Moradores de bairro da várzea do Tietê temem novos alagamentos no verão

Ainda em período de reforma por estragos de inundações passadas, Luciene Torquato e outras famílias se preparam para a próxima temporada de chuvas

Carolina Garcia, iG São Paulo |

O bairro Jardim Helena, extremo da zona leste, ficou conhecido no País, assim como outros bairros da várzea do rio Tietê, após uma forte enchente que atingiu a região em dezembro de 2010. Os moradores ficaram conhecidos como os “Alagados do Pantanal”, por conta de uma das regiões mais críticas do bairro, o Jardim Pantanal. Na ocasião, as águas atingiram a altura da cintura e demoraram mais de dois meses para baixar. Com a chegada da temporada de chuvas, esses moradores temem que as águas voltem e causem mais estragos.

Medo da chuva: 'Espero pelo pior e posso perder tudo de novo'

Arquivo pessoal
Luciene registrou alagamento do Jardim Helena em janeiro; água ficou represada 3 semanas

Em janeiro desse ano, a professora de educação infantil Luciene Torquato Chaves, de 35 anos, viu novamente sua casa ser invadida pelas águas. Em 2010, seus móveis e pertences ficaram “boiando em uma água com uma corrente fortíssima”. Já neste ano, ela conta que a enchente não teve a mesma intensidade. “Mas ainda alcançou três palmos de altura”, explicou enquanto mostrava as marcas que até hoje podem ser vistas em sua casa.

Os bairros da várzea do Tietê possuem áreas que são consideradas pela Defesa Civil como R3 e R4 (com risco alto e muito alto). Com o histórico dramático na região, não é difícil ver sinais e as marcas das inundações. Azulejos saltados, paredes úmidas e móveis com madeiras retorcidas são lembranças que a família de Luciene tenta esquecer. A residência está em reforma desde março deste ano. O piso está sendo erguido e portas foram cerradas para subir o nível da casa, tentando evitar nova invasão de água.

Segundo a professora, seu pai acredita que o problema está longe de ser solucionado, mesmo com a presença de máquinas que realizam limpeza dos córregos e bueiros do bairro eventualmente. “Nos preparamos para não perder tudo pela terceira vez. Estamos aterrorizados por aqui e a cada chuva lembramos do que já passamos”, explica.

“Não é justo nos tirar daqui”

Carolina Garcia
Rosicleide e Luan, de 1 ano. Ela foi a única em sua rua a recusar o auxílio-moradia de R$ 300

Um estudo do Instituto de Pesquisa Tecnológicas (IPT) citou como as ocorrências mais frequentes em áreas de risco na capital são os escorregamentos em áreas de encosta (735 apresentam esse risco) e solapamento (erosão) de margens de córregos (444 regiões). No Jardim Helena, cerca de 70 famílias lidam com o risco de erosão das margens do córrego na região. Segundo a prefeitura, 200 casas foram desapropriadas e posteriormente demolidas após acordos com auxílio moradia.

Parte da desapropriação ocorreu na rua Freguesia das Varges. O cenário é de um bairro abandonado após uma guerra. Casas demolidas, entulho, lixo, forte mau cheiro e o silêncio, uma rua diferente das outras do bairro. Entre oito casas demolidas, uma permanecia intacta.

A proprietária é Rosicleide Alves, ou Rose como é chamada, de 23 anos, que ao perceber a presença da reportagem logo se definiu como a mais “forte” da rua. “Os outros aceitaram R$ 300 reais [auxílio-moradia] e foram embora. Eu e minha mãe não aceitamos, nossa casa vale muito mais que isso”, conta enquanto brinca com seu filho Luan de apenas 1 ano.

Carolina Garcia
Luciene mostra o nível que a enchente de 2010 alcançou. "Foi assustador", conta

Segundo ela, a casa com três cômodos na beira do córrego é dividida com sua mãe e uma amiga. A construção vale R$ 10 mil e foi presente de sua irmã, adotada por uma família estrangeira há 5 anos. “Minha mãe não quer desfazer do presente da filha por menos do que vale. Claro que temos medo [de morar nas margens do córrego] , mas não é justo tirar a gente daqui”, explicou Rose.

Ainda com o filho no colo, ela mostra o seu quintal em meio a mata, a água escura e os brinquedos espalhados pelo chão. Mas logo Rose se adianta ao dizer que seu filho não brinca ali. “Antes sim, mas não deixo mais. A bebê da vizinha escorregou e caiu no córrego. Salvaram a menina, mas ela ficou bem doente. Não dá para negar, é perigoso”. 

A ideia de deixar o Jardim Helena para viver em um conjunto habitacional é fortemente rejeitada por muitos moradores e amigos de Rose, que se aproximaram ao ver a reportagem. Para eles, “é um ambiente sujo e muito menos seguro que suas casas”, mesmo vivendo em uma área de risco.

Conheça os moradores do Jardim Helena e as condições de suas casas

Outro lado

Procurada pela reportagem, a secretaria afirmou que a Subprefeitura de São Miguel, responsável pela região, vem realizando serviços de limpeza das bocas de lobo e galerias. “Neste ano foram retiradas 3.975 toneladas de terra e entulho dos córregos Lageado e Itaim, que ficam próximos à Vila Itaim”, diz o documento.

A prefeitura informou ainda que, no ano de 2010, foi realizada a construção de um pôlder - um conjunto de terrenos baixos e planos que formam um espaço hidrológico artificial - para evitar que as águas do rio Tietê e do córrego Três Pontes avancem para as áreas da região do Jardim Helena. “O reservatório possui cinco bombas de recalque, que devolverão a água ao Tietê evitando que ela fique represada nos bairros”. 

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