Em "Mascarados", pesquisadora e jornalistas desvendam a tática violenta de manifestação que dominou o País em 2013

O clima de guerra vivido pelo País durante os protestos de 2013 e antes da Copa do Mundo foi gerado, em boa proporção, pelos black blocs. Para a pesquisadora Esther Solano, umas das maiores especialistas sobre o tema no Brasil, ouvir os jovens que foram rotulados como “baderneiros”, “filhinhos de papai” e “bandidos” foi uma maneira de derrubar o muro que a cobertura midiática construiu entres eles e a sociedade. A especialista, ao lado dos jornalistas Bruno Paes Manso e Willian Novaes, assina o livro “Mascarados – A verdadeira história dos adeptos da tática Black Bloc” (Geração Ed.), lançado nesta terça-feira (4), em São Paulo.

Desafio: o futuro dos black blocs nas manifestações de rua

Divulgação
"Mascarados" lançado nesta terça-feira (4), em São Paulo, conta a história da tática Black Bloc

Esther, que é doutora em Ciências Sociais pela Universidade Complutense de Madri e professora de Relações Internacionais da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), acompanhou durante um ano in loco a atuação dos jovens em protestos. Ao iG , ela disse que foi muito criticada pela pesquisa já que ouviria “vândalos e pessoas que não têm mensagens”. “Já nas primeiras páginas deixo claro que não compactuo com o que eles fazem. A ideia não é defendê-los, nem ser contra ou a favor da violência, mas entender o fenômeno social que tomava as ruas”, diz.

Ao lado das impressões da cobertura jornalística e da atuação policial, narradas por Bruno Paes Manso, o livro também conta com sete perfis de adeptos que se destacam entre os jovens das manifestações, escritos por Willian Novaes. A frase “sem a máscara não matamos nem uma barata", extraída da entrevista com o jovem Cris (nome fictício), de 21 anos, morador de Brasilândia, na zona norte de São Paulo, revela a fragilidade da tática e de seus defensores, que se consideram muitas vezes vítimas da violência policial em bairros da periferia. “Quando eles vão para a rua e jogam uma pedra em um policial é como se fosse, nas palavras deles, uma forma de vingança por aquilo que eles passaram. Todos têm muita raiva da Polícia Militar, tratada como desumana e assassina”, explica Esther.

Veja imagens das manifestações de junho de 2013:

O livro também dá voz à experiência de alguns PMs, que disseram viver um “abandono nas ruas”, criticando a ausência de mediadores durante os conflitos. “De alguma forma os black blocs se sentem vítimas da violência policial. Mas a polícia também se sente vítima do abandono das autoridades e seus gestores políticos. Era uma clara situação de intolerância”. Entre os entrevistados dos autores está o coronel Reynaldo Simões Rossi, que foi agredido com socos, pontapés e pauladas no dia 25 de outubro de 2013, no centro de São Paulo. O episódio se tornou um símbolo da violência praticada pelo grupo nas ruas.

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Hoje mais tímida, a atuação de uma nova geração da tática poderá ser vista nos próximos meses, aposta a pesquisadora. O agravamento da crise hídrica no Estado de São Paulo e a aproximação dos jogos olímpicos de 2016 podem criar, segundo ela, novos momentos de tensão social - o palanque necessário para a prática da violência em espaços urbanos. "A tática como uma forma de manifestação que tem o enfoque de violência pode ser utilizada em outras ocasiões. Eu consigo ver novos episódios com black blocs. Momentos de tensão popular são propícios para isso", conclui. 

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