Chefões do tráfico fazem nova divisão de áreas em favelas ocupadas pelo Exército

Polícia recebeu informes de que Marcinho VP cedeu toda sua parte no Complexo da Penha para Elias Maluco. Ambos estão presos

Mario Hugo Monken, iG Rio de Janeiro |

Agência Estado
Elias Maluco quando foi transferido para o presídio federal de Porto Velho, em Rondônia, em 2010
Eles respondem a um processo na Justiça acusados de serem os mandantes da onda de ataques que ocorreu na região metropolitana do Rio de Janeiro que culminou com a ocupação do Exército nos complexos da Penha e do Alemão, na zona norte da capital, em novembro de 2010. Na denúncia, foram chamados de “generais do crime”. E mesmo presos fora do Estado, continuariam mandando.    

Segundo fontes da Polícia Civil ouvidas pelo iG , apesar da presença das tropas militares nos dois complexos e da inauguração das primeiras duas UPPs (Unidades de Polícia Pacificadoras) no Alemão , os traficantes Márcio dos Santos Nepomuceno, o Marcinho VP, e Elias Pereira da Silva, o Elias Maluco, continuam auferindo os lucros da venda de drogas na Penha e no Alemão e fizeram uma nova divisão de áreas.

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De acordo com um policial, Marcinho VP resolveu passar para Elias Maluco o controle das localidades da Cascatinha, Merendiba, Quatro Bicas e parte da Vila Cruzeiro, todas na Penha. Com isso, o domínio na região ficou mais claro: Marcinho VP domina todo o Alemão e Elias Maluco controla as favelas da Penha. Ambos são os principais líderes da facção criminosa Comando Vermelho (CV).

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A policia ainda não sabe o real motivo da nova divisão. Segundo informes, Marcinho VP teria enviado uma carta ao seu braço-direito, o traficante Luciano Martiniano da Silva, o Pezão , comunicando sua decisão de repassar as áreas para o aliado.

Agência Estado
Marcinho VP durante julgamento no Tribunal de Justiça, em 2007
VP está atualmente na penitenciária federal de Porto Velho, em Rondônia. Já Elias Maluco, cumpre pena no presídio federal de Campo Grande (MS).

Na Penha, Elias Maluco, que fo condenado pelo assassinato do jornalista Tim Lopes, da TV Globo, em 2002 ,  já controlava uma parte da Vila Cruzeiro, além dos morros da Fé, Sereno, Chatuba, Caracol e Caixa D´Água.

As quadrilhas de Maluco e Marcinho VP acumularam grandes prejuízos com as apreensões de armas e drogas durante a megaoperação feita pela polícia que antecedeu a ocupação dos dois complexos pelo Exército.

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No entanto, segundo policiais, se recuperaram porque os traficantes conseguiram retirar das favelas vultosas quantias em dinheiro e joias que estavam escondidas ou enterradas.

"Homens de confiança"

De acordo com a fonte ouvida pelo iG, Elias Maluco teria nomeado um "novo administrador" de seus redutos.  Até o carnaval, a tarefa cabia ao traficante Paulo Rogério de Souza Paz, o Mica , que acabou preso em uma casa de veraneio na cidade litorânea de Maricá. Sem Mica, um criminoso conhecido pelo apelido de Grande ou Mais Alto estaria à frente dos negócios.

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Grande, segundo a polícia, seria assessorado por quatro gerentes. Um deles é Alan Ferreira Montenegro, o Da Lua. Os outros aliados seriam os traficantes de apelidos Napão, Escobar e Piná.

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No Alemão, o traficante Pezão seria responsável pela administração para Marcinho VP. No entanto, por ser um dos mais procurados do Rio, ele evitaria ir à favela e delegou funções a um bandido conhecido como 2D, que fica na localidade tocando os negócios. 2D trabalhava como contador da quadrilha.

“Temos informações de que o 2D vai todos os dias ao Alemão de moto escoltado por seguranças”, conta um agente.

Divulgação
Luciano Martiniano da Silva, o Pezão, apontado como braço-direito de Marcinho VP
Compra de armas longas

A volta de Pezão ao comando começou a ser especulada em fevereiro quando o Exército recebeu uma denúncia de que ele teria participado de uma festa no Alemão durante o carnaval. O traficante, no entanto, não foi encontrado.  

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Informes recebidos pela polícia indicam que Pezão, após a ocupação do Alemão em 2010, teria circulado por países vizinhos, como o Paraguai e a Colômbia, para pagar dívidas da facção criminosa Comando Vermelho (CV).

Sua reaproximação aos negócios, de acordo com policiais, ocorreu em razão das prisões de Luís Carlos Machado, o Marreta , e Fabiano Atanázio da Silva, o FB . Após a ocupação, Marreta ficou cuidando da parte do Alemão, enquanto FB, que está preso em administrava a Vila Cruzeiro.

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Há informes de que, há poucas semanas, os traficantes do Alemão e da Penha voltaram a receber "matutos" (fornecedores) para a compra de armas longas, como o fuzil. Segundo fonte ouvida pelo iG , os bandidos estariam usando esse tipo de armamento em alguns becos e também “para escoltar os chefes quando estes vão à favela”.  

Em setembro, u m grupo de traficantes organizou uma invasão ao Alemão para supostamente retirar armas longas que estavam enterradas . Na ocasião, chegou a ocorrer uma intensa troca de tiros com balas traçantes. De acordo com a polícia, o traficante 2D, que hoje cuida dos negócios dentro da favela, teria liderado o ataque.

Questionado pelo iG, a assessoria do Exército afirma não ter informações se grandes traficantes continuam controlando os dois complexos. Segundo a corporação, o tráfico na região está desarticulado. O que existe, segundo a Força de Pacificação, são bocas de fumo itinerantes com os bandidos usando armas pequenas para se protegerem. Na última quarta-feira (18), foram instaladas as duas primeiras UPPs no Alemão, nas comunidades da Fazendinha e Nova Brasília, que contam com 660 policiais.

Marcelo Horn
Complexo de Favelas do Alemão, na zona norte do Rio de Janeiro
Novos entrepostos

Antes os principais entrepostos de drogas do CV, os dois complexos não recebem mais grandes quantidades de entorpecentes.

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Os carregamentos, segundo as investigações policiais, que abastecem o Alemão e a Penha chegariam agora para as favelas de Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, Kelsons, Jacarezinho, Manguinhos e Mandela, todas na zona norte.

A endolação das drogas, de acordo com agentes, ocorreria no morro do Engenho, na mesma região, que estaria sob controle de Pezão. Os entorpecentes chegariam aos dois complexos em pequenas quantidades, no chamado tráfico formiguinha.

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Policiais ouvidos pelo iG disseram que a venda de drogas continua intensa nos dois complexos, voltada principalmente para o consumo interno. Os vendedores das drogas, agora, não recebem mais salários e sim comissão por cada carga comercializada.

Situação indefinida

Vizinho ao Complexo do Alemão, o morro do Adeus, que a polícia acredita ser controlado pela quadrilha de Marcinho VP, estaria sendo alvo de invasões por parte da facção criminosa Amigos dos Amigos (ADA) e milicianos baseados no Complexo da Maré, na zona norte. A favela não é ocupada pelo Exército mas possui uma estação do teleférico que liga a estação ferroviária de Bonsucesso ao Alemão.

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Denúncias sobre ataques da milícia e da ADA no Adeus foram recebidas pela PM que, no entanto, não conseguiu comprová-las quando fez incursões na comunidade. Na semana passada, tiros foram disparados do alto do Adeus. A comunidade deverá ganhar uma UPP (Unidade de Polícia Pacificadora) nos próximos meses.

No final do mês passado, o Bope (Batalhão de Operações Especiais) achou um campo de paintball no alto do morro. Suspeita-se que o local fosse usado para treinamento dos traficantes.

Segundo um policial ouvido pelo iG , o Adeus nunca foi um morro de interesse para o CV já que possui forte identificação com a ADA em razão de ser o morro onde o fundador da facção. Um traficante conhecido como Pardal, do CV, seria o responsável.

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