Rio+20: Preços de hotéis levam delegações européias a encolher 30%

Preço alto de hotéis medianos e hábito de cobrar por temporada são apontados como razão para diminuir número de representantes

BBC Brasil |

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Os preços cobrados por hotéis durante a Rio+20 , que acontece no próximo mês de junho, fizeram com que as delegações europeias que vem ao país para o evento encolhesse em média 30%, de acordo com o chefe da Seção de Cooperação da Delegação da União Europeia no Brasil.

Segundo Jérôme Poussielgue, responsável pelas reservas da delegação da UE durante a conferência ambiental, os preços altos e a política de vender pacotes para o período completo estão levando países europeus a reverem o número de pessoas que vão mandar para o Rio.

"Acho que os donos de hotéis sabem que 50 mil pessoas vão para o Rio e que vão ganhar muito dinheiro com isso. As pessoas vão precisar de quartos e eles põem preços loucos porque sabem que vai ter gente para pagar. Mas muitas embaixadas resolveram reduzir o número de pessoas em suas delegações", diz.
Poussielgue afirma que a redução vem sendo detectada em reuniões realizadas com embaixadas europeias em Brasília e que países de outras regiões também estão sendo afetados, como o Japão, que reduziu sua delegação de 500 para 400 pessoas, afirma.

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"Para nós, essa conferência é muito importante e queremos que tenha resultados concretos. Estamos fazendo o fazendo o necessário para poder ir, mas é um preço muito alto. Isso tem um impacto sobre o número de gente e sobre os diálogos que se pode ter", considera ele.

Na última sexta-feira, a Delegação da UE informou ao Itamaraty oficialmente que os preços altos iriam diminuir o nível de participação europeia.

Demanda alta
Vinte anos após a Rio-92, a Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável espera receber 50 mil pessoas entre 13 e 22 de junho. O encontro vai ser focado em dois temas principais: economia verde baseada em desenvolvimento sustentável com erradicação da pobreza e a criação de uma matriz global de desenvolvimento sustentável.

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Na última edição da conferência, realizada em Durban, na África do Sul em dezembro do ano passado, estima-se que cerca de 20 mil pessoas compareceram ao evento, sendo mais de 6 mil representantes de delegações oficiais, quase 2 mil jornalistas e milhares de ativistas de diversas ONGs e entidades de lobby.

De acordo a Associação Brasileira da Indústria de Hotéis (ABIH), o Rio conta com um total de 33 mil quartos. Isso inclui desde albergues a hotéis cinco estrelas. Para as delegações da Rio+20, a procura é sobretudo por hotéis de 4 a 5 estrelas.

A demanda maior do que a oferta está levando a agência de turismo licitada para cuidar das hospedagens, Terramar, a fazer reservas em hotéis fora do Rio, em cidades como Petrópolis e Mangaratiba, para que não faltem vagas para as delegações.

"Temos que garantir hospedagem prioritária para os países que virão. Como país anfitrião, temos que receber bem", diz o secretário do Comitê Nacional de Organização (CNO) da Rio+20, Laudemar Aguiar, lembrando que, além das 193 nações convidadas, o Rio virará sede temporária da ONU durante o evento.

De acordo com Aguiar, o comitê conseguiu negociar com os hotéis um desconto de 10% sobre as reservas oficiais para o período. Mas não tem influência sobre os preços praticados, que sobem por causa da dimensão do evento.

"Não estou querendo justificar, mas existe uma prática de mercado. Os valores em grandes eventos são diferenciados", afirma. "Em relação a eventuais abusos, o Ministério da Justiça foi acionado e isso está correndo entre as partes interessadas. O que nós não queremos é que se verifiquem abusos."
Denúncias apuradas

Na sexta-feira passada, o Ministério da Justiça e o CNO receberam representantes da ABIH e de outras entidades de hotelaria para tratar de denúncias recebidas, sobre o "possível aumento abusivo dos preços cobrados pela rede hoteleira" durante a Rio +20.

De acordo com o Ministério da Justiça, as associações se comprometeram a dialogar com seus representados sobre as preocupações do governo, e uma nova reunião deverá ser feita na próxima semana no Rio.

Segundo Alfredo Lopes, presidente da Associação Brasileira da Indústria de Hotéis, o assunto não começou nesta reunião e nem terminará com ela. "O assunto vem sendo tratado desde o primeiro dia. Mas a ABIH não tem nenhuma ingerência nem mando sobre a parte comercial dos hotéis", destaca.
Lopes afirma que casos de abuso existem ("sempre existe a laranja podre no cesto"), mas que são exceção, estando a maioria dos hotéis trabalhando como manda o protocolo, com a agência oficial encarregada das reservas, e com contratos assinados.

Por enquanto, 12 mil reservas para as delegações oficiais foram feitas pela agência Terramar. Segundo Lopes, o evento fez com que o mês de junho passasse a seguir padrões de uma alta temporada. A ocupação estimada para o período é de 95%, sendo que, deste total, 80% será usado por delegações oficiais de mais de cem países.

Cobrando a conta em casa
"Acho que os donos de hotéis sabem que 50 mil pessoas vão para o Rio e que vão ganhar muito dinheiro com isso. As pessoas vão precisar de quartos e eles põem preços loucos porque sabem que vai ter gente para pagar." Jérôme Poussielgue, da delegação da UE na Rio +20

Em março, um levantamento do site Hoteis.com, que trabalha com reservas de hospedagem, mostrou que os hotéis cinco estrelas do Rio registraram os preços mais altos no mundo em 2011. A tarifa diária média é de R$ 1.178, contra R$ 970 em Nova York, a segunda no ranking.

Em reservas para mais de 100 pessoas na Rio+20, uma fonte de um consulado europeu no Rio afirma que sua delegação terá que pagar entre R$ 800 e R$ 1.400 por diária.

Os preços altos causam consternação pela imagem que isso passa aos contribuintes nos países de origem. Em casa, as delegações poderão ser cobradas pelos altos custos de hospedagem.

"É um evento voltado para a sustentabilidade. Se os jornalistas ficam sabendo que estão sendo pagos preços de 500 ou 600 euros por noite (em hotéis), isso passa uma má imagem. Mas não temos muita escolha, temos que aceitar as propostas das agências e dos organizadores brasileiros. Mas será difícil explicar isso ao nosso público na Europa", afirma ele, preferindo não divulgar o país de origem.

Já as reservas feitas pela Delegação da UE variam entre R$ 1.300 e R$ 1.880. A mais alta é no Fasano, hotel cinco estrelas na praia do Arpoador. Já a faixa mais baixa é em hotéis que não têm instalações e serviços condizentes com o valor, diz Poussielgue.

Ele considera que o problema principal é o preço alto cobrado por hotéis medianos, agravado pela prática de cobrar por pacotes completos, fazendo com que as delegações tenham que pagar por um período longo mesmo que a hospedagem seja só por três dias.

"Não é um problema da organização, é referente ao custo Brasil e à maneira de se trabalhar no Brasil", diz ele, que tece elogios à atuação do CNO e ao trabalho que vem sendo feito para ajudar as delegações.

Alfredo Lopes afirma que a ABIH vem fazendo campanha para que hotéis não subam demais os seus preços. Para ele, isso transmite uma má impressão ao público em geral.

"É o primeiro megaevento de uma série que teremos no Rio e não podemos passar a ideia de que todo mundo quer tirar vantagem ali, em cima da hora. Não vai acontecer, estamos trabalhando com os três níveis de governo para isso", diz.

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