Jovens criam projeto para contar histórias de moradores de rua

Por Beatriz Atihe - iG São Paulo | - Atualizada às

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Página tem mais de 50 mil seguidores e já contou mais de 70 histórias de pessoas que vivem nas ruas da capital paulista

Com jeito ressabiado e voz baixa, os moradores de rua de São Paulo estão sempre dispostos a conversar com quem se mostra disponível para escutá-los. Para contar as histórias dessas pessoas, Vinícius Lima, 18 anos, e André Soler, 21 anos, montaram a SP Invisível, uma página criada nas redes sociais para mostrar a vida por trás dos cobertores.

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Veja a história dos moradores das ruas paulistanas:

Wesley, 30 anos - avenida Ipiranga. 'Tem gente que ajuda, dá um pratinho ou outro, mas tem uns que regulam até água'. Foto: SP InvisívelElisângela - avenida Paulista. 'De tanto apanhar fiquei com cicatrizes, perdi até um pouco da memória por sequela'. Foto: SP InvisívelCeará - rua Monte Alegre. 'Faço isso pra garantir o futuro dos meus filhos, uma tonelada de papelão é igual a mil árvores'. Foto: SP Invisível'Eu conto minha história, mas não falo meu nome, sou mendigo. Nasci na Bahia, tô aqui há 20 anos'. Foto: SP InvisívelMoisés - Terminal Rodoviário Barra Funda. 'Pego um jornal, leio as notícias do Mengo, vejo umas tirinhas, gosto muito do Calvin. E jajá, vou lá pegar uma marmita'. Foto: SP InvisívelCarlos da Silva, 33 anos. 'O que o pessoal tem que saber é que nem todo morador de rua é ladrão'. Foto: SP InvisívelMiguel, 46 anos. 'Sabe? Eu não gosto de pedir dinheiro porque se eu peço, o pessoal tem, não dá e eu fico triste'. Foto: SP InvisívelEdmílson, 31 anos. 'Hoje, minha mulher tá lá com o Ricardão e vários filhos, cada um de um pai'. Foto: SP Invisível Lucas, 19 anos e Eduardo, 36 anos. 'Outros moradores de rua até ajudam ele, mas quem mais ajuda mesmo sou eu, sou afilhado dele'. Foto: SP InvisívelHeleno - Morro do Piolho. 'Não posso dar entrevista não, porque tenho que subir minha casa, tudo de novo'. Foto: SP InvisívelLéo e Lucas - Morro do Piolho. 'Galera tá se acostumando, não foi a primeira vez que pegou fogo aqui'. Foto: SP InvisívelUbiratan, 46 anos. 'Deixa eu ver essa foto aí... Bem que todo mundo diz que eu tenho cara de triste'. Foto: SP InvisívelJoão Alves, 61 anos.  'O amor é tudo. O mundo vai durar pouco, mas não é por causa de aquecimento global e essas coisas não'. Foto: SP InvisívelMaria de Lourdes, 73 anos. 'Quer tirar uma foto minha? Vou sair bonita na foto por causa do meu óculos bonito'. Foto: SP Invisível

Amigos de infância, os jovens sempre tiveram interesse por quem morava na rua. “Um dia, parei para conversar com um rapaz e ele me contou sobre a vida dele e eu achei muito interessante. Foi então que comecei a reparar nessas pessoas que são consideradas invisíveis por muitos”, afirma Vinícius, que está no primeiro ano da faculdade de jornalismo.

Criada em março deste ano, a página já contou sobre a vida de aproximadamente 70 moradores de rua. “Eles, geralmente, falam bastante, porque são poucas as pessoas que param para escutá-los. Acho que isso é uma das coisas que mais me incomoda, as pessoas reparam muito mais nas coisas do que nas pessoas e publicando isso, a gente consegue mostrar como a vida realmente é”, conta o estudante.

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Responsável pelos textos que compõem as imagens, Vinícius conta que a meta é ter uma história por dia e que a abordagem é feita de maneira mais simples possível. “Tudo começa com uma conversa informal. Quando nós percebemos que eles começam a ficar mais soltos, explicamos sobre o projeto”. O desafio maior para os estudantes é conseguir a foto, pois as histórias só são publicadas com as imagens. “É muito compreensível esse medo deles em aparecer, eles já têm tão pouco que acham que as pessoas podem se aproveitar deles”.

Depois de ter conversado com mais de 120 moradores de rua, Vinícius conta que a maioria dos entrevistados é homem e está na rua por causa do álcool. “Depois do álcool, tem o crack, mas também é muito impressionante a quantidade de homem que está na rua por causa de mulher”.

De todas as histórias sobre as quais Vinícius escreveu, as que mais despertaram curiosidade no jovem foram as das pessoas que vão morar na rua por opção. “ Conversei com um cara que discutia muito com a mulher e, para tentar manter de alguma forma uma boa relação com a família, ele saiu de casa e foi para a rua”. Outros casos que também rendem muito na página são os de pessoas que querem continuar na rua. “Alguns falam que ali conseguem comida, bebida e vão vivendo assim”.

A página conta com mais de 50 mil seguidores e já serviu de inspiração para pessoas de outras cidades, como Rio de Janeiro, Curitiba, Campo Grande e Fortaleza. “Nós recebemos recados de pessoas de outros lugares pedindo permissão para ter o nome da página e acompanhar o projeto feito em São Paulo. Geralmente, nós mandamos um modelo e uma das principais dicas que damos é da foto não ser preta e branca, para não deixar a história ainda mais triste”, conta o estudante.

“Eu apanhei tanto da minha madrasta que fiquei com a cabeça ruim”

Uma das histórias contadas pelos estudantes é a da Elisângela. Ela mora em um barraco com seu marido e outra mulher que ela conheceu e abrigou. Apesar de não lembrar a idade, ela sabe bem o que precisa fazer todos os dias no mesmo horário: pegar comida, enquanto seu marido cata latinha. “É assim que a gente vai sobrevivendo”. Quando era pequena, Elisângela, que é mineira, apanhava muito da madrasta e, por isso, veio para São Paulo com o pai e a irmã.

Chegando à capital paulista, o pai delas faleceu. O trauma deixou muitas sequelas em Elisângela, que perdeu parte da memória e ainda tem muitas cicatrizes. Na rua conheceu um rapaz com quem teve dois filhos. O menino morreu ainda bebê e o marido foi morto por traficantes.

Hoje, Elisângela diz não ter sonhos, apenas vontade de conversar com sua filha. “Sinto falta dela, de conversar com ela”.

“Eu preciso de água, porque tenho pedra no rim, mas muitas vezes, as pessoas não dão”.

Wesley, 30 anos, veio de Natal há seis meses, acreditando que conseguiria um emprego e uma vida melhor. “Chegando aqui foi só ilusão, consegui nada”. Sem ter onde ficar, Wesley acha que o mais difícil na cidade é conseguir comida. Com pedra no rim, ele precisa sempre estar tomando água “Tem gente que ajuda, mas alguns não dão nem água”.

Seu maior desejo é voltar para Natal e reencontrar sua filha de 10 anos. O problema é que ele não tem dinheiro para comprar a passagem. “Minha família me aceita de volta, mas exige que eu volte por minha conta. Do mesmo jeito que eu vim, tenho que dar um jeito de voltar”.

Dormindo nas calçadas do centro de São Paulo, Wesley afirma que não confia em ninguém: “apenas nas minhas pernas e em Deus. Agradeço todos os dias por acordar”. Ele sempre liga para a filha, mas se chateia com a pergunta que sempre ouve: “Ela fala: por que você fez isso, papai? Volta logo”.

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