Para Fernanda Andrade, filme "Filha do Mal" é um "conto de fadas"

Atriz brasileira conversa com o iG sobre sucesso do filme de terror e fala sobre vida nos EUA

Marco Tomazzoni, iG São Paulo |

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Fernanda Andrade: surpreendida pelo sucesso
De atores latinos, Hollywood está cheia. Projetos independentes, idem. Filmes sem dinheiro ou apoio dos grandes estúdios, que só contam com boa vontade e festivais para se destacar no meio do multidão. Muito raramente se transpõe essa barreira e, agora, foi a vez de uma brasileira estar no centro das atenções. Da noite para o dia, a paulista Fernanda Andrade, 27 anos, se viu como estrela de um filme campeão de bilheteria: o terror "Filha do Mal" estreou no início do ano à frente de Tom Cruise e sua "Missão: Impossível" nos Estados Unidos. De desconhecida, a atriz virou exemplo de sucesso.

Isso porque "Filha do Mal" foi filmado pelo diretor William Brent Bell quase em esquema de guerrilha, usando o velho truque do falso documentário para justificar a câmera tremida e as imagens de qualidade duvidosa. A Romênia serviu de dublê para a Itália e o orçamento ficou em US$ 1 milhão, miséria para os padrões da indústria.

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O pulo do gato atende pelo nome de Lorenzo di Bonaventura. O produtor norte-americano assistiu ao filme pronto, uma história de possessão aos moldes de "O Último Exorcismo" (2010), e viu nele a oportunidade de inaugurar o Paramount Insurge, braço do estúdio dedicado a produções de baixo orçamento – em outras palavras, responsável por encontrar outro "Atividade Paranormal" .

A Paramount investiu pesado em marketing, colocou "Filha do Mal" de cara em mais de dois mil cinemas dos Estados Unidos e esperou para ver se o público mordia a isca. Deu certo: até agora, o filme faturou US$ 53 milhões na América do Norte. No Brasil, a estreia no último final de semana pode ser considerada bem-sucedida: R$ 2,07 milhões em três dias de exibição.

"Isso faz parte do conto de fadas que é esse filme", confessou Fernanda, em entrevista ao iG desde Los Angeles, onde mora. A atriz parecia não estar tão à vontade com o esquema rígido imposto pelo estúdio, do tempo cronometrado aos assessores monitorando a conversa.

"Fizemos um filme independente, como tantas pessoas fazem. De repente o Lorenzo viu, já começou a trabalhar nele e aí explodiu. Não tinha uma pessoa da equipe que já tivesse passado por isso antes. Desde fazer o filme em Bucareste até agora, com o sucesso, tudo está sendo mágico."

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Cubana brasileira

A relação de Fernanda com o cinema começou ainda na adolescência. Natural de São José dos Campos, mas criada em Campinas, aos 11 anos se mudou com a família para a Flórida – o pai, engenheiro de uma multinacional, acabou optando por trocar as viagens de avião constantes por uma residência fixa nos EUA. A adaptação não foi muito tranquila.

"Meu pai era o único que falava inglês, ninguém mais sabia. Tivemos que aprender na hora. Foi uma aventura, uma experiência nova, mas difícil. Ajudou muito minha formação [como pessoa], tive que aprender a me adaptar."

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Ao lado de Paul Wesley na minissérie "Fallen"
Seu primeiro trabalho foi aos 15 anos, quando ainda estava no colégio. Depois de um teste, foi escalada para atuar em "For Love or Country: The Arturo Sandoval Story" (2000), telefilme da HBO sobre o músico cubano, estrelado por Andy Garcia. Ela interpretava a nora de Sandoval e lembra bem dos dias em que visitou a casa do trompetista, sem contar a experiência de testemunhar Garcia atuando. "Eu era tão jovem. Na época não caiu muito a ficha, mas foi incrível assistir a ele fazer aquele personagem, uma grande escola."

A profissão passou a ser levada a sério quando sua então agente se mudou para Los Angeles. "Ela me convidou para ir junto", recordou Fernanda. A ideia era ficar só um semestre e não interromper a faculdade de jornalismo. Ledo engano: não voltou mais. No início, os pais ficaram preocupados com a decisão, mas acabaram cedendo.

"Falei para eles: 'não sei se sou boa, mas mesmo assim quero tentar' [risos]. Desde então, me apoiaram. Acho que grande parte do meu sucesso vem disso."

A partir daí, tirando curtas-metragens e um longa independente, Fernanda atuou só na televisão. Fez papéis pequenos em séries como "CSI", "Law & Order", "The Mentalist" e "Fallen", seu maior sucesso, no qual dividia a tela com Paul Wesley ("Vampire Diaries"), um anjo na Terra.

A maioria absoluta de seus personagens é latina, mas a atriz não acha que isso seja uma limitação. "O brasileiro não tem nada muito específico. Quando estava na Flórida, interpretei uma cubana. Isabella [de 'Filha do Mal'] é norte-americana, mas tem origem italiana. Já fui mexicana, francesa... Sempre me senti muito bem com essa mistura, abre muitas portas. Como atriz, não tenho do que reclamar."

Críticas pesadas

Embora tenha levado multidões aos cinemas, "Filha do Mal" foi muito mal recebido. No site Rotten Tomatoes, que compila críticas da imprensa, o índice de aprovação é de apenas 5%. A revista Rolling Stone norte-americana, por exemplo, deu nota zero ao filme, chamou-o de "pior do ano" e, não contente, afirmou que o final só é "chocante por sua estupidez".

Tem mais. Em um relato publicado por Roger Ebert, decano da crítica cinematográfica nos EUA, uma internauta da Califórnia afirma que, ao final da sessão em que estava, o público começou a vair o filme no rolar dos créditos e, aos gritos, pedir o dinheiro do ingresso de volta.

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Fernanda Andrade passeia pelo Vaticano em "Filha do Mal", numa das poucas cenas filmadas na Itália
O consenso é de que o marketing gerou a curiosidade dos espectadores – daí a boa estreia –, mas pouca gente deve ter saído da sala recomendando "Filha do Mal". Não surpreende, portanto, que o filme tenha apresentado uma queda de 76% em sua segunda semana em cartaz .

Fernanda demonstrou indiferença com a ferocidade das críticas. "É importante para criar um diálogo, gerar opiniões. Acho que isso leva as pessoas ao cinema. A crítica, não importa o lado, sempre é boa para o filme."

Apesar da exposição, a brasileira ainda não revela projetos futuros. "Estou prestando atenção, aproveitando, indo com calma." Não esconde, no entanto, o desejo de trabalhar no Brasil, não importa se no cinema ou na TV.

"Faz muito tempo que quero fazer alguma coisa. Novela acho que realmente fica difícil porque minha base é aqui. Mas, mesmo o cinema brasileiro não tendo a mesmo exposição, é uma época muito especial, ele está sendo muito bem aceito no exterior." Uma indireta nada sutil.

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