até pouco tempo – e para muitos até agora – a etapa não era vista como essencial. A média de escolaridade dos adultos no Brasil ainda é de 7,8 anos e só em 2009 a constituição foi alterada para tornar obrigatórios 14 anos de estudo, somando aos nove do ensino fundamental, dois do infantil e três do médio. O prazo para a universalização dessa obrigatoriedade é 2016.

Por isso, governo, ONGs e acadêmicos ainda concentram os esforços nas crianças. A expectativa era de que os pequenos bem formados fizessem uma escola melhor quando chegassem à adolescência, mas a melhoria no fundamental não tem se refletido no médio.

Para o coordenador da Campanha Nacional pelo Direito à Educação, Daniel Cara, a questão envolve dinheiro. Quando o Fundo de Manutenção e Desenvolvimento do Ensino Fundamental (Fundef) foi criado, em 1996, repassava a Estados e municípios verba conforme o número de matrículas só naquela etapa. “O dinheiro não era suficiente para investir em tudo e foi preciso escolher alguma coisa”, diz o especialista.

A correção foi feita em 2007, quando o “F “da sigla foi trocado por um “B”, de Educação Básica, e os repasses de verba passaram a valer também para o ensino médio. “Só que aí, as escolas para este público já estavam sucateadas”, lamenta Cara.

A diferença é percebida pelos estudantes. Douglas Henrique da Silva, de 16 anos, estudava na municipal Guiomar Cabral, em Pirituba, zona oeste de São Paulo, até o ano passado quando se formou no 9º ano. Conta que frequentava a sala de informática uma vez por semana e o laboratório de ciências pelo menos uma vez por mês.

Foto: Amana Salles/Fotoarena

À esquerda, escola municipal Guiomar Cabral e, em frente, a estadual Cândido Gomide em São Paulo: diferença que pode ser percebida por quem passa é maior para quem estuda


Em 2010, no 1º ano do ensino médio, conseguiu vaga na escola estadual Cândido Gomide, que fica exatamente em frente à anterior. Só pelos muros de uma e outra, qualquer pessoa que passa por ali já pode notar alguma diferença de estrutura, mas os colegas veteranos de Douglas contam que ele vai perceber na prática uma mudança maior.

“Aqui nunca usam os computadores e não tem laboratório de ciências”, afirma Wilton Garrido Medeiros, de 19 anos, que também estranhou a perda de equipamentos quando saiu de uma escola municipal de Guarulhos, onde estudou até 2009. Agora começa o 2º ano na estadual de Pirituba, desanimado: “Lá também tinha mais professor, aqui muitos faltam e ninguém se dedica.”

Até a disponibilidade de indicadores de qualidade do ensino médio é precária. Enquanto todos os alunos do fundamental são avaliados individualmente pela Prova Brasil desde 2005, o ensino médio continua sendo avaliado por amostragem, o que impossibilita a implantação e o acompanhamento de metas por escola e aluno e um bom planejamento do aprendizado.

A amostra, no entanto, é suficiente para produzir o Índice da Educação Básica (Ideb), em que a etapa é a que tem pior conceito das avaliadas pelo Ministério da Educação. Foi assim desde a primeira edição em 2005, quando o ensino médio ficou com nota 3,4; a 8ª série, 3,5; e a 4ª série, 3,8; em uma escala de zero a 10. Se no ensino fundamental ocorreu uma melhora e em 2009 o conceito subiu, respectivamente, para 4 e 4,6, os adolescentes do ensino médio não conseguiram passar de 3,6.

“A etapa falha na escolha do conteúdo, que não é atrativo para o estudante, e também não consegue êxito no ensino do que se propõe a ensinar”, diz Mateus Prado, presidente do Instituto Henfil e colunista do iG que escreverá artigos especialmente para esta série, que durante os próximos dias conduzirá o leitor a conhecer o tamanho do problema e refletir sobre possíveis soluções.

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    202 Comentários |

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    • Cidadao | 11/07/2011 16:54

      São Paulo,23/05/2011Educação brasileira colhe frutos amargos da Revolução Francesa--Rodrigo Amorim-José Antônio Ureta ressaltaCom a vitória do candidato socialista François Mitterrand,em 1981, houve uma tentativa de nacionalizar o ensino privado. Contudo, o projeto fracassou devido à oposição dos pais de família, que realizaram marcha com mais de 1 milhão de participantes, acarretando o abandono da reforma e a queda do ministro de Educação,Savary.Após esse resumo que descreve a história da educação francesa conforme seus acontecimentos políticos, nota-se que a atual educação brasileira é muito parecida com a francesa de 1981.Solução:Mobilizar o maior número de pais dispostos a combater o ensino marxista que deforma nossa História e as consciências de nossas crianças;Permitir outras formas de ensino.Por exemplo,o homeschooling.

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    • ozani | 29/06/2011 22:20

      Na minha opinião a má educação nas escolas publicas brasileiras!como foram citadas em outros comentários, não se deve ao fato dos professores julgarem ou desejarem uma boa remuneração:pois feliz é aquele que faz seu trabalho com o objetivo de contruir e ensinar tudo aquilo que apredeu da melhor forma possivel.entretato não posso deixar de comentar, que de fato, falta muitos profissionais com dedição em seu trabalho,talvés se os mesmos procura-se demostra mais enteresse quem sabe;assim despertaría interesse em nossos futuros proficionais.Os governos precisam trabalhar a educação,de uma maneira que despetem interresse tanto nos que ensinam como também naqueles que desejam aprender,e dificil sim,mas não custa tentar,não podemos em momento algum deixar que,sejamos visto como o país da pior educação,vamos juntos buscar as soluções para podemos assim nos fortalecer e crescer,ser sim um país,mas não um país com a fama que nos encontramos,e sim um país vitorioso,por ainda assim não desitir.\nTemos muito caminho a percorrer e diante desta caminhada muita coisa pode acontecer!\nEu sou estudante e terminei meu ensino médio e nem por isso deixei de lado minhas raizes que desde pequena me foram adiquiridas,acredito que a grande estratégia da educação está no enterresse de cada um de nós,por isso quero finalizar meu depoimento falando que desejo trabalhar na area da educação por que sei que posso ajuda muitos jovens a persistirem em busca de seu objetivos fazendo com eles sitam vontade de descobrirem coisas novas e ao mesmo tempo,vontade de crescer.\n\nAgradeço por poder opinar neste site sobre a educação.\n\nozani

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    • landerson brito | 25/02/2011 14:26

      Essa reportagem nao tem sentido.Como pode julgar a escola pelo muro.Tem que ver o conteudo;nao adianta uma escola ter muros pintados muros limpos;se o conteudo é ruim;nao falando que o guiomar cabral é ruim.Só uma pergunta quem da aula é os professores ou os muros??. Admiro muito os profissionais das escolas porque eles sao dedicados capazes sao compromissados. Tenho certeza que com 19 anos eles estava na faculdade e nao no ensino médio. Como um aluno pode falar que os professores nao se dedica feito que o aluno está no 2 ano do ensino médio?. Uma pergunta como uma pessoa compara escola por muros .Nunca julgue um livro pela capa. Oque nós comemos é a bolacha e nao o pacote.

      nada mais a dizer . (LANDERSON BRITO) GOMIDE

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      edivado | 02/03/2011 09:54

      Não concordo com o que vc disse.
      O julgamento não está sendo feito pelos muros, mas sim pela falta de laboratorios e projetos de acompanhado do governo aos alunos do ensino médio, como acontece no ensino fundamental.
      Acredito que se não houver um investimento por parte do governo a cada dia mais vamos ter que exportar mão de obras e ficar escadalizado com atitudes dos nossos cidadãos.

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    • landerson | 25/02/2011 00:11

      E.E PROF CÂNDIDO GONÇALVES GOMIDE. uma ótima unidade escolar.
      Com escelentes profissionais

      UMa pergunta. para o aluno que foi entrevistado. Quem da aula é os muros ou os professores?

      nada mais a dizer. ( LANDERSON BRITO

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    • Rogério | 24/02/2011 10:28

      QUERO DEIXAR AQUI SOMENTE UM COMENTÁRIO QUE POR SI PRÓPRIO RESPONDE A QUALQUER MATÉRIA OU QUALQUER FUNDAMENTO QUE SE POSSA FAZER A RESPEITO DA EDUCAÇÃO.


      ------------------------16 ANOS SEM AUMENTO-------------------------------------------------------------------

      NADA MAIS A DIZER.

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    • MariA Benedita | 24/02/2011 09:04

      Realmente o ensino esta um fracasso, a quantos anos o professor não tem aumento salarial e para completar o seu salario ele tem que trabalhar no estado e prefeitura . No estado ainda existe estas provas absurdas no final de ano e a sopa de letrinhas .Claro para garantir o professor tem que estudar prerar aula imagine o estres.
      Então a culpa é só do professor ? Mas como a corda sempre arrebenta para o lado mais fraco vamos assumir a culpa.
      Eu tive o prazer de saber que varios alunos da escola onde trabalho passou no ENEN e conseguiu bolsa 100%

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    • jose carlos | 24/02/2011 08:42

      Eu tambem sou professor , trabalho todos os dias, tenho o horário cheio, classes super lotadas e o tempo em que deveria estar descansando em casa preciso preparar aulas e corrigir trabalhos e provas. O meu salário não me permite nem sair nos fins de semana. O desrespeito e a violência dos alunos contra a escola e os docentes tem aumentado a cada ano e nem os pais e a diretoria tem conseguido mudar esse quadro. A pressão sobre os professores tem aumentado então esta cada vez mais difícil continuar nessa profissão. Os alunos roubam peças dos computadores, destroem a escola, alguns chegam drogados e criam confusão, já fui roubado algumas vezes dentro da escola, e até bombas caseiras já estouraram nos banheiros e sala de aula. No final sempre a culpa acaba sendo do professor que deveria ter evitado tudo isso. Estou desanimado.

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    • jose carlos | 24/02/2011 08:42

      Eu tambem sou professor , trabalho todos os dias, tenho o horário cheio, classes super lotadas e o tempo em que deveria estar descansando em casa preciso preparar aulas e corrigir trabalhos e provas. O meu salário não me permite nem sair nos fins de semana. O desrespeito e a violência dos alunos contra a escola e os docentes tem aumentado a cada ano e nem os pais e a diretoria tem conseguido mudar esse quadro. A pressão sobre os professores tem aumentado então esta cada vez mais difícil continuar nessa profissão. Os alunos roubam peças dos computadores, destroem a escola, alguns chegam drogados e criam confusão, já fui roubado algumas vezes dentro da escola, e até bombas caseiras já estouraram nos banheiros e sala de aula. No final sempre a culpa acaba sendo do professor que deveria ter evitado tudo isso. Estou desanimado.

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    • Marcia | 24/02/2011 08:32

      Sou docente da rede estadual do ensino médio noturno, fui docente da rede municipal por 15 anos. Falta tudo na educação brasileira. Mas isso tem interesse social. Agora não fiz faculdade de SARCEDÓCIO e sou responsável pela educação dos alunos. Temos um país com muitos direitos e poucos deveres. Professor sempre foi mal remunerado e sempre teve que se virar. Para mim são mesmo heróis, diante da realidade de todos os anos do sistema educacional brasileiro. Aplaudo as professoras do ensino fundamental. Essas são minhas heroínas. Com tudo de ruim ainda alfabetizam. Repito: que os políticos sejam obrigados a colocar seus filhos nas escolas públicas, e não nas do exterior e nas de elite do país. Quero ver se eles tem coragem de colocar seus filhotes nos locais onde administram.

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