Antes de UPP, traficantes do Fallet já tinham um informante na PM

Segundo a PF, antes da pacificação, cabo informava a traficantes sobre operações e revendia crack que era apreendido em favelas

Mario Hugo Monken, iG Rio de Janeiro |

Roberto Moreyra / Agência O Globo
Policiais patrulham o morro do Fallet, em Santa Teresa
Em meio à crise que se instalou na Polícia Militar do Rio de Janeiro, que culminou com a queda do comandante-geral da corporação, coronel Mário Sérgio Duarte, surge mais uma notícia ruim contra a corporação.

Uma investigação feita pela PF (Polícia Federal) entre agosto do ano passado e fevereiro deste ano e que resultou em processo na 40ª Vara Criminal do Tribunal de Justiça (TJ-RJ) revelou que um cabo do 1º BPM (Estácio) atuava como informante de traficantes do morro do Fallet, em Santa Teresa, na região central da capital, antes da implantação de uma UPP (Unidade de Polícia Pacificadora).

A UPP do Fallet, que também é a responsável pelos morros do Fogueteiro e da Coroa, é a mesma onde está sendo investigado um suposto esquema de corrupção que resultou no afastamento de 35 PMs, entre eles o ex-comandante da unidade, capitão Élton Costa. Segundo as investigações, os policiais receberiam propinas dos traficantes.

Leia também: PM investiga suposto esquema de propina em favela pacificada

Segundo as informações prestadas pela Delegacia de Repressão a Entorpecentes (DRE) da PF, o cabo, que está preso, informava a um dos chefes do tráfico do Fallet, Paulo César Baptista de Castro, o Paulinhozinho, sobre todas as operações que seriam feitas na favela.

Além disso, de acordo com a PF, o PM também repassava aos bandidos drogas que eram apreendidas em outras favelas, principalmente crack. Uma escuta telefônica flagrou o policial negociando este tipo de droga com Paulinhozinho, segundo a denúncia feita pelo Ministério Público Estadual.

"Foi apurado que o PM ia pessoalmente e com freqüência à favela negociar com os traficantes locais. O policial se reportava não só a Paulo César como também a um comparsa dele identificado por Alan", diz nota enviada pela PF.

Segundo a Justiça, o policial também supostamente repassava informações sobre operações que seriam realizadas no morro da Mangueira, na zona norte do Rio, e no Complexo do Salgueiro, em São Gonçalo, na região metropolitana. Os traficantes destas duas favelas negociavam armas e drogas com os bandidos do Fallet, revelam as investigações.

O trabalho feito pela PF resultou em uma denúncia do Ministério Público contra 11 pessoas. Um dos alvos da investigação, o traficante de vulgo Coroa, foi preso em novembro, na ponte Rio-Niterói, com 4 kg de cocaína e R$ 99 mil.

A PF informou que não há indícios de que o PM suspeito tivesse a ajuda de colegas de farda. Segundo a PF, após a implantação da UPP no Fallet, em fevereiro, os traficantes citados nas investigações deixaram a favela.

PMs condenados

Outro caso que ocorreu durante a crise na PM foi a condenação, no último dia 29, de um tenente, dois sargentos e um cabo da Polícia Militar acusados de terem sequestrado um traficante conhecido como Tião da Providência, em Niterói, na região metropolitana, e pedido R$ 50 mil de resgate.

Segundo os autos, o suspeito foi abordado pelos PMs no dia 15 de dezembro na localidade conhecida como Praça de Santa, em Niterói. Na ocasião, os policiais alegaram ter informações de que haveria uma pessoa com as características de Tião praticando assaltos na região.

Tião negou as acusações e, de acordo com o processo, passou a ser agredido pelos PMs. Levou chutes na costela e teve um relógio e um bracelete de prata com ouro subtraídos.

Em seguida, ele foi algemado e colocado em uma viatura e os PMs pediram que Tião entrasse em contato com alguém da família. O suposto traficante, então, ligou para uma irmã. Um dos policiais acusados pediu R$ 50 mil em troca da liberdade de Tião.

Um encontro foi marcado em frente de uma lanchonete na Alameda São Boaventura, no Fonseca, para a entrega do dinheiro. Os familiares de Tião, no entanto, entraram em contato com a 2ª Delegacia de Polícia Judiciária Militar (DPJM), órgão subordinado à Corregedoria Interna da PM.

Um dos PMs acusados foi preso no local e informou aos representantes da Corregedoria a localização dos colegas supostamente envolvidos na trama e que acabaram presos também. O traficante sequestrado acabou escapando e está foragido.

Os policiais foram condenados pelo crime de extorsão mediante sequestro pela juíza da Auditoria Militar, Ana Paula Monte Figueiredo, que decidu manter a prisão preventiva dos acusados.

O tenente envolvido foi punido com 13 anos, dois meses e 12 dias de prisão. O cabo pegou 12 anos e os dois sargentos, a 10 anos, nove meses e 18 dias de detenção. As penas, segundo a juíza, devem ser cumpridas em regime fechado.

Segundo a Polícia Civil, Tião da Providência é apontado como um dos bandidos mais procurados de Niterói e São Gonçalo.

Ele é acusado de comandar o tráfico de drogas no morro Novo México, em São Gonçalo, e responde a dois processos na Justiça por homicídios. De acordo com a polícia, ele age em parceria com o irmão, que é conhecido pela alcunha de Branco.

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