Notas de corte entre cotistas e não cotistas difere em 50 pontos

Por Priscilla Borges - iG Brasília |

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Levantamento exclusivo do iG mostra que, no cursos que já reservam 50% das vagas para cotas, diferenças muito discrepantes são raras

As notas de corte – pontuação do último candidato aprovado em determinado curso – dos não cotistas aprovados na última edição do Sistema de Seleção Unificada (Sisu) são mais altas que as dos cotistas na maioria dos cursos. No entanto, essa diferença não é discrepante, como mostra levantamento exclusivo feito pelo iG.

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A partir de dados exclusivos sobre as notas de corte dos 1.229 cursos que já oferecem reserva de 50% das vagas aos egressos de escolas públicas, solicitados ao Ministério da Educação, é possível verificar que as diferenças entre as notas de cotistas e não cotistas na maioria das opções de concorrência disponíveis aos candidatos não superam 50 pontos.

A análise considerou as 4.793 notas de corte geradas a partir dos oito modelos de cotas dadas pelas universidades aos candidatos de escola pública no Sisu. São eles: candidatos pretos, pardos ou indígenas com renda familiar inferior a 1,5 salário mínimo per capita (algumas instituições dividiram essa categoria em duas, separando os indígenas); candidatos pretos, pardos ou indígenas independentemente da renda (essa categoria também foi transformada em duas por algumas instituições, separando os indígenas); candidatos com renda familiar inferior a 1,5 salário mínimo per capita e candidatos com renda superior a essa.

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Desse total, 3.775 casos (78,76%) foram diferentes em até 50 pontos dos não cotistas. No intervalo entre 10 e 40 pontos, estão 40% das notas. Os desempenhos mínimos variaram de 525,56 a 784,26 entre os cotistas e de 567,72 a 796,60 na concorrência geral nesse recorte.

A nota no Sisu é calculada a partir do desempenho do estudante no Enem, cuja escala varia de 0 a 1000. Na última edição, as notas mínimas e máximas tiradas pelos estudantes em cada prova (não há média geral) variaram entre 277,2 pontos em matemática e 955,2 na mesma prova. Alguns alunos alcançaram nota 1.000 na redação.

Os dados antecipam aquele que deve ser o cenário da disputa pelas vagas das federais em 2016, quando todas as universidades e os institutos federais já deverão ter adotado a reserva de 50% das vagas para a rede pública. Segundo a Lei 12.711, que criou as cotas, o percentual pode ser atingido em até quatro anos. Em 2012, as instituições só eram obrigadas a garantir cotas de, pelo menos, 12,5%.

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No gráfico abaixo, é possível compreender melhor a distribuição das notas de corte. A linha horizontal representa os intervalos de diferença de pontos entre cotistas e não cotistas. Cada pontuação mostra seu intervalo anterior, por exemplo: 10 simboliza todas as notas menores que 10 pontos, 20 o intervalo das notas maiores que 10 e menores que 20 e assim por diante. As notas negativas representam os casos em que as notas dos cotistas foram mais altas.

Extremos isolados

Os dados mostram que entre as semelhanças entre as notas de corte de cotistas e não cotistas são raras, assim como as distâncias extremas de desempenho. Em apenas 11,54% das opções disponíveis no sistema, que seleciona alunos para as vagas das universidades federais com a nota do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), os desempenhos dos grupos de cotistas e dos estudantes da concorrência geral têm diferenças mínimas – no máximo 10 pontos.

O pró-reitor de Graduação da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), Eduardo Magrone, explica que, sem esse resultado, as cotas seriam “inúteis”. “Se não houvesse diferença alguma nas notas para seleção, as cotas não se justificariam, seriam políticas inúteis”, avalia.

Pela primeira vez, a UFJF colocou 70% de suas vagas do câmpus de Juiz de Fora no Sisu e com o percentual de 50% de cotas. A universidade já havia adotado a reserva de vagas em 2005. Magrone se mostrou surpreso com a constatação de que a maioria das notas de corte das modalidades de seleção dos cursos que colocou metade de suas vagas disponíveis às cotas no Sisu se concentra em até 50 pontos de diferença. Ele esperava diferenças mais altas.

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Os dados analisados pelo iG mostram que os casos de grandes diferenças foram isolados. A maior delas foi de 272,44 pontos. Mas só há um registro assim, no bacharelado em História, oferecido no turno vespertino pela Universidade Federal do Maranhão (UFMA) no câmpus do Bacanga. A nota de corte da concorrência geral foi de 662,18 pontos, enquanto o aprovado na única vaga oferecida para candidatos indígenas que, independentemente da renda, tivessem cursado o ensino médio em escola pública, tirou 389,74 pontos.

Apesar de poucos, há cotistas que foram selecionados com notas mais altas do que os candidatos que não entraram pela reserva de vagas. Essa situação ocorreu em 4,2% (201) dos casos. As diferenças variaram em até 72 pontos a mais para os cotistas. No curso de licenciatura em Física oferecido à noite pelo Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Tocantins no câmpus de Palmas, o único candidato egresso de escola pública selecionado sem critério adicional de raça ou renda fez 705,63 pontos. Na concorrência geral do curso, a nota de corte foi de 633,68.

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O iG não calculou médias ou comparou notas entre cursos nesse levantamento porque a metodologia do Sisu não permite esse tipo de avaliação. Apesar de todos os candidatos serem selecionados de acordo com o desempenho obtido no Enem, cada instituição tem a liberdade de dar pesos diferentes a cada prova feita pelo aluno. Portanto, 50 pontos podem representar uma distância maior ou menor em cada curso e só análises detalhadas podem mensurar isso.

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