Em "Amor", Haneke faz retrato realista e sem sentimentalismo da velhice

Por Luísa Pécora - iG São Paulo |

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Com surpreendentes cinco indicações ao Oscar, longa austríaco falado em francês acompanha cotidiano de casal de idosos cuja relação é abalada por uma doença

Uma das mais gratas surpresas do Oscar 2013 são as cinco indicações a “Amor”, novo e tocante longa do austríaco Michael Haneke, que ganhou a Palma de Ouro no Festival de Cannes e estreia no Brasil nesta sexta-feira (18). Independentemente do que acontecer no dia 24 de fevereiro, quando as estatuetas serão entregues, a produção já entrou para a história ao integrar um seleto grupo de apenas cinco títulos que conseguiram conquistar a Academia a ponto de extrapolar os limites da categoria filme estrangeiro e conseguir também um lugar entre os indicados ao prêmio principal.

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Haneke, em particular, tem muito o que comemorar por ter conquistado uma vaga na disputada categoria de direção, deixando para trás nomes como Ben Affleck e Kathryn Bigelow, vistos como favoritos. Foi um merecido reconhecimento ao internacionalmente consagrado diretor de “Caché” e “Violência Gratuita”, que, até então, só tinha sido lembrado pelo Oscar uma vez, com a indicação de “A Fita Branca” a melhor filme estrangeiro em 2010.

Jean-Louis Trintignant em "Amor". Foto: DivulgaçãoEmmanuelle Riva em cena de "Amor". Foto: DivulgaçãoCena do filme 'Amor', de Michael Haneke. Foto: DivulgaçãoCena do filme 'Amor', de Michael Haneke. Foto: DivulgaçãoCena do filme 'Amor', de Michael Haneke. Foto: DivulgaçãoCena do filme 'Amor', de Michael Haneke. Foto: DivulgaçãoCena do filme 'Amor', de Michael Haneke. Foto: Divulgação

De certa forma, parece compreensível que “Amor”, um longa mais suave e menos violento que os anteriores de Haneke, tenha caído no gosto da Academia. Por outro lado, ainda se trata de um filme difícil de assistir, um retrato sombrio sobre a velhice que, ao final, deixa o espectador mais abalado que otimista, como o Oscar costuma preferir.

“Amor” conta a história de Anne (Emmanuelle Riva, 85 anos, a mais velha indicada ao Oscar de melhor atriz) e Georges (Jean-Louis Trintignant, 81, afastado das telas desde 2003), professores de música aposentados que vivem tranquilamente em Paris: fazem compras, vão a concertos, cozinham, tomam café da manhã e aproveitam a companhia um do outro após décadas de convivência e cumplicidade.

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A relação do casal passa para uma nova e dura etapa quando Anne é submetida a uma cirurgia, sofre complicações e fica com o lado direito do corpo paralisado. A princípio, ela se esforça para manter a mesma vida de antes. Mas, aos poucos, torna-se mais dependente do marido e se vê forçada a aceitar uma realidade que por vezes chega a ser humilhante tanto para ela quanto para ele.

Reuters
Michael Haneke, diretor que recebeu a Palma de Ouro em Cannes

Ao retratar a velhice, Haneke segue a linha de dramas como o canadense “Longe Dela”, de Sarah Polley, e o islandês “Vulcão”, de Rúnar Rúnarsson, premiado na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo de 2011. São filmes em que há pouca ação, nos quais o fim da vida não é visto como uma fase de grandes acontecimentos – o oposto, portanto, de longas “fofos” como o argentino/espanhol “Elsa e Fred”, de Marcos Canevale, cujos protagonistas idosos descobrem a paixão, vivem aventuras e embarcam em uma viagem romântica à Itália.

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Como é sua característica, Haneke filma “Amor” de modo realista, com longos planos-sequência em que a câmera, fixa, apenas retrata o cotidiano pouco glamuroso de um casal que busca manter a dignidade em meio à degradação progressiva de Anne. Enquanto a filha dos dois (interpretada por Isabelle Huppert) se desespera em aceitar a situação, Georges sabe que não há muito pelo que esperar. “As coisas seguirão em frente”, explica, “e um dia tudo acabará”.

A falta de sentimentalismo engrandece o filme de Haneke, que também se mostra preocupado em não exagerar na dureza, fazendo com que a trajetória feliz do casal ecoe mesmo nos momentos mais difíceis. Em uma das melhores cenas, Anne, já sem movimento no braço, pede que Georges lhe traga um álbum de fotografias antigo. Enquanto vira as páginas, sem lágrimas ou grande pesar, ela diz: “É lindo isso, a vida”, num bom resumo de um filme bonito, triste e, sobretudo, real.

Assista ao trailer:


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