João Doria desistiu de pré-candidatura nesta segunda (23)
Reprodução / redes sociais - 23.05.2022
João Doria desistiu de pré-candidatura nesta segunda (23)

João Doria (PSDB) está fora - pelo menos por enquanto - das eleições presidenciáveis de 2022 . O anúncio, feito pelo ex-governador de São Paulo no início da tarde desta segunda-feira (23) , pegou grande parte da opinião pública de surpresa, e parece ser resultado de uma forte pressão sofrida pelo empresário desde que  venceu, à contragosto de uma ala importante do partido, as prévias que definiram seu nome como cabeça de chapa.

A pesquisadora e especialista em opinião pública Jacqueline Quaresemin avalia a desistência e como deve se desenhar o cenário político a partir de agora.

"Doria nunca foi uma unanimidade no PSDB, desde as eleições de 2016 . Esse ano, ele tinha na mão o triunfo importante que foi a posição que adotou por causa da covid-19, enfrentando o executivo federal, buscando ampliar a vacinação no estado, tentou garantir e garantiu para o Brasil inteiro, ele teve uma posição extremamente importante naquele contexto, isso era um capital absurdo, e por uma disputa interna ele acaba desistindo da candidatura", avalia.

"A posição dele nas pesquisas de opinião também é resultado de não ser uma unanimidade. Quando um partido assume uma candidatura, dá essa capilaridade em âmbito nacional e faz com que esse nome comece a crescer. O resultado das prévias foi questionado, e foram se abrindo rachaduras perigosas no ponto de visto da consistência. Essa desistência por pressão interna era prevista. Do ponto de vista da democracia, o PSDB sai perdendo. O partido teria que discutir isso com mais critérios políticos, porque sabemos que, por enquanto, a intenção era tirar o Doria da disputa."

Para Jacqueline, o ex-governador sai magoado da situação, mas mesmo assim, não deve se afastar totalmente da vida pública.

"O Doria sai magoado dessa situação. Ele apostou tudo na candidatura, se empenhou como governador. Não sei se ele vai ocupar outro lugar, por que se a disputa interna se mantiver, a resistência a ele continua. Mas acredito que ele continuará se posicionando politicamente por algum canal. Ele tem uma posição importantíssima, se sinalizar apoio a este ou aquele, terá um peso sim."

Força de Eduardo Leite

Bem avaliado como governador do Rio Grande do Sul e segundo colocado nas prévias do PSBD, Eduardo Leite aparece como sucessor natural como representante do partido na possível chapa com Simone Tebet (MDB), que será discutida ainda nesta semana .

A aliança é o único caminho do partido para beliscar uma boa colocação no pleito, na avaliação da professora Jacqueline.

"O PSDB não tem outra alternativa se não compor uma terceira via. A eleição está cristalizada, de certo modo, nos dois primeiros colocados, dois nomes fortes, um atual presidente e o outro ex-presidente, que saiu aprovado por 80%. Em um contexto de inflação alta, situação de instabilidade na geopolítica internacional, a própria questão de alimentos no mundo, o cenário é muito favorável a uma candidatura de oposição. Ao PSDB, cabe buscar uma aliança já que se coloca em uma posição de centro."

Simone Tebet como candidata

Analistas de política creem nessa chapa - de Simone como candidata à presidência e Leite como vice - como uma das decisões mais viáveis nesse momento. Jacqueline afirma que a senadora é um nome "interessante", mas avalia que o machismo pode pesar contra a candidatura.

"A Simone Tebet é uma candidata interessante, pode se tornar mais, mas o eleitorado é machista. É um fator que tem que ser trabalhado, o machismo é forte, e mesmo que ela se coloque como terceira via, como de centro, junto com PSDB e outros partidos, teria que trabalhar essea aspecto", aponta ela. Ciro Gomes (PDT), que por enquanto tenta alçar voo sozinho, pode atrapalhar os planos.

"Entre Simone e Ciro, acredito que ele cresce mais enquanto alternativa, porque ele é muito preparado no ponto de vista da gestão pública - exceto se o MDB, o PSDB, e as forças que vão compor essa candidatura assumam efetivamente e joguem uma estratégia de marketing pesada sob o nome da Simone. Desta forma, acho que ela pode crescer muito", completa.

Nomes do PSDB comentam

O iG entrou em contato com o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso para uma análise da conjuntura, mas ele preferiu não comentar. "O presidente prefere não se manifestar neste momento, vai aguardar que o quadro fique mais claro", disse a assessoria de FHC.

Eduardo Leite disse que ainda não iria se manifestar. Arthur Virgílio, que também disputou as prévias, falou por nota.

"O que aconteceu com o Doria foi uma atitude equivocada do partido.O Doria tinha uma oposição interna que não o deixava em paz. Então é difícil trabalhar assim, além de existir uma polarização entre Lula e Bolsonaro complicada de ser abatida. Não temos que tratar a política na base da simpatia ou antipatia e sim de estratégias. Com a saída do Doria, em nome da dignidade do PSDB, me parece que as prévias devam ser arquivadas, retirada do estatuto do partido já que elas nada valem. Então, prévias nunca mais. O PSDB enfrenta uma crise de identidade, está com o tamanho menor do que imagina que tenha. Agora, se for lançar outro nome,que lance com convicção e com o compromisso de todos apoiarem”, afirmou o ex-prefeito de Manaus. 

Já Aécio Neves diz que a situação obriga o partido a rediscutir a postura no pleito de 2022. "A decisão do ex-governador João Doria de afastar-se da disputa presidencial obriga o PSDB a reabrir a discussão sobre como vamos enfrentar as próximas eleições. Continuo defendendo, como sempre fiz, que tenhamos candidatura própria", afirmou. 

"A partir da decisão do ex-governador paulista, o partido está em condições de analisar outros nomes da nossa legenda que possam liderar não só o PSDB, mas também importantes setores do centro democrático, nesse momento grave da vida nacional. Lamento que a reunião da executiva nacional tenha sido adiada. Espero que possamos nos reunir o mais rapidamente possível para debatermos de forma clara e democrática os caminhos para o nosso futuro. O PSDB nunca teve dono e não será agora, nesse momento grave da vida nacional, que terá", prossegue em nota enviada à reportagem.

"É hora de aproveitarmos esses últimos acontecimentos para reconstruirmos a unidade do PSDB em torno do único caminho que permitirá que o partido continue a cumprir sua trajetória em defesa do Brasil, ou seja, com uma candidatura própria à Presidência da República."

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** Filha da periferia que nasceu para contar histórias. Denise Bonfim é jornalista e apaixonada por futebol. No iG, escreve sobre saúde, política e cotidiano.

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