"Cowboys & Aliens" coloca ETs no Velho Oeste e decepciona

Dirigido por Jon Favreau, filme falha com roteiro rasteiro e heróis desinteressantes

Marco Tomazzoni, iG São Paulo |

Em princípio, devia parecer uma ideia maravilhosa: caubóis e extraterrestres, juntos! Executivos provavelmente se deram tapinhas nas costas, sorrisos de ponta a ponta, felizes com sua originalidade e a promessa de uma bilheteria gorda. Verdade que a mistura improvável de gêneros há tempos já não é mais novidade – "Orgulho e Preconceito e Zumbis" está aí para provar –, mas ninguém até então, por mais que haja uma fartura de westerns bizarros , tinha pensado em fazer um filme de cinema com alienígenas no Velho Oeste.

Divulgação
Daniel Craig em posição de duelo em "Cowboys & Aliens": as luzes serão mais rápidas no gatilho?

Uma história em quadrinhos de qualidade duvidosa, publicada em 2006, foi estopim para o diretor Jon Favreau, alçado ao primeiro time de Hollywood depois do sucesso de "Homem de Ferro", querer levar a fórmula aos cinemas. O resultado disso, "Cowboys & Aliens", estreia nesta sexta-feira (dia 9) no Brasil depois de ter naufragado no mercado norte-americano – uma das maiores promessas da temporada custou US$ 163 milhões (R$ 271 mi) e faturou só US$ 97 milhões (R$ 161) nos EUA. O desempenho comercial em boa parte das vezes não está relacionado à qualidade do filme, mas, nesse caso, sim: a receita desandou.

Siga o iG Cultura no Twitter

Os ingredientes para dar certo, "Cowboys & Aliens" parecia ter. Dois astros (o 007 Daniel Craig e a cara fechada de Harrison Ford), uma estrela ascendente (Olivia Wilde), cinco roteiristas – entre eles Damon Lindelof ("Lost") e a dupla Roberto Orci e Alex Kurtzman ("Transformers", "Star Trek") – e nada menos do que 11 produtores, com Steven Spielberg no time. Sem contar os ETs, criados por Shane Mahan, que tem no currículo "O Exterminador do Futuro" e "Aliens, o Resgate". Por isso, a decepção fica ainda mais amarga.

Divulgação
Harrison Ford e Craig a caráter, com cara de quem busca confusão
O ano é 1875, no Novo México, e a história começa com Daniel Craig – bombado a ponto de Clint Eastwood parecer desnutrido – sozinho no meio do deserto, ferido no torso e com uma espécie de bracelete eletrônico preso no braço. Ele de cara mostra ter licença para matar e uns valentões pagam o pato. Sem memória alguma e com a foto de uma mulher nas mãos, o cavaleiro solitário segue para a cidade e arranja mais confusão no saloon: se mete com o filho do poderoso fazendeiro local (Ford) e vai preso, até porque, surpresa, o xerife o reconhece como um criminoso procurado.

Daí que discos voadores bombardeiam a vila, num fuzuê dos diabos, e sequestram alguns dos moradores. A engenhoca no braço de Craig se revela uma arma poderosa e pronto, temos aí um herói em potencial. Todo mundo sabe, afinal de contas, que a amnésia sempre vem em boa hora para um bandido provar que é um cara legal, ainda mais com uma bazuca alienígena a tiracolo.

Jake Lonergan – esse é o nome do protagonista – vê nesses estranhos "demônios" a chance de descobrir o que aconteceu e acaba, meio a contragosto, integrando uma patrulha para resgatar as pessoas abduzidas. No grupo, estão a misteriosa Ella (Olivia Wilde), interessada em saber mais sobre os forasteiros, alguns coadjuvantes rabiscados e ele, Harrison Ford, o caubói veterano, que viu muitos colonizadores morrerem nas mãos de peles-vermelhas sanguinários.

A primeira parte, até as espaçonaves entrarem em cena, agrada, um tipo de faroeste vitaminado, mais ou menos como o "Sherlock Holmes" de Robert Downey Jr., amigão de Favreau. Ao longo da trama, porém, a vontade de fazer tudo ao mesmo tempo – faroeste, ficção científica e ser moderninho, o que inclui uma pitada de ironia – enfraquece o conjunto.

O roteiro, mesmo feito a dez mãos, surge como principal culpado. O drama é rasteiro e previsível, a começar pelo ódio do fazendeiro pelos índios, que inevitavelmente será revisto. Os clichês também estão lá: até dá para aceitar um par ou mais de mortes sentimentais nos braços, mas quando Harrison Ford resolve passar a mão para fechar as pálpebras já fechadas de um morimbundo, não dá para achar que as coisas vão bem.

nullOlivia Wilde, a aposta mais arriscada dos roteiristas, não vinga e seu possível interesse romântico com Craig termina completamente equivocado. Já o excelente Sam Rockwell ("Homem de Ferro 2", "Lunar") luta para fazer seu dono do saloon aparecer, mas ele fica mal desenvolvido como todos os outros personagens secundários.

Nem os ETs, que demoram a dar o ar da graça, se salvam. A motivação para a vinda à Terra não convence e mesmo o design dos bichos parece desinteressante e apressado para uma produção desse porte.

Surpreende, portanto, ver como Jon Fraveau conseguiu fazer um filme tão chato e sem graça, no sentido de que ninguém inspira simpatia – a não ser, talvez, o garotinho órfão que aproveita a batalha de raças para amadurecer. A palavra que vêm à cabeça é mistureba, e o diretor prova que não basta jogar no liquidificador carinhas conhecidas, efeitos especiais, explosões e, no caso, roupas de caubói para fazer entretenimento de qualidade.

    Leia tudo sobre: cowboys e aliensfaroestejon favreauharrison ford

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG