Bolsonaro em live em que promoveu desinformação contra urnas eletrônicas
Reprodução/TV Brasil
Bolsonaro em live em que promoveu desinformação contra urnas eletrônicas

A preparação para a live em que o presidente Jair Bolsonaro (PL) promoveu teorias da conspiração contra as urnas eletrônicas envolveu reuniões no Palácio do Planalto com um empresário autor de planilhas com supostos indícios de fraude no sistema eleitoral e com um perito da Polícia Federal (PF) que negou conhecer qualquer tipo de adulteração no processo.

Os depoimentos constam no relatório da PF que concluiu que Bolsonaro promoveu desinformação na "live" ocorrida em julho de 2021 na qual fez acusações sem provas contra as urnas eletrônicas. De acordo com a PF, o processo de preparação da live foi "enviesado", por reunir informações que apontassem para vulnerabilidade ou supostas fraudes, ignorando os dados que atestavam o oposto.

Na transmissão, apesar de reconhecer que não tinha provas, ele apresentou uma planilha que levantava suspeitas de que a eleição de 2014, quando Dilma Rousseff (PT) venceu Aécio Neves (PSDB), teria sido fraude. O autor da planilha apresentada por Bolsonaro na live é o técnico em informática e empresário Marcelo Abrieli.

Em depoimento à PF, Abrieli afirmou tinha medo que o "comunismo tomasse o Brasil” com a eleição do PT naquele ano. Desconfiado do resultado favorável à esquerda, começou a analisar os dados da apuração dos votos na tentativa de identificar “padrões matemáticos” para detectar “alguma possível manipulação dos votos”.

Ao identificar sozinho dados que apontariam para tal manipulação, submeteu suas conclusões ao “crivo de amigos matemáticos” que chancelaram sua análise.

Em 2018, ele afirma que através do deputado federal Luiz Philippe de Orléans e Bragança (PL-SP) levou suas supostas provas de fraude ao Comando Militar do Sudeste, principal unidade do Exército em São Paulo. A unidade era então comandada pelo general Luiz Eduardo Ramos, atual ministro da Secretaria-Geral da Presidência de Bolsonaro.

No final de 2019 ele diz ter sido chamado por Ramos para uma reunião no Palácio do Planalto com o presidente Bolsonaro em que deveria apresentar os indícios de fraude nas urnas eletrônicas que havia descoberto em 2014. Segundo Abrileri, além de Ramos e Bolsonaro, participaram “cerca de outras oito pessoas”, que não soube informar quem se tratavam.

Abrileri afirma que por volta de junho ou julho de 2021, às vésperas da live de Bolsonaro, o voltou a receber uma ligação de Ramos pedindo que apresentasse novamente sua análise sobre a eleição de 2014. Ele teria o colocado em uma ligação em viva-voz com o presidente Bolsonaro, “avisado que estavam reunindo várias informações sobre possível fraude nas urnas eletrônicas”.

Durante a chamada ele teria novamente explicado as informações descobertas, bem como repassado a planilha elaborada com as supostas provas de fraudes.

Também às vésperas da live, seis dias antes de Bolsonaro realizar a transmissão, dois peritos da PF foram levados para uma reunião no Palácio do Planalto, na tentativa de Bolsonaro achar provas contra a urna eletrônica.

Um deles, o especialista em crimes cibernéticos e responsável por testes nas urnas eletrônicas Ivo Peixinho. Em depoimento à PF, ele afirmou que foi apresentado ao conjunto de indícios e teses que Bolsonaro usaria na transmissão e informou que não tinha condições técnicas para avaliar a planilha e sugeriu que tal documentação fosse encaminhada para a Polícia Federal para que pudesse ser analisada pelo setor específico.

Ele afirmou ainda que entre 2019 e 2020 o governo federal já havia lhe procurado por meio da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) buscando informações sobre a segurança do sistema eleitoral brasileiro.

Peixinho afirmou que produziu um relatório sobre as atividades da PF sobre o tema e os testes públicos do TSE. Posteriomente, na live do dia 29 de julho, o então ministro da Justiça Anderson Torres utilizou alguns desses relatórios para tentar corroborar a tese de Bolsonaro sobre as fraudes nas urnas

Porém, no depoimento à PF, o perito afirmou que "de forma alguma" os relatórios indicavam qualquer tipo de fraude e que falhas identificadas em testes nas urnas foram corrigidas pelo TSE.

Segundo Peixinho, além dele e do outro perito, participaram da reunião o presidente Bolsonaro, Anderson Torres, o ministro do Gabinete de Segurança Institucional, Augusto Heleno, o então diretor da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), Alexandre Ramagem, Luiz Eduardo Ramos e seu assessor, o coronel Eduardo Gomes (que apareceu posteriormente na "live"), além de assessores que ele não soube identificar.

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