Sociedade brasileira atual encontrou entre seus filósofos alguns dispostos a não mudar nada, mas apenas reiterar o que é pensado e tomado como verdade, diz Ghiraldelli

Ronald Golias contou certa vez que na TV aparecia muita gente boa, mas que o aproveitamento era pequeno. Ele havia visto um rapaz que chegou aos estúdios dizendo que imitava passarinho, e que foi rapidamente dispensado com o seguinte comentário: “o que não falta aqui é gente imitando passarinho”. Aí o rapaz virou as costas, abriu a janela e foi embora voando. “O cara imitava mesmo!” - dizia Golias.

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Golias era especialista nesse tipo de piadinha. Mas meu assunto aqui não é a piada e, sim, o específico conteúdo de tal chiste. Passarinho sabe fazer muita coisa que é própria de passarinho, por que alguém que imita passarinho teria de imitar o canto?

Pensar assim, segundo o inesperado e, no entanto, relativamente cabível, é exatamente o que o filósofo (ou o cientista) faz quando é visto como não mais respondendo uma pergunta importante, mas mudando o rumo e a “lógica” que até então garantia aquele tipo de pergunta. Uma boa parte daquilo que fica na história como sendo o passo dado por um intelectual genial, não é outra coisa senão o esquecimento completo de uma pergunta muito importante, substituída então por perguntas de outra “lógica”. Thomas Kuhn chamou isso de “mudança de paradigma”. Não é alguma coisa feita por qualquer um, embora em filosofia seja exatamente o esperado. Espera-se do filósofo que ele pense não somente o novo, mas que provoque uma revolução no pensamento.

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Todavia, a sociedade brasileira atual encontrou entre seus filósofos alguns dispostos a não mudar nada, mas apenas reiterar o que é pensado e tomado como verdade. A regra básica única cultivada por esse pessoal é a seguinte: “sejamos realistas, não utópicos e ingênuos, porque se não formos assim, nos apresentaremos como os 'bonzinhos', os que querem mudar a ordem; ora, toda vez que o mundo muda, muda para pior.”

Nossa sociedade atual fez emergir alguns filósofos aparentemente rebeldes, mas que gastam seus joelhos no altar da reiteração do modo de pensar vigente pela maioria. Eis três assuntos atuais e o modo como esses intelectuais os tratam.

- Os animais sofrem e devem continuar sofrendo, passando por testes em laboratórios - essa é a realidade e ponto. Ou isso ou então a volta às cavernas.

- Os black blocs são todos bandidos, a “violência teatral” não leva ninguém a pensar em alternativas para a nossa sociedade cheia de problemas.

- A violência policial é inerente à polícia que, enfim, enfrenta bandidos violentos, é natural então que a polícia erre um tiro aqui e ali e mate um inocente - são efeitos colaterais da guerra urbana.

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Nesses últimos dias essas três verdades se tornaram mais verdades que quaisquer outras. 99,9% dos jornalistas repetiram esse senso comum. Alguns de modo polido, outros de modo raivoso e ressentido, e uns terceiros de maneira descabelada. Triste isso. Não há coisa pior que ver filósofos abaixando a cabeça para esse pensamento tacanho, o pensamento de quem dispensa o imitador de passarinho.

Estamos vivendo uma época em que os filósofos querem antes de tudo de esquerda ou de direita, garantindo assim um lugarzinho social. Isso já é esquisito para um filósofo. Mas não é, ainda, o pior. O pior mesmo em nossa época é que estamos em plena era do filósofo que tem uma coceira alérgica quando escuta a expressão “que tal pensarmos por outra lógica?”.

Por que imitar passarinho é imitar um “piu, piu”? Por que imitar um gato é antes miar que cair de vários metros sobre quatro patas? Por que casar é juntar um homem e uma mulher? Ora, não é! Por exemplo, casar: até bem pouco tempo casar era juntar um homem e uma mulher. Ninguém podia pensar em outra coisa! Hoje o casamento entre pessoas do mesmo sexo está se tornando corriqueiro e, por causa disso, as características do que pode ser “a vida de casado” está saindo da lógica até então vigente e sacrossanta. O impossível se tornou possível? Mais que isso: o impensável se tornou pensável e realizável!

Exatamente essa maneira, a de imitar passarinho voando e não simplesmente fazendo “piu piu”, que sempre foi a práxis dos filósofos, que é agora o que não pode mais existir. Em nome da “realidade”, da idolatria do status quo e da incapacidade de exercer o pensamento para além das bordas de uma fotografia 3X4, vários filósofos atuais estão ficando só com o título de filósofo, deixando a práxis se esvaziar. Nessa toada logo estaremos vivendo o dia em que só o filósofo “chapa branca” poderá ser filósofo. E haverá “chapa branca” no governo e fora dele. Eles serão os ativistas do não-ativismo.

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Paulo Ghiraldelli, 56, filósofo, escritor, cartunista e professor da UFRRJ

Blog: http://ghiraldelli.pro.br

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