Alex Oliveira / FramePhoto / Agência O Globo
"Não posso aceitar com muita facilidade aquilo que as pessoas que ajudaram a destruir o país estão querendo fazer", defende Lula

Nos últimos dias, políticos de diferentes partidos, alguns até adversários entre si, têm reunido forças pela criação de uma frente ampla pela democracia  e contra ações do presidente Jair Bolsonaro (sem partido). Um importante nome, no entanto, se mostra contra essa mobilização – o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

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"Não posso aceitar com muita facilidade aquilo que as pessoas que ajudaram a destruir o país estão querendo fazer", afirmou Lula no dia 1º de junho. 

A fala do petista se refere aos motivos para não assinar um manifesto a favor da democracia . Uma das razões do ex-presidente é de que o texto foi assinado por pessoas que foram a favor do impeachment da ex-presidente Dilma (PT) .

A pesquisadora da PUC-SP Rosemary Segurado, doutora em ciências sociais com pós-doutorado em comunicação política , afirma que a ausência de Lula na frente ampla traz impactos negativos para a mobilização. "Por mais que o Lula tenha perdido o prestígio, o que ele ainda tem é muito grande", explica.

"Ele é representante de um setor importante da sociedade que se não estiver presente em uma frente ampla , ela fica manca, com uma perna a menos", analisa.

Para ela, o antipetismo não afetaria a frente ampla caso Lula se juntasse à mobilização. "Os setores mais antipetistas, eles não vão embarcar [na frente ampla], eles já estão do outro lado. A frente mais ganha do que perde com o Lula", explica.

Já o petista " perde enormemente" se ele não aderir o movimento, segundo ela. Na visão da professora, o ex-presidente acabaria se isolando mais ainda politicamente.

"Ele perde em não ampliar interlocutores, em não diversificar sua interlocução, e perde porque se essa frente ganha uma força importante na sociedade ela vai estar na agenda pública . Se o Lula não estiver nisso, ele não vai ser ouvido".

Contudo, a pesquisadora analisa uma resistência na articulação da frente ampla. O apoio do petista ao movimento "daria palanque para o Lula crescer e o Lula é bom de palanque".

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Além disso, ela aponta que, na visão do movimento, Lula acabaria atrapalhando articulações por um nome de centro para fazer frente a  Bolsonaro  em 2022.

"Eu gostaria muito que tanto Lula e PT, como esses outros setores, se desvinculassem do projeto para 2022 e pensassem se esse país aguenta chegar em 2022 com o nível de desmando desse governo", afirma.

Lula ao deixar prisão
Gibran Mendes / CUT Paraná

Lula ao deixar prisão, em 8 de novembro de 2019

Na análise da cientista política Tathiana Chicarino, professora da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo, ela também enxerga que a frente ampla pode querer distância de Lula.

"A frente ampla, não sendo nem de direita nem de esquerda , não queira se associar muitas vezes ao nome desse partido", avalia. Chicarino explica que o PT "consta no imaginário coletivo como o grande agente de corrupção no Brasil" e – apesar de afirmar que não se pode "colocar toda a culpa pela corrupção no colo do PT" – isso pode afastá-lo de outros partidos.

Contudo, a professora explica que Lula seria muito importante para a frente ampla . Isso devido ao apoio dos que se identificam com ele e também por sua influência no PT – que é o partido com mais deputados dentro da Câmara e que também tem uma militância organizada forte, segundo ela.

A cientista política cita como um dos motivos para que Lula não tenha aderido à mobilização a falta de um objetivo específico do grupo.  "Não está colocado ainda nessa frente ampla se o objetivo é a retirada do presidente da República e se isso equivale à retirada do Mourão".

"É super importante a gente ter essa frente ampla, a gente se posicionar a favor da democracia e contra o autoritarismo, no entanto, como analista política eu começo a detectar a ausência desse objetivo específico que pode fazer com que outros autores – e aí especificamente o PT e o Lula – não se posicionem ainda", avalia.

Ela também enxerga que motivações pessoais do petista podem ter gerado esse distanciamento desse movimento. "Do ponto de vista pessoal, ele realmente tem algumas questões que são relevantes para pensar a ação dele".

"Ele tem todas as justificativas possíveis para ter um certo rancor a algumas dessas lideranças políticas, especialmente o Fernando Henrique Cardoso e outras lideranças que estão à frente dessa mobilização e também em relação à parte da imprensa. Ele se coloca muito nesse lugar de ter sido injustiçado ", explica.

"Mas por outro lado ele é uma figura muito importante", afirma a cientista política, "Não é possível pensar que uma liderança política do porte do Lula se torne isento nesse momento, o que não quer dizer que ele não esteja pensando em outras frentes e outras mobilizações", conclui. 


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