O filme "Gravidade" na visão de um astronauta

Por NYT | - Atualizada às

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Michael J. Massimino, que participou de duas missões de reparos do Telescópio Espacial Hubble, comenta os erros e acertos do filme de Alfonso Cuarón

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O filme "Gravidade", que estreou nesta sexta-feira (11) no Brasil, é o mais próximo que a grande maioria de nós vai chegar do espaço ‒ e talvez seja melhor assim.

Leia: "Gravidade" aponta o caminho para tecnologia digital no cinema

Ver Sandra Bullock e George Clooney na pele de dois astronautas isolados, girando fora de controle, subindo e descendo feito dois ioiôs é o suficiente para fazer qualquer um desacreditar do romantismo da gravidade zero.

Enquanto Bullock gira sem controle e vai de encontro a uma série de painéis solares e outros equipamentos espaciais, tentando desesperadamente se agarrar a qualquer coisa para não sair flutuando no infinito ‒ em 3D, ainda por cima ‒ você sente cada solavanco.

"Gravidade" foi amplamente elogiado nos festivais de Veneza e Toronto; por isso, quando a distribuidora Warner Bros. me ofereceu a oportunidade de assistir ao filme com um astronauta de verdade, aceitei de bom grado.

Imagem do filme 'Gravidade'. Foto: DivulgaçãoImagem do filme 'Gravidade'. Foto: DivulgaçãoImagem do filme 'Gravidade'. Foto: DivulgaçãoImagem do filme 'Gravidade'. Foto: DivulgaçãoImagem do filme 'Gravidade'. Foto: DivulgaçãoImagem do filme 'Gravidade'. Foto: DivulgaçãoImagem do filme 'Gravidade'. Foto: DivulgaçãoImagem do filme 'Gravidade'. Foto: DivulgaçãoImagem do filme 'Gravidade'. Foto: DivulgaçãoImagem do filme 'Gravidade'. Foto: DivulgaçãoImagem do filme 'Gravidade'. Foto: Divulgação

Minha companhia foi Michael J. Massimino, que participou de duas missões, em 2002 e 2009, de reparos e reabilitação do Telescópio Espacial Hubble, o mesmo que os astronautas do filme têm que consertar.

Engenheiro com doutorado pelo MIT, ele ficou encantado com a fidelidade do filme à praticamente toda a experiência espacial. Em uma das cenas chegou a me cutucar para dizer que a ferramenta que Bullock estava usando era igualzinha à sua chave inglesa favorita.

Outra mostra um uso bem criativo e realista para o recuo de um extintor de incêndio. Os pores-do-sol e auroras de cenário exterior são as imagens que a NASA fez da Estação Espacial Internacional.

Clooney, na pele do astronauta veterano, com sua voz grave e jeito brincalhão, parece encarnar todos os espaçonautas imperturbáveis que já ouvimos falando de lá de cima. A cena de abertura, uma tomada longa que começa com a vista espetacular da Terra e termina com o tropeção de Bullock, garantiu ao diretor, Alfonso Cuarón, comparações a mestres como Robert Altman e Michelangelo Antonioni.

Será que tem alguma coisa para não gostar?

Você sabia que tinha um senão, não é? Infelizmente, com toda essa verossimilhança, há um buraco na trama, uma impossibilidade orbital tão escancarada que permitiria a passagem da Enterprise por ela.

Depois que param de girar e tropeçar, Clooney diz a Bullock que a única esperança de resgate seria usar o propulsor dele para irem para a estação espacial, simbolizada como uma luzinha no horizonte. "É uma caminhada e tanto, mas dá para chegar lá", ele diz.

E é nesse ponto que os fãs da ficção científica até se encolhem.

Talvez você não saiba ou não se lembre, mas o Hubble e a estação espacial estão em órbitas bem diferentes. Ir de um para o outro exige tanta energia que nem os ônibus espaciais tinham combustível para isso. O telescópio está a mais de 560 km de altura, e se movimenta na altura do Equador; a estação fica 160 km abaixo dele, em uma órbita no extremo norte, sobre a Rússia.

A ideia de os astronautas Matt Kowalski (Clooney) e Ryan Stone (Bullock) pudessem se deslocar para a EEI é como se um pirata fosse jogado no mar do Caribe e conseguisse nadar até a Inglaterra.

Getty Images
O trio de 'Gravidade' em evento em Nova York: Alfonso Cuarón, Sandra Bullock e George Clooney

Pode até parecer picuinha sem graça, mas há apenas dez anos isso foi tema de um debate nacional sobre a política espacial e quase custou o Hubble aos EUA. Depois que o Columbia se desintegrou ao reentrar na atmosfera terrestre, em 2003, o administrador da NASA, Sean O’Keefe, cancelou a última missão de reparo ao telescópio alegando que, se o ônibus espacial tivesse problemas, não teria combustível suficiente para buscar refúgio/ajuda na estação.

A decisão gerou indignação nacional. Até o Congresso e a Academia Nacional de Ciências acabaram se envolvendo no imbróglio. Nas escolas, as crianças faziam vaquinhas para mandar dinheiro para a NASA e realizar a última missão no Hubble. Massimino comentou que, quando ela finalmente aconteceu, em maio de 2009, havia outro ônibus espacial à espera em Cabo Canaveral, prontinho para ser lançado em órbita caso os astronautas precisassem de resgate. Felizmente não precisaram.

Massimino conquistou certa fama cósmica quando se viu às voltas com um parafuso que estava bloqueando o acesso a um espectrógrafo quebrado ‒ e nem piscou para arrancar a alça lateral do telescópio para consertar o equipamento. Mais tarde ele disse que a decisão foi baseada na lembrança de seu tio Frank consertando um carro. O resultado é que o Hubble está funcionando, e bem, dez anos depois de ter tido sua morte decretada.

Eu passei vários anos escrevendo sobre as tribulações do Hubble, então talvez esteja levando isso para o lado pessoal. Seria bom achar que há um tipo de infraestrutura no espaço de modo a permitir que se passe de uma instalação para a outra, seja em caso de emergência ou para pegar uma ferramenta emprestada ‒ mas não há. Não dá para fazer isso.

Não seria tão problemático se os produtores não tivessem prestado atenção a detalhes mínimos como os capacetes embaçados e as ferramentas espaciais. Violações das leis básicas da Física acontecem o tempo todo em "Guerra nas Estrelas" e "Jornada nas Estrelas", mas ninguém está nem aí porque não se espera nada além de diversão.

Entretanto, nos filmes a coisa funciona mais ou menos assim: um historiador de arte é consultado para garantir que a cortina da casa de Einstein seja igual à original ‒ afinal, o cinema é um meio visual ‒, mas a ciência acaba sempre abrindo espaço para a trama, como disse uma vez o diretor David Twohy ("A Batalha de Riddick").

Ainda assim, gostaria que não sacaneassem sempre com a Física. Pena que Arthur C. Clarke, coautor de "2001: Uma Odisseia no Espaço" e vários outros clássicos da ficção, não está mais vivo. Aliás, a abertura de "Gravidade" me lembrou de "2001" e seu balé espacial.

Sir Arthur, que também inventou a ideia de satélites de comunicação, sempre se orgulhou de usar as leis físicas adequadamente. E contava que uma de suas histórias, "Júpiter V", sobre a descoberta de que uma das luas de Júpiter era, na verdade, uma espaçonave alienígena, exigiu de vinte a trinta páginas de cálculos.

Aposto que ele teria encontrado uma forma de trazer Bullock de volta com suavidade ‒ e legitimamente.

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