Prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella (Republicanos)
Agência Brasil
Prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella (Republicanos)

A denúncia do Ministério Público (MP) do  Rio contra o  prefeito Marcelo Crivella (Republicanos) e outros investigados no caso chamado de "QG da Propina" mostra que o esquema de corrupção instalado na administração da cidade teria continuado em curso mesmo após a segunda fase da Operação Hades, em setembro.

Na ocasião, Crivella foi alvo de mandado de busca e apreensão , bem como outros investigados no caso, incluindo o empresário Rafael Alves. Ambos foram presos nesta terça-feira (22) .

Os promotores identificaram que, além de o "balcão de negócios" envolvendo empresários ter continuado a funcionar na  gestão municipal até pelo menos três meses atrás, envolvidos nos supostos crimes teriam tentado adulterar provas das irregularidades em outubro.

"Merece destaque o fato de que, mesmo após a realização da segunda fase da Operação Hades , investigados continuaram a encaminhar as notas frias e pressionar os executivos do grupo Assim Saúde a manter os pagamentos de propina, chegando a comparecer à sede da empresa para cobrar a manutenção do esquema", afirma trecho da denúncia do MP entregue ao Tribunal de Justiça (TJ) do Rio e obtida pelo Globo.

Em outra passagem, o documento afirma que parte dos investigados no esquema atuou pelo menos 31 vezes, entre março de 2018 e setembro de 2020, para solicitar promessas de propinas ou aceitar vantagem indevida pagas por uma das empresas envolvidas no "QG da Propina", a Assim Saúde.

Fundada em 1988, a companhia opera planos de saúde e possui, segundo o seu próprio site oficial, mais de 380 mil clientes. De acordo com o Ministério Público , a Assim esteve em "ostensivos esquemas de corrupção instalados dentro do Previ-Rio". O pagamento de propinas teria garantido vantagens à operadora na celebração e prorrogação de contrato com o nstituto de Previdência e Assistência da Prefeitura do Rio (Previ-Rio).

Detalhes sobre a relação da empresa com a organização criminosa indicada pelo MP constam em acordos de colaboração assinados com Carlos Eduardo Rocha Leão, ex-superintendente da Assim , e João Carlos Gonçalves Regado, que também foi executivo da empresa.

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Adulteração de provas

O MP afirma à Justiça que, além de continuar cobrando propinas pelo menos até setembro, o grupo atuante na prefeitura esteve na sede da Assim Saúde no dia 20 de outubro deste ano. Registrada no sistema de recepção do local, a visita teria tido a intenção, conforme afirma o MP, de cobrar a manutenção do esquema e tentar adulterar provas do "QG da Propina".

Rafael Alves participou da visita junto a Adenor Gonçalves e Christiano Stockler, todos réus no processo instaurado pelo TJ do Rio e acusados de operar o esquema de propinas junto a empresas.

No encontro em questão, Gonçalves teria proposto a executivos da Assim que adulterassem sua contabilidade para encobrir vestígios dos pagamentos direcionados à organização criminosa.

A adulteração seria feita através do cancelamento de notas fiscais e da simulação de uma aquisição de créditos pela Assim Saúde, referentes à massa falida da Universidade Gama Filho, que figuraria posteriormente como justificativa dos pagamentos em favor do grupo.

A ideia foi rejeitada por executivos da Assim, conforme narraram ao MP testemunhas que trabalham na empresa e que foram indicadas aos promotores pelos colaboradores Carlos Leão e João Regado.

Há mais de dois anos, o início do pagamento de propinas pela Assim aos integrantes do "QG da Propina" teria sido acertado num encontro sem data especificada pelo MP, na sala de presidência da Riotur , na Cidade das Artes, na Barra da Tijuca, Zona Oeste do Rio de Janeiro. Rafael Alves despachava neste local, mesmo sem ter cargo público na administração de Crivella. O irmão dele, Marcelo Alves, comandou a Riotur durante boa parte da gestão do prefeito.

No acerto com a Assim, ficou decidido qu a empresa repassaria aos envolvidos 3% do que recebesse em contratos com o município. Houve pressão, conforme relataram executivos da empresa ao MP, para que esse percentual fosse de 5%. Ao todo, a operadora de planos de saúde recebeu R$ 50,4 milhões da gestão Crivella , em dois anos e meio.

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