Meryl Streep vale o ingresso para "A Dama de Ferro"

Filme decepciona, mas atriz encanta nas diversas fases da ex-primeira-ministra britânica

Marco Tomazzoni, iG São Paulo |

Raros atores justificariam sozinhos o ingresso para assistir a um filme. Angelina Jolie e Brad Pitt, por exemplo, não são maus, longe disso, só que boa parte do público se interessa mais pela celebridade do casal do que exatamente por sua competência. Meryl Streep é uma das poucas exceções.

Não que o Oscar signifique muito na prática, mas não é por nada que a atriz é a recordista de indicações, 17 em 35 anos de carreira. Em 2012, ela volta a concorrer ao prêmio por "A Dama de Ferro", que entra em cartaz nesta sexta-feira (17), com grandes chances de finalmente vencer pela terceira vez.

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Meryl Streep, o motivo para ver "A Dama de Ferro"
Streep é a atração inconteste do filme ao interpretar com veracidade impressionante a ex-primeira-ministra britânica Margaret Thatcher, uma das figuras mais importantes e contraversas da política do século 20. Engane-se quem espera encontrar uma cinebiografia tradicional: com apenas o musical "Mamma Mia!" no currículo, a diretora Phyllida Lloyd apresenta uma fantasia sobre a velhice da personagem.

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O espectador encontra Thatcher longe do cargo, aposentada, e com sérios problemas de senilidade: ela tem frequentes alucinações com o marido morto, Dennis (Jim Broadbent), e perde a noção de tempo e espaço. É com os pés no presente que o roteiro vai e volta para contar a sua trajetória.

Passeia-se por sua juventude (na pele da atriz Alexandra Roach), antes da faculdade, e o preconceito quando entra na política, por ser mulher e filha de quitandeiro. É só mais tarde, quando ela já está há anos no parlamento e briga pela liderança do partido Conservador, no final da década de 1970, que Streep entra em cena.

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Assim como a passagem de tempo, os fatos são vistos de forma superficial, com um insistente e cansativo uso de imagens granuladas de arquivo. O discurso de devolver o "grande" ao nome da Grã-Bretanha, os cortes no governo, a crise econômica, os atentados do IRA, as violentas greves, a Guerra das Malvinas , tudo está lá, mas se a ideia é tentar entender a história britânica, o jeito é continuar com os livros.

Em vez da imagem pública, Lloyd optou pela Thatcher dos bastidores, que se diz uma "mãe" para o país e garante que seus predecessores era "fracos", ou covardes para tomar as medidas necessárias. Tentando afastar de vez a ideia de que as mulheres são o sexo frágil, ela assume uma personalidade durona, irredutível, que parece ir para o conflito contra a Argentina só para mostrar sua força – "eles vão se arrepender por me subestimar", afirma.

Essa característica se acentuou com o tempo e foi responsável por sua derrocada: impiedosa e intransigente, Thatcher viu seus apoiadores baterem em retirada no início dos anos 1990.

É a parcela séria do filme, pouco interessante como a ficcionalizada velhice, uma tentativa de humanizar a personagem. As tentativas da diretora, aliás, de filmar a derrocada de Thatcher rumo à loucura mostram sua total falta de familiaridade com um cinema mais criativo.

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Sobra, então, para Meryl Streep brilhar sozinha com seu talento. Irreconhecível debaixo de uma maquiagem excelente, de humilhar quem trabalhou em "J. Edgar", a atriz surpreende não importa o que faça, seja mimetizando a primeira-ministra nos mínimos detalhes ou, mais incrível ainda, sua versão idosa. É dela, inclusive, a responsabilidade por conduzir num crescendo a relação com o fantasma do marido até o desfecho emotivo.

Um trabalho fascinante, para observar e se deleitar. Se nesses últimos 30 anos, desde que ganhou seu último Oscar por "A Escolha de Sofia" (1982), Streep perdeu o prêmio diversas vezes, agora não é a hora de deixar passar: ela merece.

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