Luiz Fernando Alves denunciou agressões físicas sofridas em festa da Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto

Após estudar quatro anos para passar em um vestibular de medicina, o estudante Luis Fernando Alves, de 22 anos, não imaginava que seu sonho iria se tornar um pesadelo.  Ele foi apenas uma das vítimas do trote aplicado anualmente aos calouros da Famerp (Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto), no interior de São Paulo.

O jovem contou, nesta terça-feira (13), as agressões físicas e psícológicas sofridas aos deputados estaduais Doutor Ulysses (PV) e Adriano Diogo (PT), presidente da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI), que investiga os trotes violentos praticados em universidades de São Paulo.

Luiz Fernando Alves, de 22 anos, foi vítima de trote violento na Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto
Ana Flávia Oliveira/iG São Paulo
Luiz Fernando Alves, de 22 anos, foi vítima de trote violento na Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto

Mineiro, Alves deixou a casa da mãe para cursar medicina no começo de 2014, mas ficou apenas 50 dias na faculdade. Um trote violento em uma festa foi a gota d´água na curta passagem na vida universitária na Famerp.

Alves conta que em 18 de março de 2014 participou de uma festa de confraternização entre calouros e veteranos. A Festa do Bixo, que teve duração de três dias, foi realizada em um espaço do Centro do Professorado Paulista (CPP).  

“O que era um sonho virou um terror. É uma festa da humilhação. Os veteranos diziam que a faculdade tinha uma hierarquia e que eles apanharam seis anos antes e aquele seria a nossa hora de apanhar para que nós pudéssemos bater quando chegasse a nossa vez”, relatou Alves.

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Durante a festa, Alves conta que foi agredido com garrafadas, chutes e tapas. Ele disse que quase sofreu hipotermia por causa dos banhos gelados de cerveja.  

“Quando eu estava passando mal, me colocaram pelado junto com os outros calouros em um palco e jogaram muita cerveja gelada na gente. Quase tive hipotermia. Depois me levaram para outro canto e oito pessoas urinaram em mim”, relembra.

Festa tinha participação de professores e ex-alunos, diz vítima

Ele diz que além de alunos, a festa tinha a participação de alguns professores, alunos residentes, ex-estudantes e até funcionários da instituição.

Alves relatou ainda que conseguiu sair da festa, que era promovida a 500 metros da universidade, e cambaleante chegou até o campus, onde procurou um vestiário para tomar um banho quente antes de ir para a casa.

Neste dia, decidiu que não queria ir para o segundo dia da festa. Ele procurou a polícia para denunciar e voltou para a casa da mãe, sem coragem para voltar ao campus. A partir daí foi ameaçado de morte duas vezes.

“Pessoas que eu não conhecia me ligavam de um orelhão na minha casa, no meu celular e nas redes sociais e ameaçavam me matar se eu denunciasse o que tinha vivido”.

Ele diz que até mesmo um professor da faculdade escreveu um texto o difamando. Nesse texto de duas páginas, disse Alves aos deputados, o professor teria dito que encontrou o aluno completamente alterado por uso de drogas e que tudo que ele dissesse deveria ser desacreditado, pois ele estava “fora de si”. Alves diz que para se defender das acusações chegou a fazer exame toxicológico para provar que não era usuário de drogas.  

Uma investigação foi aberta e o caso foi encaminhado para o Ministério Público. Até a publicação dessa reportagem, o MP não respondeu como está o processo no momento. 

Segundo a Famerp, uma sindicância para investigar o caso foi aberta na época e foram apontados sete alunos responsáveis por excessos durante a festa de acordo com depoimentos de estudantes. No entanto, o Conselho Departamental da faculdade decidiu aguardar o fim do inquérito policial para determinar as punições e os responsáveis. 

Ainda de acordo com a assessoria de imprensa da faculdade, não há professores ou funcionários como parte nessa sindicância. Ao fim do inquérito, os estudantes punidos podem ser advertidos ou até expulsos. 

Veja abaixo casos de trotes violentos em universidades brasileiras


Depressão

Além dos traumas físicos, como cortes nas mãos causadas pelas garrafas de vidro, hematomas pelo corpo, dos tapas e chutes, e queimaduras por causa da cerveja gelada, um mal ainda maior tornou-se constante na vida de Alves: a depressão.

Ele diz que após o episódio, decidiu abandonar o curso, ficou deprimido e pensou até mesmo em se matar.  “Imagina. Eu estudei durante quatro anos, passei no vestibular e perdi uma faculdade de medicina”.

A faculdade, diz ele, deu um prazo de 10 dias para que ele retomasse o curso ao contrário seria suspenso até o ano seguinte. Mesmo assim, ele preferiu não voltar.

Alves decidiu tentar novamente vestibular para medicina em outra faculdade e conseguiu uma permissão através de liminar (decisão provisória) para se matricular no curso de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

A faculdade é conivente. Os diretores são culpados porque é uma ideologia constituída ao longo dos anos. Os alunos não entram com esse pensamento, são doutrinados"

A retomada dos estudos, no entanto, não foi fácil. Para se concentrar nos estudos, ele precisou recorrer a medicamentos receitados por um psiquiatra. Atualmente, a dosagem dos medicamentos já diminuiu, mas as visitas ao médico ainda fazem parte de sua rotina.

Como tem a vaga assegurada por uma liminar judicial, que pode ser revogada, Alves ainda estuda para os vestibulares de outras universidades publicas, com medo de que outro juiz entenda que ele não pode continuar matriculado. Além de prestar vestibular para a UFMG, o estudante passou para a segunda fase da Unicamp (Universidade de Campinas) e da Universidade de São Paulo (USP). Hoje, realiza mais uma etapa da Unicamp enquanto aguarda os resultados das outras instituições.

“Sempre tive o sonho de estudar em São Paulo, mas agora prefiro UFMG, que já estou habituado e sei que não tem trote. Posso ficar perto da minha família”, diz.

Sobre os resultados das investigações, Alves diz esperar que os diretores da faculdade sejam punidos.

“A faculdade é conivente, os diretores são culpados porque é uma ideologia constituída ao longo dos anos. Os alunos não entram com esse pensamento, são doutrinados, perdem o senso de humanidade porque acontece ao longo de seis anos. Então vira normal. Mas para mim, a vida é mais do que apanhar um ano para depois bater os outros cinco”, diz. 

CPI

A CPI sobre violações dos direitos humanos nas faculdades paulistas foi instaurada em 16 de dezembro e já ouviu o depoimento de 22 estudantes até agora. Nesta tarde, os deputados tomarão o depoimento de cinco alunos da Faculdade de Medicina da USP. 

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