Novas regras melhoram o Enem, mas não garantem justiça

Mudanças na correção da redação são bem vistas por especialistas, mas tempo e treinamento curto de corretores são criticados

Cinthia Rodrigues e Tatiana Klix, iG São Paulo

As mudanças na correção da redação do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) , anunciadas nesta quinta-feira para a edição de 2012 do teste, são apontadas como positivas, porém insuficientes para evitar injustiças. Professores e especialistas em processo seletivo acham que o governo faz uma boa tentativa, mas o tamanho da prova, a quantidade de corretores com diferentes formações, a correção à distância e sem padrões mínimos de tempo continuarão resultando em notas incorretas.

Veja o edital do Enem 2012 com todas as regras do exame

Como nos outros anos, cada redação será corrigida por duas pessoas. No entanto, uma terceira será consultada se houver diferença maior que 200 pontos em uma escala de zero a mil – e não mais 300 pontos como no ano passado. A nota dada por este corretor será somada e dividida para uma média final. Antes, o terceiro dava a nota sozinho. Depois disso, se ainda houver discrepância, uma banca de três avaliadores reunidos chegará a nota.

Também foi introduzido um novo critério em que diferenças maiores que 80 pontos em cada um dos cinco itens que são avaliados em uma redação são sujeitas a um terceiro corretor. As duas medidas foram bem avaliadas por especialistas ouvidos pelo iG , mas quase sempre com ressalvas.

“A mudança é boa. Vem dar maior credibilidade à nota final”, diz o diretor do cursinho da Poli, Gilberto Alvarez. “É uma tentativa importante de tornar o processo justo, mas ainda não vai garantir a equidade no processo”, diz Leandro Tessler, especialista em vestibular, atualmente assessor da reitoria da Universidade de Campinas (Unicamp).

“Tudo que for feito para garantir correção mais justa é bom, mas não acredito que resolva o grande problema”, diz a responsável pelo Laboratório de Redação do Colégio Objetivo, Maria Aparecida Custódia, a Cida.

O colunista do iG e especialista em Enem Mateus Prado também comemorou as mudanças no sistema de correção, mas com ressalvas. “A nova correção vai melhorar bastante, vai ser mais difícil alguém ser prejudicado”. O educador, no entanto, lamenta que o exame esteja sempre correndo atrás dos problemas passados, em vez de propor uma nova agenda. “Novos problemas vão ocorrer”, prevê.

Tessler acha que com cada corretor fazendo a avaliação à distância, sem afinar a correção e sem trocar informações durante o processo, haverá muitas diferenças. “Os processos da Unicamp e da USP (Universidade de São Paulo) colocam os corretores juntos, se ajudando, garantindo o máximo possível de igualdade”, comenta, ponderando que as dezenas de milhares de redações são processos muito menores do que os milhões de textos do Enem. “Talvez a questão a ser repensada seja essa: o Enem é muito grande.”

Léo Pinheiro/Fotoarena
Exame de 2011 na mão candidato na saída do local

Cida também acha que o maior problema do Enem é o tamanho. “A tentativa é interessante e louvável, mas com 5 milhões de redações para corrigir, o treinamento aos avaliadores precisaria ser maior e o tempo para ver as redações também”, diz.

Para ela, a grande quantidade de textos para cada corretor pode reduzir a atenção dada a cada um. Ela conta que, apesar da larga experiência, consegue corrigir, no máximo, 100 provas por dia, “depois disso é muito difícil manter a concentração”. Na Fuvest, o máximo que cada avaliador lê são 90 redações em um dia. No Enem, segundo ela conta que soube por colegas, não há limite máximo e, como a remuneração é por prova corrigida, incentiva-se a entrega de muitos textos por dia.

Correção poderá ser consultada

Os especialistas concordam que o acesso à correção, prometido desde o ano passado e confirmado nesta semana, ajudará a acompanhar a equidade do processo. “A transparência é um grande passo”, comemora Cida. “A gente não conseguiu entender muitas notas em processos anteriores. Alunos bons e que têm certeza que não fugiram ao tema ficaram com notas baixas e outros que assumem que tinham cinco minutos para o texto e fizeram poucas linhas tiveram pontuações altíssimas.”

Alvarez acha que este foi o principal ganho deste ano. Para ele, ainda que o edital não preveja possibilidade de recurso, o fato de ter em mãos a correção ajudará o aluno a entender seus erros. “Pedagogicamente houve um ganho importante.”

Para Mateus Prado, o exame também ganha em transparência com outra novidade anunciada pelo Ministério da Educação, o guia com os critérios e boas práticas da redação. A medida, segundo ele, democratiza o Enem e dá mais chances para os alunos se prepararem. Mesmo assim, pondera que os critérios ainda são complicados para os alunos e que nem todos vão conseguir fazer a leitura correta do manual. “Quem tem bons intermediários, vai se dar melhor”, diz.

Veja quanto vale sua redação com os critérios usados no Enem

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