Negócio de R$ 26 mi por ano, mototáxis geram cobiça na Rocinha ocupada

Sob pressão, mil profissionais de 15 pontos tentam se reorganizar após liberação de pagar diária de R$ 13 a “donos” de pontos e ao tráfico

Raphael Gomide, iG Rio de Janeiro |

Raphael Gomide
Mototáxis são alvo de cobiça na Rocinha, após a ocupação pela polícia

A ocupação da Rocinha criou um vácuo de poder no controle dos mototáxis que já gera cobiça. Com mil profissionais em 15 pontos na Rocinha, os mototáxis da comunidade movimentam cerca de R$ 26 milhões por ano, ou R$ 2,16 milhões por mês, entre pagamentos de taxas a “donos de ponto” e receita dos mototaxistas. A favela tem moradias distantes a pé e inacessíveis a carros; como em outras comunidades do Rio, os mototáxis desempenham um papel fundamental no transporte informal dos cerca de 70 mil moradores.

Leia também: Ocupação da Rocinha foi determinada na troca de comando da PM, em setembro

Até a ocupação da Rocinha, os “donos de ponto” de mototáxis cobravam diárias de até R$ 13 aos profissionais – a média é R$ 12. O montante chega a somar R$ 360 mil por mês e R$ 4,3 milhões por ano para os exploradores.

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Panfletos distribuído na reunião em que comandante do Bope disse que taxas não devem ser cobradas sobre mototáxis
Descontada a taxa ilegal, os mototaxistas obtêm, em média, R$ 60 por dia, o equivalente a 30 corridas de R$ 2 cada. O atraso no pagamento resultava em multa de R$ 4 ou R$ 5 por dia, dependendo do ponto. De acordo com mais de uma dezena de motoristas ouvidos pelo iG , parte do dinheiro arrecadado era repassado aos traficantes de drogas locais, pela “concessão” de exploração do serviço pelos “donos dos pontos”.

Os mototáxis tinham ainda a concorrência de “piratas”, motos sem documentação pilotadas por motoristas sem habilitação. “Tem muita moto roubada, todo mundo tinha moto no morro”, disse Edvaldo Neres, da Speed Moto. Mais de 200 foram apreendidas.

A ocupação deve mudar esse panorama, mas os mototaxistas lutam contra sua desorganização e o medo de represálias de traficantes – a confiança no sucesso permanente da pacificação ainda é relativa, após três décadas de domínio do tráfico. Diante da dificuldade de articulação dos profissionais, os ex-“donos” dos pontos e a associação de moradores se movimentam para assumir o controle. Todos querem um pedaço do espólio milionário.

Na ausência de regras, fala do comandante do Bope se torna “lei”

Na reunião com o Bope na quadra que era o QG do tráfico , nesta quarta-feira, os mototaxistas vibraram quando o comandante da unidade, tenente-coronel Renê Alonso, decretou sua “liberdade”: “Vocês não tem de pagar nada a ninguém! Basta estar com a habilitação e documentos da moto em dia, com capacete e colete para circular pela Rocinha. Qualquer tipo de pagamento de taxa ou cobrança não existe.” Houve aplausos generalizados e gritos de comemoração. Eram muitos os capacetes entre as 1.500 pessoas na quadra da rua 1.

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Mototaxistas pagavam R$ 13 por dia a "donos" do ponto para trabalhar
Nas ruas, os profissionais dizem que não pagarão mais diárias, adotando como lei a palavra do oficial PM. Entretanto o caminho dos mototaxistas não é fácil. Os antigos “donos” dos pontos os pressionam para manter o lucrativo negócio, cobrando dinheiro. Embora sumidos, enviam emissários para informar que são agora os “diretores” do ponto, não mais “donos”.

“A gente não tinha voz para falar. Era muita opressão. Tem como ser dono desta calçada (onde fica o ponto)? Eles ganharam o ‘direito’ de explorar do antigo ‘dono’ do morro (traficante)”, explicou um mototaxista da Speed Moto, maior ponto, com cerca de 180 motos, no Largo da Macumba – uma das principais vias de acesso por carro à Rocinha, onde fica a base do Bope.

‘Colete da Richard’s’

O custo diário da vaga nas “cooperativas” da Rocinha chegava a até R$ 13, caso da Speed Moto, chegando a R$ 390 por mês. “Em troca, a gente não tinha nada de benefício, zero. Se ficasse doente ou a moto quebrasse, ainda tinha de pagar a diária dos dias parados, e, se atrasasse, com multa”, disse um. “Pode estar com a perna amputada que tem de pagar a diária”, reclama outro.

Por um colete identificador de lycra, de material simples, os donos do ponto cobravam R$ 50. “É da Richard’s”, ironizou o mototaxista que se apresentou como P.R.

De acordo com mototaxistas, os donos dos pontos diziam que parte do dinheiro ficava com eles, outro montante com traficantes, uma taxa era da associação de moradores e R$ 1 ia para a propina de policiais militares da região. Inicialmente, com a ocupação, a diária caiu para R$ 7 e, desde esta quinta, acabou, a partir da ordem do comandante do Bope, na véspera.

Enviados de donos de ponto ameaçam com volta do tráfico

AE
Residência doa traficante "Nem" passa por vistoria de policiais no Rio de Janeiro
A reportagem ouviu de mototaxistas relatos de intimidações desses enviados, sugerindo a possibilidade de volta dos traficantes ao comando da favela. “Fica ligado que o tráfico pode voltar. A PM está aí, mas os bandidos continuam na área!”, ameaçou um, após a ocupação. Poucos dias depois da operação que ocupou a Rocinha, o receio de uma reviravolta negativa é visível entre os taxistas, alguns com até dez anos na atividade.

“Enquanto o Bope, com fama de incorruptível, está aí, está uma maravilha. Mas depois, quando vierem os PMs normais, só Deus sabe!”, disse P.R.

C.L. não se esquece de quando viu um traficante pisar o joelho e quebrar a perna de um colega em vingança por ele ter levado um policial na garupa durante operação na Rocinha. “Já vi amigo tomar pancada depois de uma operação, quando morreram bandidos. O traficante pisou no joelho e quebrou a perna dele. O cara ficou um tempão com pino na perna e depois foi embora para o Nordeste.”

Também lembra o soco no peito que recebeu após se negar a levar a namorada de um criminoso, porque tinha um passageiro na moto. “Se algum PM do Bope me pedir para levá-lo de moto e digo: ‘Leva a moto que eu pego depois.’ Não vou levar tapa na cara por isso depois.”

Cléber Júnior/Agência O Globo
Bandeiras do Brasil e do Estado do Rio de Janeiro hasteadas na Rocinha
Havia punições também por atropelamentos e acidentes. “Se um mototáxi atropelava alguém, levava surra dos traficantes e perdia o colete por um tempo, como punição. Apanhava de coronha de revólver, cabo de fuzil. E as pessoas riam. Até chinelada na cara de pai de família eu já vi”, contou um rapaz da Speed Moto. “Se o ‘vagabundo’ (criminoso) viesse com moto ‘voado’ e batesse em você, é claro que a culpa era sua! E ainda levava um pau (apanhava)!”, contou outro.

Eles também eram obrigados a transportar traficantes pela favela – até recentemente, sem receber. “Cansei de levar ‘vagabundo’ na carona, mais de 30, 40 vezes. É claro que não pagavam! Falavam: ‘Valeu por fortalecer!’ Só há uns dois meses, depois de uma reunião, viram que todos estavam incomodados e passaram a pagar, pela política de boa-vizinhança.”

“Donos” dos pontos

Os “donos” do ponto Speed Moto, do Largo da Macumba, conhecidos apenas como Gama e Joãozinho estão sumidos do local desde a ocupação, mas têm enviado emissários. Na tarde desta quinta, um rapaz vestia colete amarelo com a inscrição “fiscal”.

Um outro homem identificado como “Preguinho” usava um colete bege com a inscrição de Associação de Motoboys da Rocinha. “Nós apoiamos todos os motoboys”, explicou a finalidade da associação. Quando o iG questionou de que maneira se dava esse apoio, se com seguro de moto ou de saúde, ele gaguejou e disse que “no trânsito”. “Não ajuda em nada, não dá suporte nenhum”, gritou um mototaxista. Em seguida, Preguinho riu nervoso, virou-se e literalmente saiu correndo da reportagem.

Dificuldade de articulação e medo de se expor atrapalham mototaxistas

Raphael Gomide
Mais de 200 motos irregulares foram apreendidas pela polícia na Rocinha
Os mototaxistas reconhecem a dificuldade de se unir e se organizar para não caírem novamente sob alguma forma de exploração, com pagamento de diária sem receber nada em troca. Eles temem que a associação de moradores, mais organizada, assuma a liderança do processo e acabe os deixando novamente sob tutela.

Mas um dos motivos para essa dificuldade de organização é o temor de se expor e depois sofrer retaliações de traficantes, com eventual saída da polícia da Rocinha. “Ninguém quer meter a cara. Todo mundo tem medo de represália”, disse um, sem querer se identificar. Eles estudam a formação de grupos colegiados de cinco por ponto.

Na manhã desta quinta, mototaxistas de Nova Iguaçu, do Sindicato estadual de Mototáxis foram hostilizados por representantes dos donos do ponto: quase houve briga. “Pensaram que queríamos invadir a área, mas não estamos aqui para confrontar ninguém. Oferecemos uma parceria aos colegas da Rocinha para sensibilizar a prefeitura do Rio a legalizar o serviço de mototáxis”, disse o presidente do sindicato, Daniel Lima.

O sindicato oferece, pela mensalidade de R$ 37 seguro contra acidentes, assistência jurídica, seguro pessoal e isenção de IPVA e isenção de pagamento, em caso de doença. “Queremos nos sindicalizar”, disse Miguel Moreira, mototaxista da Rocinha.

Mais tarde, o grupo do sindicato se reuniu com a direção da associação e ouviu um pedido de desculpas pelo mal-entendido. “A associação sempre se antecipa à gente. Os caras vieram de Nova Iguaçu para conversar conosco. Por que a associação os leva lá para cima e não nos chama?”, questionou um profissional.

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