O julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) no Supremo Tribunal Federal (STF) e de mais sete réus por suposta tentativa de golpe de Estado tem atraído atenção pelo peso político e jurídico das acusações, mas também pela postura adotada por alguns advogados de defesa. Entre sustentações técnicas e embates formais, as defesas, em certos momentos, adotaram um tom descontraído nas falas.
Em meio às sustentações orais das defesas, momentos de descontração ganharam destaque. No segundo dia do julgamento, Cezar Bitencourt, que defende o tenente-coronel Mauro Cid, protagonizou uma cena inusitada ao cumprimentar o ministro Luiz Fux e tecer elogios ao magistrado. A fala arrancou risadas da plateia e Flávio Dino brincou ao dizer que “não aceito nada menos que isso”.
Em outra ocasião, o ministro Flávio Dino também proporcionou um respiro em meio ao julgamento. Quando o telefone de um dos advogados de defesa tocou, o magistrado reagiu dizendo que era “a sogra”. Além desses momentos, outros episódios descontraídos ocorreram ao longo das sessões. Para especialistas, essa linguagem brincalhona pode não ser mero acaso, mas uma estratégia calculada pelas defesas para tentar influenciar os ministros e aliviar a tensão que ronda um processo de tamanha relevância.
De acordo com o advogado criminalista Amaury Andrade, a leveza no discurso pode, sim, ser utilizada como recurso estratégico, desde que aplicada com cautela. “O tom descontraído pode ser usado para criar empatia com os julgadores, tornar a exposição mais leve e transmitir segurança”, explicou. Em um julgamento cercado de pressões políticas e ampla cobertura midiática como é o de Bolsonaro, essa abordagem poderia ajudar a reduzir a tensão, evitando que a defesa seja vista como excessivamente agressiva ou rígida.
Ponto de equilíbrio
Para Andrade, porém, a estratégia não pode ser usada deliberadamente e requer um limite. O advogado aponta que a descontração não pode ser confundida com informalidade ou desrespeito. “É preciso manter seriedade e respeito às formalidades da Corte. Caso contrário, a estratégia pode causar efeito inverso, passando a impressão de despreparo ou de banalização do caso”, alertou.
Na prática, a “leveza” mencionada pelo especialista se traduz em técnicas de oratória, como pausas bem colocadas, metáforas simples, elogios, trocadilhos e tom de voz sereno — recursos capazes de humanizar a defesa sem comprometer a gravidade do julgamento. “A ideia não é minimizar os fatos, mas construir uma comunicação acessível, clara e persuasiva”, acrescentou Andrade.
No caso específico de Bolsonaro, a estratégia precisa ser ainda mais calibrada. A relação conturbada entre o ex-presidente e parte dos ministros do STF pode transformar qualquer excesso em arma contra a própria defesa. “Diante da gravidade das acusações e do histórico de atritos, um tom leve em demasia pode ser lido como desrespeito ou até provocação”, ressaltou o especialista.
Por isso, a linha entre aliviar a tensão e comprometer a seriedade é tênue. Para o criminalista, o segredo está em harmonizar leveza e solidez jurídica. “É possível humanizar a defesa, mas sem abrir mão da clareza argumentativa, da firmeza e da sobriedade necessárias a um julgamento dessa magnitude”, destacou.
Ferramenta decisiva
A sustentação oral é considerada um dos momentos mais estratégicos dentro do STF. É nela que advogados podem reforçar teses, esclarecer dúvidas levantadas durante o julgamento e responder diretamente a pontos da Procuradoria-Geral da República (PGR). “Esse é o espaço onde a defesa dialoga com os ministros em tempo real, com potencial de influenciar o convencimento e até mudar votos”, explicou Andrade.
Além disso, em processos de grande repercussão, como os de Bolsonaro, o impacto da fala não se limita aos ministros, ela também reverbera na opinião pública. Por isso, o tom adotado pelos advogados ganha ainda mais peso, já que pode moldar percepções para além do plenário.
Dessa forma, a adoção de um tom mais leve não é improviso. Trata-se de uma tentativa de abrir canais de empatia e transmitir serenidade diante de um processo de alta complexidade política e jurídica. “Quando bem dosada, a descontração pode reforçar a credibilidade do advogado, demonstrar domínio técnico e, sobretudo, conquistar receptividade”, avaliou o especialista.
Mas a margem de erro é mínima. Em um julgamento acompanhado de perto por ministros, jornalistas e sociedade, a linha entre o “estratégico” e o “inadequado” é facilmente cruzada. E, nesse cenário, qualquer deslize pode custar caro para os réus.
Assim, segundo Amaury Andrade, a fórmula é simples, mas exige habilidade. “É preciso dosar humanidade e técnica, ou seja, aliviar a tensão para conquistar atenção e empatia, mas sem jamais banalizar os fatos. O advogado que atinge esse equilíbrio transmite preparo e reforça a legitimidade da defesa em um julgamento de altíssima relevância constitucional”, concluiu.